31 outubro 2006

eu espero que você tenha todas as tripas arrancadas, e que sofra seu coração arrebentando toda vez que tiver que olhar para uma mulher e perceber o quanto ela é pior do que eu.

30 outubro 2006

nada ficou no lugar



nada ficou no lugar
eu quero quebrar essas xícaras

laura félix

Mas Laura já sabia disso tudo, tudo já lhe haviam dito. Que é coisa pro tempo, que se há de ter paciência, que pra tudo na vida existe um remédio. Laura não queria remédios (já lhe bastavam os da enxaqueca), não queria paciência, não queria que se passasse nem mais um minuto antes do seu mundo ter o fim que esperava que tivesse. Então Laura saiu na chuva, molhou os cabelos, caminhou até o lugar onde estava seu destino e disse, bem baixinho, bem pausado, como se assim pudesse abafar toda a raiva que lhe fazia crescer aquela bola na garganta:
- Diz, então.
E seu destino disse, e ali deixou de ser seu destino, e Laura ainda tinha os cabelos molhados e as bolas na garganta, mas nem um nem outro a impediram de sentir o peito - e a razão - partidos em dois por terem sido tão bruscamente desditos e desmentidos. E seu destino ainda a abraçou, como num consolo, mas Laura já estava em outro lugar. E enquanto voltava pra casa, cada pequena luz era desfocada por uma nova gotinha de água salgada ou um novo arrepio no peito, desses que deixam os fiozinhos do cabelo arrepiados e a sensação de que alguma coisa ficou pra trás.

07 agosto 2006

parte dois

" - Bruto está doente... É saudável, então, sair de casa mal vestido e aspirar este humor úmido da manhã? Como! Bruto está doente, e se esgueira do leito agasalhado, para expôr-se ao contágio vil da noite, a este ar assim tão úmido e nocivo, para aumentar seus males? Não, meu Bruto, no espírito é que tendes uma doença, que, por direito e obrigação de esposa, preciso conhecer. Assim, de joelhos, pelas juras de amor que me fizestes e por aquele voto tão solene que nos uniu num corpo, uma pessoa fazendo de nós dois: peço dizerdes-me, a mim, vós próprio, a mim, vossa metade, o que vos deixa assim tão pensativo e que homens eram estes que esta noite vos vieram procurar; sim, pois é certo que aqui estiveram seis ou sete vultos que até da noite os rostos escondiam. "

01 agosto 2006


Ser teu pão, ser tua comida
Todo o amor que houver
nessa vida


É falar da gente. Mas pensar na gente não é pensar no amor. Porque o amor é, e ele é dito. É vendido. Combinado. É essa coisa de te quero bem. E a gente é força, é cuidado, é vontade. Não se vê o amor. Se fala o amor. Se prova o amor. Se mostra o amor. A gente não prova. A gente não mostra. A gente é a gente.

É assim, querer de amor, morrer de amor, sofrer o amor. Diz-se daquilo que move, daquilo que toca, que todo mundo busca, que todo mundo tem. Do amor diz-se a salvação, a gente não é a salvação. A gente é a gente, é assim, acorda e é, e vai dormir assim também, e come assim, e respira assim, e vive assim, vivendo a gente, respirando a gente, assim a gente. A gente é mais, porque é a gente.

E quando existe nas pessoas, quando surge nas pessoas, eu posso ver, posso dizer: aquilo é só amor. Não é a gente.

- Precisamos trocar a lâmpada desse abajur.
- Esse abajur não funciona mais há tempos, você sabe.
- Funciona sim. É só trocar a lâmpada.
- Não, não funciona. É sempre a mesma coisa. Você compra outra lâmpada, ele acende por dois dias e depois pifa de novo.
- Sempre compramos de 25watts. Precisamos comprar uma de 60.
- Não vou mais gastar dinheiro com esse abajur.
- Não fale assim, ganhei da mamãe. Vou tentar uma de 60 dessa vez.
- Compre, então, já que você insiste tanto. Mas não vai funcionar. Você vive teimando comigo. A lavadora de louças foi a mesma coisa. Gastamos uma fortuna no conserto e nada, nem liga mais. Com o abajur vai ser a mesma coisa.
- Tudo bem, então vou jogá-lo fora.
- Acho que é a melhor solução.
- Você faz isso pra mim?
- O quê? Eu?
- Sim, por quê não?
- Ah, sei lá...
- Vamos, ele é pesado, não consigo carregar sozinha.
- Esse abajur é antigo, né?
- É. Veio com a mamãe da Itália.
- Hum...
- Então tá, você leva ele pra fora. Envolva o bocal num saco plástico, talvez alguém queira pra alguma coisa. Vou dormir.
- Espera! É que... é um abajur bonito. Quem sabe seja a tomada. Pensando bem, também não é assim tão drástico, não precisa jogar fora, podemos deixar ele aí, de enfeite, combina com a estampa da cortina...
- Não, não quero entulhos na casa. Se não funciona, jogamos fora.
- Compre uma de 60. Mas se não funcionar mesmo assim, você joga fora. Você.
- Tá.
- E não me amole mais com essa história de abajur.

17 setembro 2005

Eram cinco degraus. Ela subiu os quatro, agitada, e sentou no topo da escadinha. Ele subiu mais devagar. Estava nervoso.
- Você tem problema de pele?
- Eu? Por que?
- Cada vez que eu te olho tem uma sarda nova aí.
Ela olhou pra baixo. Frio nos pés. Daria a ponta dos cachos vermelhos por um chá de maçã com canela e uma meia mais grossa.
- Você não tinha compromisso?
- Não dá mais tempo.
Ele era novo. Mais do que ela. Tinham pulado etapas, disse, tentando se justificar sobre janeiro, quando a trocou por uma carioquinha de dois falsos olhos azuis.
- Ah, se eu soubesse. Teria feito tudo diferente.
- Não, não teria.
- Teria sim. Sinto saudades tuas. Não devia ter te deixado, foi a pior coisa que fiz na vida. Me perdoa?
- Não tem o que perdoar. Eu entendo.
- Mas diz que me perdoa, por favor.
Ela ergueu os olhos. Viu as luzes da praça, as ruas vazias, devia ser umas três da manhã. Se distraiu com o vento. Ele levantou, deu dois passos, voltou, sentou. Os olhos encheram de lágrimas.
- Eu ainda te amo.
- Eu também te amo.
- Volta pra mim?
Ela tentou não sentir pena do menino de joelhos ao seu lado.
- Tá frio, levanta.
- Volta pra mim? Escuta, eu ainda te amo. Nunca mais vou te deixar ir, nunca mais vou te magoar, eu aprendi a lição. Olha no meu olho, por favor. Eu preciso de você, do teu carinho, dos teus beijos, volta pra mim, por favor, eu não sei mais o que fazer.
Ela pensou antes de responder. Levantou.
- Eu vou te amar pra sempre.
As lágrimas vieram com violência pra ele. Agarrou o próprio rosto e chorou alto.
Ela pegou um taxi e foi morar na Nova Zelândia.

09 setembro 2005

nesse lugar tinha um poema
cada linha era um astro
cada estrofe uma estratégia
e cada verbo era um nome de mulher

(porque diziam que mulheres combinavam com estrelas)

nesse lugar tinha um poema
mas o poema fracassou.

chorando, se agarrou nos braços dela. ela olhou bem séria: O que é que você quer? que alguém te pegue pela mão, à força, e te leve até o outro lado? que te joguem no mundo sem perguntar tua opinião? que te tratem como criança?
ele parou de chorar. Depois falou baixinho: É. Exatamente isso. E limpou uma lágrima que veio sem querer.

08 setembro 2005

você tem (1) mensagens novas

Oi amor. Chegou bem de viagem? Que bom. Eu ia te ligar no celular, mas você sabe, o telefone tá bloqueado aqui em casa. É que eu tenho que te contar uma coisa. Te traí hoje. Beijei outro cara. Mas ei, não fica triste. Não, eu nem tava bêbada e ele também não me forçou. É que eu tava com vontade. Tava meio carente, sabe? E sei lá, ele tinha cara de quem beijava bem. Mas eu não fiz por mal. Tá? Não fica com raiva. Quando você ouvir essa mensagem, me liga? Vou esperar. Beijão, e ah, bem vindo aqui de novo.

sem discurso dessa vez

Eu tava numa boa, preparando um sanduíche. Daqueles com ovo, alface, pedacinhos de frango, tudo o que tivesse na geladeira - e olha que nem era muita coisa. Fim do mês, época de fazer supermercado. Ia me acomodar no sofá pra ver o resto de um filme qualquer quando bateram na porta. Sempre batem na porta na hora menos apropriada, é sempre assim. Você tira um dia pra se dedicar a comer e ver tevê, não dá outra: eles adivinham e resolvem vir te incomodar. Pensei em fingir que não estava, mas esse tipo de gente não se engana: bateram mais forte. Eu só queria comer em paz, porra.
Larguei o sanduíche em cima da mesinha do centro, num lugar que achei entre um sapato e a caixa do yakisoba que eu tinha comido uns dias antes. Tinha que lembrar de tirar aquilo dali, já tava começando a cheirar mal. Abri a porta. Nem me olhou na cara, foi entrando, sentando no sofá. Fez um carinho no Hugão. Maldito cachorro, acha que todo mundo é dono e já vai se engraçando na perna de quem aparecer. Nem liguei, eu já tava pensando em me livrar dele mesmo. Fechei a porta devagar.
- O que é que você quer dessa vez?
A indiferença foi tão grande que um minuto depois eu ainda tava me perguntando se realmente tinha dito algo. Na dúvida, repeti.
- Ei, o que é que você veio fazer aqui?
Dessa vez ele me olhou. Mas não disse nada. Levantou, foi até a geladeira e pegou uma garrafa de cerveja. Procurou um copo no armário, mas estavam todos sujos. Pensei em dizer que a empregada só vinha amanhã, porque hoje era feriado, mas ele deu um gole no gargalo mesmo e eu resolvi ficar quieto. Sentou no sofá de novo, pôs o Hugão no colo. Filho da puta, pensei. Não gosto do cachorro em cima do sofá. Trocou de canal e pegou meu sanduíche. Numa mordida foi quase metade. Caiu um pedaço de frango no chão, o Hugo foi logo buscar, lambendo a maionese que tinha ficado no carpete. Resolvi arriscar:
- Sabe, eu tinha pensado em ...
Nem deu tempo de terminar. Ele largou o controle na mesinha, tirou um revólver do bolso da jaqueta e me deu um tiro na testa. Atirou em mim. Me matou! Filho da puta, na frente do cachorro. Atirou em mim. Engoliu o resto do sanduíche, desligou a tevê e saiu. E eu só queria comer em paz.

tão animador quanto uma daquelas bandejas de cem yakult's



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