21 maio 2008



you know how us, Catholic girls, can be. we make up for so much time (a little too late). I never forgot it, confusing as it was: "no fun with no guilt feelings" [the sinners, the saviors, the loverless priests - I'll see you next Sunday]

we all had our reasons to be there, we all had a thing or two to learn.
we all needed something to cling to.
so we did

[I sang Alleluia in the choir. I confessed my darkest deeds to an envious man. my brothers, they never went blind for what they did -but I may as well have]



in the name of the Father, the Skeptic and the Son, I had one more stupid question

what I learned, I rejected, "but I believe again", I will suffer the consequence of this inquisition (If I jump in this fountain, will I be forgiven?)


we all had delusions in our head, we all had our minds made up for us. we had to belive in something.
so we did




11 maio 2008

antônio ou de tudo que eu não conheço



aquele velho amigo doer deu lugar a um outro. um outro que ainda não conheço o nome, mas que está aqui há tempos, eu sei. aquele velho doer despediu-se rápido e grande em intensidade e em agonia, mas já passou. ventou apenas, como tudo e sempre.
esse doer novo não me é amigo, ainda, mas não tenho medo algum de conhecê-lo. é cria minha, e conhecê-lo seria assim como olhar no espelho. o vejo todos os dias, nos sonhos, no vidro, na rua. esse doer novo me parece mais calmo e mais sensato, embora forte como não tinha ainda visto. parece, também, que esse doer sabe mais de mim que eu jamais soube, e me protege. ele tem uma finalidade, posso sentir; portanto, momentâneo.

poderia chamá-lo doer-de-mudar, mas não sei falar com propriedade de uma mudança que está por vir - mudanças são instáveis e guardam remorso. poderia chamá-lo doer novo, mas são tantos novos e sempre mais que perderia a conta estalando os dedos. poderia chamá-lo doer forte, mas seria preciso testá-lo antes, e não posso seguir assim, com um doer desnomeado, um doer que não posso chamar quando preciso, um doer desconhecido de tudo. decido, então, por Antônio.


meu doer novo tem um nome.


01 maio 2008

Sobre a agonia de ser quem é


No fundo, é tudo sobre essa coisa — essa coisa sem-nome, esse monstro interior, que me come por dentro, dilacerando cada parte de mim que tenta tão desesperadamente se identificar. Esse sentimento constante que aparece aos poucos, e cada vez mais forte. Que me faz pensar e pensar e pensar, mas me impede de decidir a direção. A correnteza que me leva é intensa e forte e não poderia jamais duvidar sua existência. Ela não tem rosto. São só mãos, e dedos, e o tremor das pernas. E só.


Escrever passa a ser, então, o cano de escape por onde corre toda a dor. Um cano sem saída, sem desembocar, um cano em circuito, com joelheiras fracas, e vez ou outra vaza tudo, e demoro dias e dias no reparo, um reparo que é sem cuidado, sem vontade, um reparo que agoniza junto comigo e com tudo que guardo aqui. O mistério, então, se perde, e de repente acabo por ficar cada vez mais clara, mais rasa. Menos honesta.




A poesia dá lugar a palavras fáceis, que não dóem a mais ninguém a não ser eu. Escrever para os outros vira o escrever pra mim, e num paradoxo sem certezas as palavras superficializam a agonia, e tudo acaba em uma verdade sem graça, uma verdade comum. Que o mundo não passa de uma verdade comum. Que a verdade não passa de um oásis em miragem, que não existe. O deus ao qual nos agarramos pra poder fechar os olhos. Os olhos que a minha correnteza não possui.



Como as mil classes que deixei passar, como os quadros da minha infância, os peixinhos em forma de oito, as cores contrastadas. As fotografias que eu não mostrei pra ninguém. O espetáculo que eu trouxe ao dia a dia, mas não ao palco.

Metáforas são armaduras para quem não pode afirmar nada.



E em determinada esquina, me transformo em algo que não leva ao fim nem a xícara de café. Que, antes que ela termine, me explodem mais mil vontades, pesadas, pesadas, impossíveis de carregar. Um câncer. Um apodrecer que toma tudo em volta, aos poucos, e eu posso assistir ao desespero de mim mesma com as mãos atadas, uma corda que está lá sem existir. As pernas, então, tremem. As mãos apontam mais direções do que essa dimensão permite, mas não há uma cara para a qual eu possa olhar enquanto a mando tomar no cu.



Escrever passa a ser sentir tudo em dobro. Reviver cada sentimento. Artaud. Baudelaire. Goethe. Estar aqui passa a ser Adriana. Amar em canção a tudo que agoniza, assim como eu. Mas a agonia não está no coração, na sede, no desejo. A agonia está no amarelo pálido da parede, um amarelo que eu odeio, mas não vai se tornar vermelho até que eu o pinte. E pintar essa parede não é — a corda que não existe.



Levanto os olhos, finalmente. Existe um vão tão grande entre a janela e aquele mundo que há lá fora, um mundo pequeno, é possível segurá-lo. Dentro dele, mil faces, mil amores, mil artes diferentes, todas palpáveis, possíveis, mundanas. Dentro do mundo, eu, Adriana, cordas e mais cordas, e facas e fósforos, parados, em pó, à espera.



Engolir as dores dos outros, dores transformadas em páginas — assim como as minhas, cada uma de minhas dores são mil, três mil letras, que descansam exaustas em um espaço que não existe, não posso tocar. Minhas dores então já não são minhas, são de ninguém — e trazer companhia à coisa sem-nome, conforto ao desesperar, mas não traz direção a correnteza alguma. Ao invés disso, aumenta o volume, arranja outro desembocar (não o meu, o dos outros em mim). Que me dá vontade de estapear a cara que não existe, chacoalhar seus cabelos, para que pare. Estapeio o que não existe. Percebo, sem nenhuma emoção nova: não vai parar.

Maiúsculo

do Lat. maiusculu, dim. de maiore
adj.,
diz-se de certos caracteres alfabéticos, de tipo especial e maiores dimensões, que se usam como inicial de período ou de nomes próprios.

maiúsculas para quê? a palavra é sempre (não confundir com constante). quero a chance de poder seguir sem condenar o passado a um período com fim. ponto final é pra respirar. letras maiúsculas, pra começar outra coisa, deixar a anterior pra trás. e por quê usar a mais alta justo no começo? quero a chance de manter a minha letra mais alta pronta, junto comigo. sempre.

23 abril 2008


foram precisos cinco dias pra que pudessem reconhecer aquele caminho pelo qual estavam seguindo. ambos já estiveram ali antes, mas dessa vez as pegadas, e a brisa, e os sons, era tudo tão brilhante e luminoso que as retinas não absorviam o outro lado, aquele que já tivera sido traçado antes, que já era conhecido, que foi evitado com tanta força durante alguns dias da vida, aqueles dias em que o chá não tem gosto e os joelhos sentem dor, e os dentes ficam sensíveis e os lábios não servem pra mais nada que não seja beliscar. passaram assim os cinco dias, ofuscados pela paisagem branca, clara, silenciosa e fria, que até era bonita, mas destoava em tudo do interior, da força, do barulho da madeira crepitando no fogo, das cores bonitas de tudo em volta, da letargia de um tempo que não existia pra ninguém, a não ser eles mesmos.

cinco dias. na manhã do sexto dia, o lápis amarelo fogo que nunca tinha sido apontado retomou sua cor original, um laranja-amarelado pálido, um tom pastel, que assim como tudo em volta, de repente não era digno o suficiente pra ter um nome próprio. quis dizer que, de todos os nomes do mundo, nenhum serviria, nenhum dos nomes dele seriam suficientes, nenhum dos nomes dela alcançariam a altura da vontade. quis inventar outros nomes, nomear em sílabas tudo o que os olhos viam, inventar fonemas novos pra cada um dos dias que passaram, e depois compor uma música que não existia no espaço, só no tempo. quis que os olhos não piscassem nunca mais, que fosse quebrada em mil pequenas partes, e que fossem absorvidas uma a uma, ao som da música que não existia. quis ser conhecida, interpretada, de mil jeitos e mil ângulos diferentes pra cada uma das mil partes que tinha se tornado. quis que ele inventasse um nome pra cada interpretação, e então ela poderia finalmente saber como ela era em cada dobra e cada essência, das muitas mil que guardava no peito. quis que a conhecessem; quis que fosse ele. quis apontar aquele lápis, usar a borracha, mostrar que todas as cores e coisas e brisas devem ser conhecidas, e quebradas parte a parte, e tomadas em doses pequenas, porque tudo está ali exatamente onde deveria estar, e nós precisamos disso, meu deus, precisamos, você não vê? quis que ele identificasse cada som de cada centímetro de cada sequência sua, inteira, completa, em partes. pensou que podia-se encontrar coisas boas, devo ter alguma coisa boa. quis ter várias, quis mostrar. quis ser feita compreender. e de tanto querer, de tão intensa, tornou-se branca, e já não era mais partes. ele quis dizer calma, vai ficar tudo bem. quis queimar em fogo a boa lembrança que ela seria. e enquanto mais ele falava, mais branca ela ficava, e luminosa. quis que ela parasse, que voltasse a ser calor e cores, e brisa, e fogo, mas ela palideceu, voltou a pertencer às cores que não tem nome, ficou fria, retomou cada parte em seu devido lugar. voltou a ser inteira.



so break me to small parts / let go in small doses
but spare some for spare parts / there might be some good ones

17 abril 2008


e se me perguntassem eu diria

que fiz que pude

que quis e que não

me enganei diria que

não dói não machuca

não deixa menor não entristece

diria que acontece mesmo

mas é normal então deixa

que aconteça diria que

não é o bastante nunca nunca é

o bastante e

que por isso mesmo -

eu não vou parar





22 março 2008

" Isabel me disse que escrevo como quem come. Todo dia, o mesmo cinza. "
cuidadosamente retirado do fotolog de priscilla menezes.

21 março 2008



dessa memória, que funcionou poucas vezes desde o último abandono - que foi o primeiro, que não houve tempo hábil para mais - e que foi assim: da primeira vez, desejei tão forte que nova iorque não estivesse lá, ao invés dela, o lago congelado onde me apresentaste a madrugada, e onde vi mais azuis que jamais vi em qualquer mundo, e onde o silêncio cortado pelo gelo grosso que rachava me dava um medo tão grande mas tão grande que eu engolia forte e os pelinhos arrepiavam e eu escondia, morta de vergonha, mas você absorto nem percebeu.


daquela outra, escrevi aquela carta que não era grande mas era funda, e que não pude mandar pra você porque ninguém conseguiu carregar, e olha que chamaram todos os carteiros da região, até das cidades vizinhas, mas era tão pesada, que o peso somou com o peso de todos eles juntos, e quando saíam da cidade caíram todos (os carteiros e a carta) naquela ponte que ficou bamba quando você passou com o jipe no caminho do trabalho, lembra.


aí teve a outra vez, que foi a última mas que doeu menos porque um dia a gente esquece como é mesmo que se dói, mas enfim, foi porque eu passei na frente de um café e tinha uma moça, toda de branco, tinha uma flor no cabelo, tão bonita. lia alguma coisa, parecia um convite, e ela tinha um olhar vazio e um respiro pesado e eu não sei o que tinha no convite mas o cabelo solto fazia uma escuridão embaixo do pescoço, e eu lembrei do meu cabelo e da minha escuridão e de como ela encaixava bem com o teu queixo, assim, quase que um quebra cabeças, e aí pensei que às vezes o quebra cabeça vem assim, de defeitinho, e a peça finge que encaixa mas não era bem aquela, olha, a cor é diferente um pouco, então lembrei que tinha que dar água pras plantas e colocar gasolina no carro, e esqueci da moça, do cabelo e de você. ficou só a escuridão.

24 novembro 2007

narciso


não me dou com gente burra. não ignorante; burra. gente que não sabe aproveitar o que tem, gente que se esconde, gente que tem medo do que é novo. não sou de pré-conceitos, mas isso não impede que eu tenha opiniões. não me dou com tecnologia; acho incrível mas me assusto. disseram que intimido as pessoas. maçã pra curar a ressaca. não quero conhecer chico buarque. fico triste dirigindo sozinha. não falo de mim pra ninguém. nunca fui acostumada a ser tratada como princesa; alguém resolveu fazer isso e me perdi. meu histórico é cheio de projetos largados pela metade. não tenho idéia de várias coisas. não sei quem foram vários grandes nomes. não sei nenhuma regra de gramática, escrevo por impulso. não quero fazer a diferente, eu sou a mesma coisa. as pessoas têm impressões muito erradas. as pessoas são chatas. ainda lembro de você quando escuto aquela música da alanis. prefiro cazuza na voz do meu irmão e nelson e chico na do meu pai. consigo compreender e apoiar a idéia de que sexo é carnal e é válido assim mesmo. minha idéia de traição é bastante particular. o mini buquê de flores do campo me agradou muito mais do que poderiam dúzias de rosas. lírios são mais bonitos. acredito no salto alto e acredito que mulheres bem arrumadas podem ser inteligentes. aprendi a ler com paulo coelho. o amor nos tempos do cólera mudou minha percepção de mundo; a tempestade de areia em enseada também. mudo e não tenho problemas com isso. uma vez, alguém me convenceu de que tudo é alcançável. viajo em dezembro pra voltar em março, mas, hoje, não tem nada aqui com forças suficientes pra me fazer querer voltar.



08 novembro 2007

o resumo desses dias de silêncio


quero a guanabara
quero o rio nilo



quero tudo ter
estrela
flor
estilo


tua língua em meu mamilo água e sal

25 outubro 2007



Era segunda feira quando vi Antônia pela primeira vez depois de tudo. Ela estava bonita, arrumada, laço no cabelo, vestido daqueles que bate um ventinho e fluuuf, voa. Passou por uma daquelas ruas pequenas de trás da igreja, com pressa e batendo forte os pés no chão, como costumava fazer sempre, mesmo estando recém-acordada. Antônia tinha uma pele branca e fina que quase a fazia doente, mas tinha nos olhos cor de amêndoas uma vida inteira que ninguém sabia dizer onde é que poderia acabar.


Antônia passou, e antes que eu pudesse piscar os olhos, de estupefato que estava, ela sumiu pelos paralelepípedos. Não me arrependi. Que seria se a tivesse seguido? Se a tivesse visto? Se deixasse que mesmo pelo menor dos milésimos desse tempo do qual impulsivamente duvidamos a existência, tivesse mergulhado naquela vida sem fim dos olhos de Antônia? Não, nem pude. Mantive-me a salvo em solo firme, e distante, paralisado voluntariamente só por sentir que Antônia passava pelo mesmo espaço da Terra que eu.



Antônia sumiu pequena, e eu fiquei. Por algum motivo, alguma ironia, algum qualquer desses truques do destino que todo mundo reclama mas no fundo, bem no fundo, não vive sem, estávamos ali de novo, Antônia partindo e eu ficando. Diferente da outra vez, a dor que me acolheu ali foi uma dor miúda, daquelas que até dóem, mas têm como função verdadeira nos fazer companhia. Ali, sentados no degrau de uma pequena porta alheia, eu e minha dor-amiga, e não nos restava mais nada a fazer a não ser nos entregar de inteiro àquela sensação de paz. Antônia apareceu, de supetão, e sumiu assim rápido também, e me deixou de qualquer jeito que não sei descrever, mas é como se todo o ar pesasse tanto que seria impossível pensar em mexer os membros, e ao mesmo tempo o vento vem leve, e respiramos, e isso seria tudo.



Depois de segunda feira, não houve mais dia nenhum. Tudo se emendou e a noite juntava ao dia e o dia virava a noite que virava o dia que era o mesmo que a noite e a noite que não tinha fim seguia sempre, sempre, e eu e minha dor-amiga não vimos passar terça, ou quarta, ou sexta, porque todas as cousas condensaram-se em uma e nada mais podia dividir-se, e por fim não podia eu pensar mais nada a não ser que eu era a dor, que era a noite, que era Antônia - que partiu.





Imagem: Venus Terrae, Flor Garduño

05 outubro 2007

cores de madá




Eu te vejo sumir por aí, te avisei que a cidade era um vão.


já faz tempo, um coração bonito me disse
Vai,
que tu não cabes mais aqui.

04 outubro 2007



Quando acordei, chegava em meu travesseiro uma doce-leve parte do sol - ai de mim quando esqueço de fechar bem as cortinas vermelhas. O tempo que passava e eu não sabia me fez calma, e lembrei com saudade de quando me dei conta que o que me deixava feliz era desenhar um ponto de interrogação bonito. Acho que foi no dia que faltou luz que pensei que de nada vale uma pessoa ler todos os livros do mundo que alguém algum dia disse que eram bons e deixar de viver suas próprias linhas. Fiz um chá enquanto Daniel lavava a louça e me dizia que Goethe precisa ser lido várias vezes e em várias traduções. Às vezes tenho vontade de ser Werther, mas às vezes quero ser Charlotte, e é aí que as janelas embaçam e eu fico sem ver o jardim. Daniel continuou me explicando que Morrison estava em uma fazenda no Texas e que re-escreveu The End cinquenta e duas vezes, mas não vai mostrar para ninguém. Eu só penso que seria bom gastar todo o dinheiro do mundo em uma tarde, e à noite ficar sem nada e ter de vender as roupas para comprar café. Choveu na última terça, mas foi bom por causa da seca.

30 setembro 2007


Passo a passo para desamar alguém

1. siga andando de olhos fechados
2. pise, 3 vezes e com força, na flor mais bonita que encontrar no caminho, não importa se rosas ou orquídeas ou florzinhas da fortuna, pise. não olhe para ninguém
3. roa todas as unhas, deixe o cabelo crescer, passe a usar sabão de côco
4. escute jazz


5.
nunca mais beba água, para que não haja chance dela sair pelos olhos


28 setembro 2007


Me trago pra dentro de mim: já não me sou. Que desejaria com todas as fracas forças do meu útero pálido que não tivesses transado com mais ninguém que não fosse eu. As bordas daquela conversa foram cortantes e serviram pra tudo que os caninos puderam almejar, menos pro teu maior impulso - reconquistar meus lábios como os virgens que imaginavas. Não, nem tão virgens assim, e a notícia te foi sangrenta que espirrou do lado de cá, e tive nojo. Meu coração transborda, e não é de doçura como fora em outros tempos - agora grito, e o grito agudo é o que te serve de dor mais forte, e as pontadas que te ofereço com cortejo não terão respeito pelo teu próximo motel barato. Entenda que o amor que mantinha aqui, sagrado, e bonito, e seguro, tornou-se profano e eu já não me dou com essas coisas. Nem mais minha carne te é servida, nem mais tua carne pode te salvar. Se me trago toda pra dentro é porque não posso me expulsar mais do que já fiz; o mundo é hostil e você sabe (maldito seja o momento em que largaste mão de proteger meu lado doce, que era um doce raro, tu sabes bem, mas já não existe, que tudo que corta deixa marcas, e tua lâmina flácida saiu com furor mas sem certezas e acabou por destruir as nuvens que suspenso te mantinham) mas os espinhos de minhas flores hão de fazer um bom trabalho. Não penses jamais que tudo virou pedra, porque se tem uma regra que meu coração sabe de cor é que é preciso sair por aí amando todo mundo. São só as todas coisas que minha boca urgia em te mostrar (mostrar, porque de palavras não há nada) que correram porta afora e só deus sabe quem lhes conseguirá botar rédeas.





Com carinho,

04 setembro 2007


carta em fevereiro


Páro na frente do laptop com aquela expressão vazia de quem espera sentado no saguão do aeroporto. Não entendo por quê essa maldita igreja não cala a boca, é todo dia esse tormento, e todo dia nos esforçamos em aguentar, mas hoje é a perfeita ocasião pra sair na janela de camiseta e calcinha e gritar bem alto: vão tomar no cu, seus hereges! - aliás, seria, se eu não parasse na janela com cara de cachorro enquanto percebo o quanto fico amolecida até com essas músicas babacas. O problema todo foi que encontrei um cartão seu de pouco tempo atrás, quando cheguei de viagem e você foi me dar as boas vindas com flores, flores cor-de-rosa, que nunca serão as mais bonitas do mundo, mas naquele dia eram quase surreais. E de repente, havia você por todos os lados, o bichinho que aperta e fala alguma coisa em inglês, o ursinho de pelúcia, a blusa de sair que eu não tinha, o livro que você me deu sem nem conhecer o autor, mas eu insisti e foi como se fosse uma recompensa por eu ter te apresentado à maravilha literária que são os sebos. Então eu começo a beliscar os lábios, mas logo páro, porque senti como se ainda estivesse próxima a levar um tapinha de reprovação. Os cd's que colei na parede me lembram do teu vício por informática, e por joguinhos estúpidos onde todo mundo mata todo mundo, e das vezes em que tive que esperar mais uma rodada de pôquer virtual antes de saírmos. Eu tenho pensado muito nos últimos dias, ou muito pouco talvez, ou muito frequentemente sobre o mesmo assunto e odeio o fato de não ter tirado nenhuma conclusão satisfatória ainda. Às vezes me arrependo de ter mudado o relationship status do orkut, mas fazer o quê, as coisas mudaram agora, e as tentativas de conserto foram sabiamente consideradas "hábito" por você. Você está certo. Virou uma zona essa coisa de "não te amo mas quero você por perto", é ridículo, tive 13 anos de novo, e olha que nem sou assim tão velha pra estar dizendo uma coisa dessas e me sentir inovadora por isso. Aliás, a própria Alanis o fez. Não que eu ainda a idolatre, até porque ultimamente ela só tem jogado lixo nos ouvidos alheios, mas em 98 ela era boa, e eu tinha 10 anos, e quando fiz 13 tudo encaixava completamente. Enfim. Acho que você estava certo quando disse que eu tinha que sair por aí e conhecer gente nova, e ter novas experiências, e fazer mais sexo e beber mais. Você disse seis meses, não acredito que isso seja tempo suficiente, mas ainda assim penso não poder levar até lá. Julho, imagine, Julho! Julho é muito longe de Fevereiro, e é um mês com um nome ruim. Não sei por quê nomes tão parecidos com nomes de gente. Junho? por quê não Junior, de uma vez? E Julho? Sempre me lembra de quando fui "a outra" de um tal aí chamado Júlio. Terrível, muito melhor Novembro. Não lembra ninguém, é um nome bonito, nos leva a pensar em tempo. Enfim. Novembro foi legal, ao menos o primeiro. Fato é que são 21h27, você já deve ter chegado em Curitiba, e tudo o que eu comi hoje foi um bife duro com arroz gelado. Desde ontem à noite não saio da cama - por opção, tudo bem, resolvi refletir, não que eu ache a coisa certa, mas, caramba! já nem sei mais o que querer, entende? Acho que até entendo o rumo que as coisas pegarão daqui pra frente, e concordo com ele, embora às vezes me dê vontade de tomar mais 5 Dramins e dormir até Agosto, não, Agosto não, é aquele mês em que tudo dá errado. Quer saber, acho que vou assistir Mogli e fazer um Nescau de Leite Ninho - acabou o leite aqui em casa, a mãe só chega amanhã, você sabe - e dormir. Amanhã acordarei linda e graciosa, como você nunca viu (azar o seu não poder me elogiar amanhã) e darei início ao meu primeiro dia antes de chegar Julho - embora eu ache que Julho nunca mais chegue.




# julho chegou e setembro também, eu continuo sendo uma bichinha que só sabe falar de relacionamentos.

25 julho 2007

para redecorar teu dentro, precisas organizar teus dotes. por cor, primeiro, porque tamanho nunca fora bom medidor. precisas pôr os vermelhos nos lugares mais visíveis, porque se passarem muito tempo trancafiados, hão de explodir. vermelhos precisam de ocupações diárias, jamais servirão como adorno-só. depois, podes deixar os lilazes, que é pra dar o equilíbrio. lilazes não precisam ter ocupação, mas devem estar visíveis, sempre - lilazes são carentes e precisam ser valorizados. os carinhos de quinta-feira, o beijo do amanhecer, o olhar da saudade instantânea, de roxo-leve, magenta azulado, tons de sabor. o branco de teu peito, deixas no teto, e só no teto, porque o branco não admite ser deixado por baixo; acredita que prevalecerá em cada final que houver. teu verde... ah, teu verde. esse deixas em um ou dois lugares, mas em pequena quantidade; o verde é aquela dor-de-esperar que manténs sempre aí, mas escondida. não se pode percebê-lo muito, ou tudo vai por água abaixo. o verde tem que haver, mas escondido dos olhos. é preciso que exista, mas não se pode perceber. o amarelo entra todo dia sem que precises tomar conta. o amarelo vem sozinho pelas frestas, pelos buracos, pelas falhas que tens aí - te ajuda a pesar menos, te diminui da densidade, te flutua outras cores. deixa o amarelo, mas não permita que tome conta - ou tudo parecerá sempre outros tempos que não esses. pretas serão as cores de contorno e os contrastes de teu dentro (jamais as sombras, sombras não vão haver, não podem nunca, não dou permissão) e o fundo dos eventuais olhos que virão a passeio. teu azul, tu dissolves. dissolves todo, como em aquarela, e aplica de leve, uma pincelada em cada outra, pra deixar de tudo um completo. o azul é preciso em cada parte, para se lembrar que é o azul que te cresce, é tua dor que te lança, é teu ardor que te aumenta. que falte vermelho um dia, ou preto no outro, mas teu azul não há de faltar; teu mundo te garante dele, teus olhos o encontram, teu dentro o absorve, mexido, diluído, intrínseco

para tudo, teu maior

21 julho 2007


o que fazia Marina tão doce ninguém sabia dizer, mas ela era como um quindim de domingo: leve, viva e maciça. Tais argumentos não a deixavam nunca, nem ao menos quando o vento a desfazia dos cabelos e da sanidade. André dizia, enquanto Marina não estava, que tudo [a amplitude do tempo nos dias de outono] se resumia à fugacidade das coisas. André era assim - falava profundo - e Marina poucas vezes o viu de perto, mas pra ela não importava, não o amava, nunca dele precisou. André a precisava - não só dela, André ventava tanto, e nem sempre a fugacidade o acompanhava. Eu conhecia André no íntimo, ou o conheci uma vez, mas então ele descobriu um amor novo em outro estado, ou algo assim, e deixou-se sumir por um tempo. Voltou para ver Marina.

Eu ouvia André e fingia acreditar nas sentenças que dizia, embora não compreendesse metade delas. Marina ainda estava distante quando Matheus acendeu um cigarro - não fumava desde 82 - e sentou no banco, descrente e pensativo. Expulsava indignação ao realizar que não se pode saber o que está por vir. "O inesperado mora no pensamento solto".

Marina demorava; passaram-se três mil anos até que chegasse. Antes disso, fiquei calada, atenta a tudo, ansiosa pela chegada de Marina, doce Marina. Estávamos quietos. Leandro não sossegava com a jaqueta, tirava e punha, ignorando o vento, a chuva e a neve. Só não aceitou um cigarro por profundas raízes ideológicas presentes em qualquer uma de suas palavras, sempre. Marina o tinha descoberto em uma noite calma e desde então passaram a ser amigos, embora saíssem faíscas toda vez que discordavam de opinião. Para Leandro, era um sinal de eternidade. Eu olhava pra Leandro com a mesma ansiedade com que esperava Marina.

Só Renan não se abalou: conversava comigo sem expectativas, as quais, se existissem, eu não respoderia, ele não poderia jamais esperar que eu prestasse atenção em tantas palavras soltas. Renan era amargo, mas apreciava o silêncio e o amor. Marina era pra ele como um rio de águas calmas, e por esse rio Renan caminhava sem escorregar.

Quando Marina chegou, só Renan manteve os olhos.


então quase odiava o que não contribuía para o amor desesperado gritando dentro dela.

caio fernando abreu.

18 julho 2007


a agonia constante de um passado que ainda não passou é como câmera lenta. você tem vontade de esticar os braços, abrir a janela, andar um passo ou dois, mas não consegue, não é tempo. a lentidão se transforma em densidade e piscar os olhos passa a ser uma tarefa doente, impossível. um passado que não morreu é o câncer da disposição; tudo se torna difícil e vagaroso, adoecendo, correndo riscos. o que se espera de um presente que não começou? um presente que não dói mas não acalma, que paralisa, mas nem isso. é um roer de unhas, é o pó de uma mesa que estará pra sempre empoeirada, ou pelo menos pelos próximos dois dias, mas o tempo não importa - e tudo o que importa é o tempo.

são caixas recheadas de coisas que não podem ser jogadas fora, mas não podem ser vistas, ou se fere o coração. um portão entreaberto, ninguém entra e ninguém sai, um estado de letargia promíscuo, que não decide, não toma parte, não permite qualquer coisa.

sinto que corri por um tempo muito longo, mas não sei por quanto tempo e nem qual era a direção.

no dia em que aquela árvore da rua fagundes varela perdeu uma flor o tempo passava em corredeiras.
 

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