06 abril 2009

"o que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento."

de Instante, Drummond.

desalento

sim
vai e diz
diz assim
que eu chorei, que eu morri
de arrependimento
que o meu desalento já não tem mais fim

vai e diz, diz assim
como sou infeliz no meu descaminho
diz que estou sozinho e sem saber de mim
diz que eu estive por pouco
diz a ela que estou louco pra perdoar
que seja lá como for, por amor, por favor é pra ela voltar

sim
vai e diz
diz assim
que eu rodei, que eu bebi, que eu caí, que eu não sei
que eu só sei que cansei, enfim
dos meus desencontros
corre e diz a ela
que eu entrego os pontos

24 março 2009

só

você escapou, pequenino. quando acordei o sol já estava lá fora, é essa mania da vida de esfregar na nossa cara que o mundo não parou só porque é assim que nós sentimos, e não só ele não pára como cotinua a esperar de nós todas aquelas coisas que devemos ao conceito de civilização, os dentes bem escovados, a cama feita, a vestimenta apropriada, o dia nosso de cada dia que está lá sob sol ou chuva. hoje faz sol, mas um sol fraco e tímido, que teve de subir por uma convenção física, mas que entende muito bem que não é bem-vindo.

você escapou, pequenino. foram treze dias sem notícias, sonhei contigo no décimo quarto, se perguntarem não sei dizer quais os caminhos que nos levaram a uma cama barata na região metropolitana no décimo quinto. o curso natural das coisas desaprova, aquele mesmo curso que faz o sol levantar, mas desaprova pra mim apenas, você pareceu confortável e eu não quis interromper e então eu entendi que havia um pouco mais que isso, que ainda havia janeiro e fevereiro e março mesmo que pela metade, e março já está acabando, e com ele o quê.

você escapou, pequenino, mas você vai e volta, e diz coisas como que bom que continuamos juntos mesmo depois de tudo aquela, e eu vejo o sol cor-de-lis e quase sinto cheiro de lavanda e aquela brisa pacífica de viña del mar, mas bem sabemos, quase não é, quase não tem cheiro, quase não tem brisa, e então estar ao seu lado é como uma corda bamba, eu sei que as facadas virão mas nunca sei de onde e por isso não posso defender, e elas vêm, sempre vêm, e você diz se não fosse assim não teria graça, ora, às favas com a graça, a graça que se estrepe, eu não quero graça não. então você diz eu sou assim, me aceita, mas não vê que eu aceito, que já aceitei, que aceitei como nunca havia aceitado e que ainda não entendo como pude aceitar tudo aquilo que condeno desde o princípio, mas que nada é eterno, nem mesmo a aceitação, eu penso tudo isso e fico quieta porque sei que basta uma vírgula colocada no lugar errado pra tudo ir pelos ares, é assim que eu vivo, nesse cuidado louco.

você escapou, pequenino. bem sabe você como corri pelo caminho buscando essas tantas pequenas-chances que encontrei, e tanto eu corri que voltei a gostar mais de mim mesma e, por consequência, pensar racionalmente. seja mais egoísta, você diz como quem quer dizer pense mais em você e não em mim, porque bem sabemos, não adiantará nada. e eu olho e respiro porque não há o que dizer e então você diz que o 'amor' não é o mesmo e eu dôo, mas penso que deveria botar entre nós um espelho, virado pra ti, pra que pudesses olhar nos próprios olhos e ver como tudo parece patético e bobo e como a tua cara condena muito mais do que tu gostarias, às vezes os olhos dizem muito mais que a boca, quem sou eu pra convencer, mas se houvesse o espelho talvez você risse e dissesse tudo bem, tudo bem, mas lerei durante as tardes.

você escapou, pequenino. escrevo desacreditada porque se goethe não seduziu que dirá eu. herança do décimo sétimo fico amortecida, alguma coisa mudou porque há uma calma aqui dentro que eu não condeno mas que torço tanto pra que vá embora logo e volte o furacão de outros tempos. como já disse, desisti de todos os pequenos-jogos que conheço bem porque sei não fazer efeito contigo, pensei talvez melhor ser honesta uma vez na vida, não que tenha dado certo, mas considere a tentativa. o mundo anda girando de um jeito estranho e sob certa luz declarações mais parecem despedidas, adeus têm cheiro de até logo, quem vai saber, é como meu desejo agora de saber se haverão mais vinhos, mais sinucas baratas, se haverão mais risadas embaixo de árvores, pequenas-comidinhas, discussões ideológicas, se haverá alguma das cento e doze oportunidades de que precisamos pra fazer tudo aquilo que foi combinado, uma cachoeira, um jantar longo, um álbum de fotos, ninguém há de saber o futuro, me diriam, e eu responderia dizendo que ninguém há de controlar o que se quer.

você escapou, pequenino, e lembro ainda de tudo aquilo que teu corpo diz sem que você perceba, porque o corpo é o dono do impulso, não se escolhe as palavras, não se reprime uma vontade do corpo, ele é todo menos dócil que a língua, ele fala por si, e ai de você se ouvisse tudo o que ele me diz quando você me beija a testa, acarinha o joelho, procura por baixo da mesa meus dedos pra brincar, enche o pescoço com cinco ou seis pequenos beijos. cairias duro e surpreso se soubesse o que teus olhos vêm gritando toda vez, mesmo de longe. propus no décimo sexto que continue a me dar seu corpo, que entre você e ele, talvez ele goste mais de mim. me poupo sem saber dos pensamentos sobre tal convite, ele existe, tu aceitaste, está aí, e não o nego, é um convite racional, como tudo me parece ser agora, cru mas seco e sem expectativas, como tu querias e eu, humilde, acatei, bem sabendo que encaras tudo como se não se importasse, como se não fizesse diferença, é assim, ótimo, se não fosse, estaria bom também.

você escapou, pequenino. esperei por algo que não sabia o que era e que jamais saberei porque não é feito para chegar, aprendi a entender e agora calmo. nada muda desde o décimo sétimo, anestesiei e sigo assim no esforço de manter tudo do jeito que foi deixado. é certo que há o grito contido e ele haverá de vir, só não agora. é que há tudo a se dizer, mas não há ouvidos, então se fala a esmo, oferecendo a opção. é só que não cabe tudo aqui.

08 março 2009

enluar

quando a vodka já não é suficiente, o céu escuro obriga a pensar. uma dose seca, quente, ácida, seria mais funcional - mas se há agum momento em que a mente decide no que é que há de se pensar, esse momento é aquele dos pequenos pontos de luz, do vento frio, de quando boa parte da gente que é normal é recolhida à cama, adormecida, confortada depois de uns dias que têm durado tantas horas, e só quem sobra é aquela outra gente, que vive da noite, que vive aos pedaços, aquela gente da insônia, das luzes baixas, do vinho e do jazz, ou do cinzeiro-sambinha-e-cerveja, apenas.
quando a vodka já não é suficiente, é preciso aquele pensar que vai por onde quer: é certo, quase sempre caminhos já conhecidos, mas com um pouco de sorte se apega a algum atalho ou trilha bruta e de repente o todo se dispersa onde é possível dispersar. dali, de um dos poucos lugares onde o previsível é errôneo e as cores têm cheiro de pólvora, dali bem sabe que ninguém escapa imune, não é tempo de chão, não há virgens eternos.
e quando o tempo é esse, tempo de ventar apenas, tempo não de vodka, mas de lua, não se adianta escrever, que nada prestará, nada fará sentido algum. obrigatório apenas apertar os olhos, procurar um foco - mas não sem antes soprar as nuvens do céu inteiro.

03 março 2009

das coisas à toa numa manhã de domingo

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bem se sabe que sou péssima em explicar razões. nunca reclamei tal direito, portanto. pensava apenas que as vontades justificavam atitudes, e que vontades dignas são responsáveis por atitudes justificadas (ou justificáveis). vez ou outra, quando é preciso pensar sobre coisas que faço ou digo, enfio os pés pelas mãos, sem muitas desculpas. também isso seria justificado.
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defendo também tudo aquilo que dói, tudo aquilo que come por dentro, que ferve, tudo aquilo que obriga a algo novo, inédito, melhor. defendo adriana que canta que gosta de quem tem fome, de quem morre de vontade, de quem seca de desejo, de quem arde. defendo garcía márquez, que diz que só se vale a pena falar do amor. defendo nelson rodrigues, que mata seus personagens em noites desertas, no meio da rua, por causa de um beijo. defendo cazuza, cartola, kundera, drummond.
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gosto em você da parte que não faz de mim o que eu não sou. gosto da parte que não me diz como sou bonita, como todos os outros me querem, como sou quando escrevo, quando falo, como sou mais velha de espírito, como não pareço as meninas bobas de vinte anos. gosto em você da parte que não se apaixonou, embora isso também dilacere por dentro. gosto porque não me é comum, porque o comum é sempre oposto.
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gosto em você de beijinhos no pescoço e de conversas despretensiosas, misturando o que é possível de se misturar entre amizade e desejo. gosto em você da vontade que tenho de te mostrar tudo que conheço, tudo que já vi, tudo que talvez haja a chance de você gostar também. gosto em você do que me faz pensar, do que não me é comum, gosto em você da pessoa que eu nunca vi, de mostrar como é a humanidade em palavras que não têm outra função a não ser serem belas. gosto em você das lembranças que carrega na barba, no cabelo, na bermuda, no violão. gosto em você da sinceridade jogada na cara como uma navalha afiada em pedra. que rasga. gosto em você do novo que nasce em mim, da calmaria, do estar tranquilo em se estar junto. e se não se pôde ser assim em todo, assim foi ao menos do lado de cá.
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o que dói hoje é o que não doía antes, é o querer mostrar e não poder, o querer estar e não poder. é um doer novo, que eu nunca reneguei (porque não há de se renegar o doer), e aceito de bom grado, embora pense que a calmaria ainda valesse um pouco mais, porque todo mundo sabe, é melhor ser alegre que ser triste. o que dói hoje são os planos esquecidos, as fotos não reveladas, aquilo tudo que era pra ser feito e não foi. o fim que é triste por ser fim, mesmo o fim que esquece em cada um aquele pouquinho de esperança. que se houvessem certezas, o coração prometeria mundos, prometeria uma vez a cada quinze dias, prometeria dias sem cobranças, sem desesperos, apenas a felicidade de poder se estar junto quando se dá vontade, e apenas isso, e o coração os prometeria, sem problemas, sem dores, apenas a disposição. mas não há certeza alguma, nunca, e nem poderia haver: a importância de um amigo não é a mesma importância de alguém que se queira ver bem mesmo contra si próprio, não é a mesma importância de quem se quer beijar na boca, levar à cama, apanhar flores no caminho, dizer palavras tolas às estrelas, dizer finalmente as palavras que são proibidas.

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o que dói hoje é a certeza do meu dramalhão barato; do gosto mórbido que tenho em ver um orgulho ao chão, pisado, arrastado, maltrapilho - mesmo e principalmente se esse orgulho for o meu. que isso não me aumenta e nem diminui, que não sou por isso mais ou menos louca, mais ou menos fraca, mais ou menos forte, desde que haja na história toda um alfinete pelo qual lutar, uma esperança na qual acreditar. que sou romântica até o fim das carnes, e não no sentido amor romântico, mas no sentido das coisas que devem ser bonitas e literárias, como a arte e a poesia, sempre. vivemos naquilo que queremos. e se algum dia isso for possível, não há palavras mais a se dizer.


28 fevereiro 2009

há tanto a dizer.

15 dezembro 2008

a história que podia muito bem ser minha mas não é



Manaíra tinha o coração do tamanho de um alfinete. Manaíra era grande, forte, bonita, não daquele jeito tradicional de ser bonita, mas carregava nos olhos um charme sem fim. Manaíra não tinha muitos afazeres: lia um pouco menos do que gostaria de dizer, andava até a mercearia, todos os dias, para comprar pão e esticar os olhos pra um pouquinho além das janelas, contava uma vez por dia uma história que era mentira, mas que não machucaria ninguém. Manaíra tinha o coração bom. Mas ele era do tamanho de um alfinete.

Manaíra tinha problemas para dormir. Todas as noites, virava de um lado a outro mais de setenta vezes, algumas com força, e bruscamente, como se pra espantar alguma coisa que a estivesse entrando pelos cabelos. Manaíra recebia visitas todas as noites antes de dormir: eram todas as pessoas que haviam tentado - ou poderiam ter tentado - entrar em seu coração, mas não couberam por algum motivo. Manaíra pensou que algumas deviam ter os pés muito grandes, ou as cabeças, ou os egos, quem sabe - mas não faria diferença de qualquer forma, ela pensou, porque não caberiam, de qualquer jeito. Manaíra sofria de insônia quando procurava alguma maneira de fazer crescer seu coração compactado: nunca encontrou.

Manaíra lembra com carinho das vezes que, por alguma coincidência, ou simples sorte, conseguiu que sua pequenina sala de estar recebesse alguém por inteiro. Em todo o tempo, não seriam mais de quatro vezes, e ela entristecia, mas pensava que poderia ser pior e virava-se na cama novamente. Certa vez, entrou em seu coração alguém que ela jamais esperaria. Pensou que ironia!, tantas vezes querendo tanto que as pessoas me coubessem, e então assim, sem nem querer, elas me cabem, e ficou sem saber bem o que pensar e o que sentir, era ainda tão tão novo pra que ela pudesse sentir alguma coisa. Manaíra passou alguns dias com o coração-de-alfinete apertadinho, ocupado em todos os cantos, tendo de abrir a janela pra que seu hóspede pudesse respirar. Manaíra não queria sufocá-lo, mas era tudo tão pequeno naquela salinha de estar que, tendo o hóspede entrado, tiveram de sair os móveis, as flores, as almofadas, e Manaíra olhava de longe, porque afinal quem é que mexe a fundo no seu próprio coração? Foi quando o hóspede de Manaíra sufocou, não podia nem ao menos movimentar pela sala. Ficou triste, definhou, e de definhado que estava, escapou pela porta, em uma pequena agonia daquelas que coçam a garganta daquele jeito ruim de se coçar.

Manaíra assistiu à partida inquieta mas imóvel, deitada na cama, em um daqueles instantes adocicados, antes de cair no sono. Manaíra já estava meio inconsciente, mas lembra-se de ter pensado: ah, que pena esse coração tão pequenino.

Manaíra amanheceu com a sala de estar em ordem, à espera de alguém que a venha visitar.

as usual

Resoluções de novo-ano

comprar um relógio de pulso
revelar pessoalmente minhas fotografias preferidas
entrar na yoga
no pilates
no budismo
na umbanda
checar o orkut uma vez ao dia, no máximo
fazer uma agenda telefônica
arranjar alguma coisa realmente importante pra se preocupar
dizer, em média, dezesseis "foda-se" por semana
botar o coração em regime de engorda
reclamar daquilo que for preciso reclamar
e só
passar a olhar por quem não tem casa
não tem dinheiro
não tem saúde
olhar também por quem não sabe o que é que não tem
assumir o gosto pelas artes visuais
ler todos os garcía márquez restantes
julgar ainda menos
conhecer cinco novas cidades
esquecer o que se precisa esquecer
ser mais cazuza que regina
ser mais nelson que lispector

10 novembro 2008

te disse que entrava um frio-de-sol pela janela, mas não quis me vestir. o frio não tinha nome nem corpo mas sabia fazer os braços arrepiarem, assim, fazia tanto tempo que. do que é que a gente precisa pra se sentir vivo? ele perguntou, mas eu fiquei quietinha, como se soubesse a resposta mas não quisesse contar. no fundo, eu mal prestava atenção. é que o sol fazia um desenho engraçado nos cabelos dele, e eu olhei e achei parecido com um filme que vi fazia um tempo. era uma menina que tinha ficado pálida de tanta angústia que ela guardava, aí ela resolveu sair e conhecer o mundo. engraçado como as melhores decisões são tomadas nas horas de maior desespero. ele me perguntou baixinho o que eu ia querer comer, já fazia tempo que o mundo girava lá do lado de fora, mas eu nem percebi. sabe o que eu tenho aqui? um grande e fundo poço preto, preto não, azul escuro, e ele nem dói, parece que nem pra isso presta, ele só serve pra me tragar, e ele traga tão fundo, como se não fosse devolver nunca mais tudo isso que ele traga, as cores, as dores, meus cabelos, e isso me deixa triste, triste, como quando eu vejo uma criança com fome na rua ou quando o céu raia cor-de-lis, eu quis dizer, mas senti como se ele não fosse ouvir e então fiquei. ele se debateu um pouquinho com o lençol e deu risada de tão bagunçado estava tudo, engraçado, lá fora as coisas pareciam em perfeita ordem, mas naquele quarto, mas. enquanto eu pisquei eu pensei em um milhão de fotos e coisas que eu tinha pra dizer pra ele ou pra fazer durante a manhã, antes que chegasse o dia 22, mas me deu uma canseira tão pesada que eu só consegui suspirar. ele olhou e disse Você tá tão quietinha hoje, tudo bem? pensei que se eu tava quietinha não devia estar tudo bem, que eu jã não sabia apontar onde ficava o meu coração porque eu tinha a impressão que ele havia se diluído pelo corpo todo e perdido a essência e não fazia mais nada a não ser vagar pelas veias todas sem saber direito pra onde ir, coitado, não foi pra isso que nasceu, e essa coisa diluída de não saber o caminho transformava tudo em um grande emaranhado de coisas que não poderiam estar no lugar certo, mas não falei isso, não, falei só que estava tudo bem e que precisava ir trabalhar.
no caminho do trabalho não tinha flor nenhuma. já faz uns dias que a primavera começou.

08 novembro 2008

tenho andado distraído



depois do café, olho a janela que não me diz nada. são poucos os dias como esse; dias em que nem o céu parece saber decidir entre o sol ou a chuva. uma vontade contida ou uma confiança que se fez imprópria contróem setas dentro de mim, setas que não apontam, que simplesmente existem, como tantas outras coisas.


desde Laura Féliz que conversas não agregam tanto a mim como essas dos últimos tempos, últimos jantares, últimas preguiças, últimas dúvidas e decisões. calmarias de ser-em-azul, que chegam sem que as tenhamos chamado, que ficam, ficam, que se tornam parte de nós.


tinha treze quando me marquei pra sempre pela primeira vez. quatorze pela segunda. mesma época de Laura Félix, mesma época de André, mesma época de Clarice Drummond Artaud Cazuza e Cartola. mesma época de linhas e caminhos que me deixavam ver o final. desde então, apenas círculos.


poucas vezes me senti tão cansada sem cansar; tão funda sem doer; tão inteira sendo só metade. tenho saudade do ventar, do doer-leve, de Marina, cultivo aqui comigo o buraco das coisas doces devoradas pelas formigas de um tempo que atravessei sem ver. pela primeira vez desde alícia as borboletas voltam a percorrer o meu estômago, meu pulmão, meu pés braços mãos peitos pernas e a mente que ainda nunca dediquei.


me atrai aquela parte livre que passou tempos em casulo, mas não pelo casulo, nem pelas cores que lhe tomaram depois; me agrada o tempo enclausurado sem companhia, sem família, o tempo incluso, o hiatus solitário e doloroso, e cru. me atrai que esse hiatus seja temporário, que os ciclos se completem, que pra ele haja um sentido, uma razão; me atrai que tenha sido silêncio mas que então torne-se música, de melodia intensa e breve; me atrai que encante, que não tenha então raízes, que não tenha então limite, que seja cores. me atrai tudo que é intenso; me atrai o que vai acabar.


já não me dou com mudanças bruscas, já não sou mais da espera pelo dia-de-ser-tudo-para-sempre. mas coração é treinado; sabe entender quando o ritmo muda. sabe sentir quando desperta.

04 novembro 2008

já baixa a poeira nos livros da estante
os olhos de sol fitam rápidos
entorpecendo o peito em poesia

e eu que achava a prudência um dom
deixo-a para os mais bem resolvidos

a mim me basta respirar

03 novembro 2008

ê vinicius

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecidaE

se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

26 outubro 2008

narciso II

eu não sei o que o meu corpo abriga nessas noites quentes de verão. respirar de peito aberto é uma batalha a ser vencida dia após dia, com os olhos livres de buscas pelas verdades absolutas que nunca salvaram ninguém. carrego em mim a culpa condensada de ser a responsável por noventa por cento de tudo aquilo que condeno; e a esperança infantil do dia de cores fortes que haverá de trazer algodões-doces de mudança. há também a calmaria do coração quando me vejo frente a uma compreensão que me faz inumana, inacabada, indestrutível, e a tormenta aguda que me dói apática quando sinto vivo aqui cada sentimento novo - sincero, puro, cru - e que me faz intensa, inteira, impulso. sinto cada vez mais forte o cheiro doce da simplicidade que me chega à porta munida de dimensões que vi uma vez, mas que jamais esqueço; por vezes, entrego-me à preguiça, atrás de qualquer desculpa esfarrapada, e me deixo consumir cada pêlo, pele, parte, por um sol que acabei de conhecer, mas que sou íntima. do amor: quero fundo e crio aqui com o cuidado de uma mãe que acabou de parir - sou toda e inteira dos amores que escolho meus, mesmo que não os tenham escolhido. não me dou à senhora tristeza de aguardar que meus amores percorram o mundo e retornem a mim; sou provedora, apenas, encarando de queixo alto consequências eventuais. da tristeza: deixo vir com a condição de que venha em chamas, tudo que é tem de ser em todo. não me esquivo do caráter cazuza de tudo ou nunca mais, porque há de ser vivo vez ou outra. da coragem: vejo sempre dois ou três passos adiante; não tão perto a ponto de alcançar, não tão longe que possa desistir. da febre: sem ela nao sou. das lágrimas: saudades doídas do sal que adormeceu. do futuro: parto aos poucos a brisa da vontade. pra quando o verão nascer. pra quando chegar a hora.

"A culpa foi minha, chorava ela, e era verddade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar"
Saramago.

05 outubro 2008

é que eu amo o amor dos marinheiros
de adeuses, de despedidas, de cais e porto
mas é que ficaram os dedos no rosto
as mãos dadas, as frases erradas
os olhos fixos
teu olhar, em azul, ainda sussura
.
de bilico.

Eis que

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agora, todos os domingos, participo em vento e pulso aqui: O Diazepam. A idéia é de escritos diários mantidos por mim, por Manu Salazar, por Mari Cioffi e por Amanda Audi, compondo os íntimos de coração, e pelos brutos Sandoval Poletto, Chico Marés e Fábio Pupo, fazendo as vezes ósseas e avermelhadas. Claro que tal ordem não existe; vamos levando o mundo como o mundo nos leva, olhos abertos e braços dados com o acaso.


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25 setembro 2008


lembro de uma época, deve fazer uns quatro ou cinco anos. eu já tinha tatuagens. eu costumava visitar uma amiga num apartamento que ficava na esquina da lamenha lins com a visconde de guarapuava. o sobrenome dela é francês. ela queria ser advogada.

acendíamos marlboros vermelhos e abríamos garrafas de vinho ou de vodka e ficávamos assim, penduradas na janela, com nossas saias e nossos grampos de cabelo. discutíamos poesia - todas, as que líamos, as que nunca tínhamos lido, as que nós mesmas nos arriscamos a escrever. falávamos do rock n' roll e de florbela espanca. entendi meus primeiros baudelaires naquelas noites. bebíamos sem saber direito por quê, mas nos completávamos assim. quando achávamos que o apartamento já ficava pequeno em relação ao mundo, saíamos.

uma vez, vimos a rua 24 horas amanhecer. ela passou a noite toda batendo boca com um porco capitalista. eu tomei muitas taças de vinho - era inverno e a rua 24 horas vivia como nós. se não me engano, foi na mesma noite do show cover do led zeppelin ou dos doors. hoje, não é difícil compreender por quê tantas noites em claro me despertaram os olhos para um mundo outro que não este.

feirinhas do largo da ordem, noites em claro com palavras que não controlávamos - às vezes, nem entendíamos. estávamos no mesmo transe que permitia nosso pulsar. numa dessas noites, dei-lhe um beijo.

ontem um recado dela quase passou batido por mim. há tanto tempo que o mundo não é mais claro como aquelas noites - embora as saudades sejam tão compridas quanto. as vidas mudaram e o transe não é mais o mesmo, mas a herança do marlboro adocicado pelo vinho me traz de novo à florbela e a talayer. algum sopro daquelas noites passa ainda por aqui - então eu lembro de um tempo em que a lamenha lins era tão doce quanto ela.

13 setembro 2008

"que ela nunca fora assim, de tanta agonia pura, densa, toda vez que a olhava me parecia prestes a explodir"

03 setembro 2008

resolução de noites quentes ou tudo que sempre quis fazer mas me disseram proibido

....
......
.. .........




vou sair pra ver o céu
vou me perder entre as estrelas

02 setembro 2008





tenho uma hora e dezenove minutos pra viver tudo o que tem aqui


fome, um zunido leve na memória, aquela preguicinha gostosa de acordar sem pressa, prestar atenção no som que vem do outro lado da janela, a luz que vem do outro lado da janela, a estação que vem do outro lado da janela, mas que ainda não entrou. uma ou outra coisa que mexe quando meu sobrinho dá risada ou faz uma descoberta nova lá na sala, porque o mundo já havia acordado um pouco antes, um nervosismo sem remédio quando penso em coração, a ansiedade do fim de semana que amanhã bate aqui, a vontade de enumerar todas todas as vontades pra que nenhuma se perca, porque é isso que fazemos quando não temos nada a fazer, enumeramos vontades e sonhos e ânsias, que são tão nossos, tão nossos, talvez a única coisa que realmente nos pertença e só a nós, e depois abrir espaço pra uma melancolia breve e fina, a melancolia de estar aqui, de ser essa rotina agradável mas viciosa, vira e mexe queremos mudar mas as portas não alcançam. sentir o corpo acordar, esperando mais um dia daqueles que compõe, mesmo sem saber, uma solidez que passa batido mas que está lá. pulsando.


pulsar.



depois, viver o mundo.
 

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