04 junho 2009
pequenas coisinhas bonitas de todos os dias
você vai pro rio?
' iasamonique diz:
talvez :)
Flávia diz:
que massa
hahaha
vai na lapa
a lapa é muito você
' iasamonique diz:
muito eu?
Flávia diz:
é tipo
tem bar de samba, bar de mpb, bar de jazz, tem de tudo,
e é todo mundo misturado
e a cerveja é sempre muito gelada
e o povo anda bêbado cantando pelas ruas
aaaaaaaah, é lindo
maldito II - O Padre

Martine Franck, France. 1994.
Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus?
Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros,
nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos,
nem os bêbados, nem os difamadores,
nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus.
1 Coríntios 6:9
Mas por que razão gritam tão altos estes sinos? Não parece-me outra coisa que não a insistente zombaria àquilo que reprimo abaixo da batina. A meu mumúrio, que ninguém ouça. Nem mesmo Deus, se for possível.
Hoje aniversariamos, meu Pai; eu e esse meu respirar pesado, aliado fiel desde a primeira missa ministrada em Tua voz. A velhice de nossa comemoração guardo só a Ti e incapaz seria minha garganta de pronunciá-la em alto; esquivo-me de semear qualquer desconfiança quanto a botar em contas os anos de minha dedicação. Sei também que a isso nada tem a ver o Teu descontentamento, e à disposição deixo meus ouvidos para o que julgares necessário para a minha Rendição. Sim, meu Senhor, que me sinto digno de Teu perdão, embora há muito tempo tenha deixado de sentir o gosto do Teu sagrado corpo; o aroma do Teu sagrado sangue. Sim, meu Senhor, que tenho consciência do tamanho do tumor que se alojou em meu peito e do fracasso podre e pagão do qual sofri por ter deixá-lo em carne viva e, nem assim, tê-lo arrancado. De lá para cá, passaram-se mil ave-marias; vinte cinco mil pai-nossos; e não sei contar por quantas vezes senti o coração parar sob o peso branco de Seus olhares. Eis que revirei o Livro outras tantas vezes, como não fazia desde os tempos de seminário — e, meu Pai, por onde devo começar? Uma vida inteira de estudos não adiantou-me de nada quando o pecado me veio bater à porta e profanou em inundância todas as esquinas de minha vida. Que, nas mesmas páginas onde encontrei perdão e aconchego, achei também ameaças e terminâncias. Das mesmas palavras extraí determinações impiedosas e calmarias à correnteza do coração. Ó, meu Pai, que desta última vez deixei o Livro não só com lágrimas, mas com outro sentimento, um sentimento negro no nome mas de uma sinceridade tão intensa que custo a não vê-lo luminoso, uma coisa que me toma, por vezes, quando vejo o quanto somos reprimidos de sermos o que somos, o quanto sofremos na busca eterna de nos tornarmos aquilo que, na verdade, não nascemos pra ser, e que muito raramente o desejamos de verdade; que na verdade nada mais queremos a não ser poder gozar dos frutos que a vida nos oferece de mão amiga, sem que precisemos pedir — mas não podemos, ó Pai, não podemos, porque temos olhos em todos os lugares que nos perseguem e buscam e acorrentam e por vezes dão-nos chibatadas, e mostram-no alguma vivência passada de alguém que não reconhecemos como nossos e nem ao menos entendemos qual relação têm eles, indivíduos longínquos e tão indiscutivelmente egoístas como nós, e por quê temos de levar nossas atitudes com um pesar acumulado pelo qual não fomos nunca responsáveis, mas, se não o fizermos, estamos condenados a uma vida ainda pior do que esta, em outro lugar que não nos permitem nem ao menos conhecer as condições, porque tudo nessa vida é assim, um passo no escuro, e nós que estejamos prontos para tudo e qualquer coisa e nada mais digno do que nos resignarmos e agradecermos, não é, meu Pai, pela oportunidade de atravessar mais um dia de mágoas e tristezas e flechas atiradas contra o peito; somos gratos, sim Senhor, eu e os montes de pobres almas que vêm até a Sua morada pedir perdão por uma regalia a mais, por um desejo qualquer incontrolável que tomou conta de um coração outrora fiel, pela tristeza que nos levou a desejar o mal, pelo amor àquilo a que não se tem direito, pelo desejo carnal, pela revolta com essas grades postas por todos os lados, por ter que agüentarmos calados todo tipo de injúria e infelicidade só pra estarmos na fila daqueles que talvez, algum dia, tenham as almas aquietadas em um reino celeste que ninguém nunca provou existir! * ............ Vês, meu Pai... vês onde me encontro, onde é que me botaste, meu Pai, perdoa-me, por que me fazer passar por tanto? Eu, que sempre estive aqui a seu lado, agora derramando sobre ti tanta heresia, mesmo sabendo que por mais inquieto que esteja meu coração é Tu que sabes dos valores e da fé e que é nela que preciso depositar todo o meu ser. Quanta vergonha, meu Pai, quanta vergonha, ao sabão com toda a minha boca e toda a minha língua, que Teus sagrados ouvidos não hão de sofrer novamente a mesma imprudência. Eu, que aniversario hoje uma carreira toda de dedicação, ó, Senhor, perdoai, perdoai. Haverás de punir-me, não é? Já o prevejo e aqui me comprometo a jamais profanar uma só palavra a pedir alívio do que julgarás ser meu castigo. Aceitarei, Senhor, de comum acordo, por uma redenção que espero conquistar novamente, assim que purificar meu coração. Ó, Pai, que já o sinto purificando... ó, Pai, como é grande o Teu poder, já sinto Sua presença a acalmar-me a inquietude. Perdoai, Pai. Perdoai, que eu também hei de garantir uma nuvem confortável no reino dos céus.03 junho 2009
clarice
01 junho 2009
31 maio 2009
Se não morreu, partiu para o lugar onde vão parar canetas e guarda-chuvas.
Antônio, aquele doer-só que batizei, se foi esta manhã. Durou um ano e vinte dias.
Chamei seu nome, não apareceu.
Não deixou bilhete.
Ficaram as heranças de Antônio: caio, barthes, jobim.
Ficaram o olho aberto,
a cautela, o preparo,
o saber-lidar, o saber-prever,
a pequena indiferença
o good-to-go.
O chá que eu fiz se foi com ele,
o maracujá,
a insônia.
A porta, que ficou aberta, convidou
o sol.
Dinheiro, não deixou nenhum.
Nem saudade.
maldito I - A Puta

"Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim
por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim
(...)
mas na manhã seguinte, não conta até vinte, te afasta de mim
pois já não vales nada, és página virada
descartada do meu folhetim."
Sou suja e velha. Tenho, por conveniência, vinte anos, mas os olhos são feitos de mais. Mas sou bonita. Aos que pensam assim, já desminto: não é pelo sexo que eles me condenam.
Minha maldição é a honestidade. Dela, conheço mais que o cheiro, que a dor, que o arrepio. É dela que vem meu karma; é por causa dela que me cospem, que me vaiam, que cochicham ferozes quando passo. Se eu me fingisse, se mentisse, disfarçasse, não seria tão hostil. Sou infiel; mas não é por isso que me condenam. Sou infiel e não só assumo – faço questão de avisar. A honestidade é quem me amortece das pedradas. Conheci um homem certa vez. Não era bonito nem feio. Gostava de mim. Mimava meus dias com uma devoção quase cruel - dava-me perfumes, pagava-me jantares, abria a porta do carro quando me levava a lugares onde podíamos ficar à vontade. Pulsava no peito dele a paixão. No meu peito, quase sempre coberto por grandes mãos ou pêlos ou peles, pulsava a luxúria. Tantos mimos me fizeram acostumar. Numa noite, ele distante, outro homem se aproximou valente, desbravador, como se soubesse estar entrando em terreno alheio. Parecia gostar. O calafrio lânguido das coisas sujas e erradas que fazemos me agrada; sou barata. Me deixei tomar, pegar, sentir – me libertei das correntes do dia e me atei com força às da noite. Aprisionei-me por mim mesma num caminho de prazeres e prendas (e dores, dores ardidas, que forçam suspiros, que pedem gemidos, que exigem pequenos rasgos de carne, de sangue, o suor que corre o corpo todo, as mãos, os úmidos, úmidos, molhados de desejo, de vergonha, de um coração que bate forte, forte, a força das mãos que pegam e passam e puxam e rasgam e soltam e pegam de novo, e o corpo que vive sozinho, e pulsa, e pulsa, e pulsa, e pulsa, com força, sem carinho, sem cuidado, só a força o suor o gemido a entrada os olhos que fecham que apertam que choram a dor, a dor, a dor, a dor o mundo que pára que cheira que goza que vaza que vaza que vaza que vaza que vaza, e que então, acaba). A princípio, não contei ao primeiro. Deixei que continuasse a me mimar, me dizer o quanto sou bela, me acariciar os cabelos, com cara de quem sabe o que quer. Não me incomodo que seja assim. Não quero que seja diferente. Um dia enjoei, pedi que me esquecesse. Disse adeus. O homem ficou bravo, quebrou o vidro, rasgou a foto, bateu o carro. Não liguei. Assim, da mesma forma, se deu com outro, e outro, e mais outro, e uma sequência de vários, que administro como bem entendo e de acordo com o meu humor do dia. Sou egoísta. É o egoísmo que me julga, que me denuncia aos olhos dos outros, de todos os outros, das verdureiras, das mães, das meninas da feira, dos homens que compram jornal. Eles me condenam por ser assim e por gostar, por não reclamar da vida, dos homens, do pouco dinheiro, do tempo que mudou. Por me dar inteira aos prazeres e gritar bem alto quando aquilo chega intenso e dolorido, profanando a rua, a noite calma, o entardecer, o meio dia, na hora do almoço das crianças, da missa na igreja, do mendigo pedindo esmola. Me condenam por deixar claro e aberto que não há como ser diferente. Que não vou jamais ser só de um. Me condenam por ter me tornado arisca e arredia e escorregadia, e por saberem que isso tudo me favorece maravilhosamente. Me condenam por ser vadia e ainda assim bonita. Bem cuidada. Por seduzir todos sem pudor e ainda assim fazê-los sentir que são os únicos. Me condenam por mentir, por profanar, por magoar corações desavisados. Por ser vilã e mocinha, por saber como é a vida, por sentir tudo que dá. Não é pelo sexo que eles me condenam. É por ser exatamente aquilo que todo mundo quer ser, mas não diz.
Por amar, quem me condena sou eu.
(publicado originalmente em O Diazepam)
28 maio 2009
A menina na janela

Acordo cedo. Tenho meus afazeres: o café, o trabalho, as planilhas, o futebol com os amigos, as coisas da casa. Pra rua, vou às sete, e de lá não costumo ter hora pra sair. A rua é só a rua. O apartamento é claustrofóbico: quando chega dezoito sinto seus espasmos, como uma pequena e inofensiva agonia diária por sentir-se tão urbano. Fiz meu o décimo segundo andar (o 'meu' é sentido figurado; devem haver mais cinco ou seis outros e passo por todos no corredor, mas vivemos em ignorância mútua, eu e meus vizinhos. Penso se haverá cumplicidade maior que esta).
Do lado de dentro sou eu, a tevê e filmes que coleciono só para os momentos ociosos. Fiz de tudo bem equipado, nos moldes para se viver confortável. Nada me falta - a não ser todas aquelas coisas que ainda não comprei.
Dois dias por semana, chego cedo. Costumava arrumar sempre outras pequenas ocupações, pra ter (também sempre) de chegar em casa apenas para dormir. Que mais fazer, afinal? Aconteceu que dia desses, algumas semanas atrás, choveu uma chuva triste e pesada e da rua fui-me, encontrar o apartamento. Pra que não me molhasse todos os móveis (venta muito no décimo segundo), teria de fechar a janela. Foi o que fiz. Era o horário da angústia e o apartamento parecia esperar da chuva uma solução pra todo aquele sufoco.
Eu não era o único a perceber.
O prédio é de rua, mas as janelas do apartamento são para os fundos, fazendo da vista nada muito encantador. Conto outros sete prédios, cujas janelas posso acompanhar quase de perto - a sensação é de toque ao alcance das mãos. Assustadora impressão de tantas vidas encaixotadas, tão urbanas, tão banais.
Àquela chuva aproveitavam de maneiras não tão diferentes: vi alguém que lavava a louça, alguém que assistia a novela, alguém que punha as crianças pra dormir, mesmo embora ainda fossem dezenove. Havia também alguém de janelas fechadas mas luzes acesas, alguém de janelas abertas, alguém correndo para fechá-las antes que tudo submergisse. Um andar acima, alguém acendia a luz. A menina, que devia ter a idade das horas - quem sabe um pouco mais - fez o contrário do dominó: abria uma fresta dos vidros e parecia sentar. Acendeu um cigarro. Olhava o letreiro que dizia a temperatura.
Aquela luz era de cor mais escura, talvez uma lâmpada fraca. A menina alternava levar o cigarro à boca e apoiar a cabeça em uma das mãos, os dois braços seguros pelo parapeito. Não parecia se importar com o frio. O vento, que agredia só à mim, não parecia ser incômodo. A menina de alcinhas destoava dos cachecóis e casacos e cobertas que estampavam os demais espetáculos. Mas não fomos além, eu e ela: o cigarro queimou-se todo; a menina sumiu para dentro. O prédio dela não tinha espasmos.
Não sei se é esse o ritual de todo-dia. Era o dia depois quando por outro motivo cheguei cedo em casa. O céu não era escuro como no primeiro encontro. A menina estava lá. Havia um cigarro e a menina falava. Quis fechar a janela, mas não pude. A menina continuava a falar e eu quase ouvia - se as dezoito não fossem assim tão barulhentas, se esse monte de concreto não trincasse tanto. Não havia mais ninguém, também não havia um telefone. A menina falava para um pequeno aparelho, e imaginei e tomei como verdade que devia ser um gravador. Falava as deixas de uma peça de teatro, como que pra decorar. Falava coisas que não poderia esquecer no dia seguinte, ou nunca mais. Falava idéias para um trabalho futuro. Ou falava ainda outra coisa qualquer, mas o que quer que fosse que dizia, não deixaria a cena menos sedutora.
Outra vez o cigarro acabou e a menina sumiu.
Pensei se teria saído de casa, pensei se estaria sozinha, se seria sozinha, se desejava falar para qualquer coisa que ouvisse. Podia deduzir o apartamento; sabia o andar, o prédio, a porta. Não arrisquei.
Era pontual, a menina na janela. Passei a pensar que fumava apenas um cigarro por dia, só naquela janela. Só para mim. As dezenove passaram então a comportar um compromisso inadiável e inalcansável, mas nenhum dos adjetivos me desanimava. Os encontros eram sadios. O tempo de um cigarro. Embora possa parecer, a menina não seguia lógica alguma: por vezes, um cigarro e um livro, que era mais útil como apoio de mãos que como literatura; o cigarro e uma xícara que, pra mim, poderia conter tanto café quanto conhaque; o cigarro e aquele mudo ouvinte, o mais seguro e compreensivo divã que já pude perceber. Se fazia calor, poderia haver luvas. No frio, eu não estranharia a camisola. A menina na janela combinava o ameno e a surpresa.
Numa dessas noites pensei que me percebia. O olhar desviou do painel para o meu prédio. O centro nunca foi tão silencioso ou foram meus espasmos que entraram em sintonia com aqueles do edifício inteiro, porque nada se moveu por sete ou oito segundos. A menina rastreou com o olhar cada uma das janelas dos sete prédios que também via. Poderia estar buscando compreensão ou cumplicidade ou poderia apenas querer descansar. Naquele dia não haviam livros ou xícaras. O cigarro fazia par com um telefone. Naquele dia o cigarro me falou mais do que ela.
Nada mudou em meus afazeres, a companhia ainda é a tevê ou eventualmente uma ou outra moça, ignorantes da existência das vidas além da minha janela, ignorantes principalmente da vida da menina. Quando posso, tento estar ali para o espetáculo, e me dói saber que ele acontece quer eu esteja lá ou não. Meu intervalo só existe por causa dela, mas o dela é todo indiferente a mim. A menina na janela não precisa de platéia. Não me parece tola; são grandes chances de que tenha me notado, e me põe curioso imaginar se suas atitudes são as mesmas quando não estou para assistir. Ah, devaneio, teu nome é pretensão.
A menina combina palco e escuridão.
Imagino o que faz quando some. O que vê quando olha o espelho, o que come, o que há na xícara, se o aparelho na mão não é mais que a espera. Nenhuma das respostas me atrai, nenhuma das respostas faria de algo outra coisa diferente. Assim como ela, não preciso mais do que o tempo daquele cigarro, desde que ele não falte. Desde que todos os dias. Desde que sempre às dezenove. Desde que sempre só para mim.
O prédio da menina não tinha espasmos.
20 maio 2009
disse que por favor, rapunzel, aparecesse na janela, e de repente oito minutos passavam escorrendo como cera de vela fria, muito mais lentos e danosos do que os outros tantos minutos, recém completados, mas pertencentes agora a um passado esquecido, amortecido, medíocre de si. resignada e mais fria que o sereno, seguiu até o porteiro (que era ao mesmo tempo cúmplice e inquisidor) e disse sem rodeios e de uma só vez que havia esperado todo esse tempo lá fora no frio mas que ele havia passado sem que a visse. pode entregar esse pacote, por favor? o porteiro não pôde evitar a pena que sentia da menina e que lhe transbordava aos olhos, mas cecília não sorriu quando ele disse que da próxima vez ela poderia esperar do lado de dentro. cecília quis dizer que a próxima vez seria da noite, do sereno, dos dentes que batiam, das pontas roxas dos dedos da mão que mal folheavam o livro, mas disse apenas que gostaria que fosse entregue ainda hoje, afinal precisa ser conservado em geladeira. mandou ainda um outro recado, talvez dois mais, que mais que claro não mereciam respostas (a relatividade que vá a merda, pensou antes de dar as costas). e respostas não mereceram até que a noite, amiga, esfriasse ainda mais.
11 maio 2009
atrás da porta
e o teu olhar era de adeus
juro que não acreditei e te estranhei
me debrucei sobre o teu corpo
e duvidei
e me arrastei e te arranhei
e me agarrei nos teus cabelos
nos teus pêlos, teu pijama
nos teus pés ao pé da cama
sem carinho, sem coberta
no tapete atrás da porta
dei pra maldizer o nosso lar
pra sujar teu nome, e te humilhar
e me vingar a qualquer preço
te adorando pelo avesso
pra mostrar que ainda sou tua
02 maio 2009
essência
ainda que hoje menos ingênuos, menos cinzentos, mais completos.
eu ainda me sou
marcelo amava maria que sentia vergonha e não falava. maria tinha medo e fugiu. marcelo seguiu silencioso, maria se apaixonou por joaquim. joaquim de apaixonou por maria. joaquim fugiu, maria enfraqueceu, foi ver marcelo, que dizia palavras doces mas tinha rabinho de diabo pobre. maria chorou e foi dar com pedro que sorria bonito mas não achou suficiente. marcelo ia e voltava e dizia as mesmas palavras doces. acabou que marcelo era vesgo, joaquim burro e maria diabética. pedro não tinha defeitos mas tinha um tique de mexer a orelha que dava vontade de morrer.
21 abril 2009
06 abril 2009
desalento
vai e diz
diz assim
que eu chorei, que eu morri
de arrependimento
que o meu desalento já não tem mais fim
vai e diz, diz assim
como sou infeliz no meu descaminho
diz que estou sozinho e sem saber de mim
diz que eu estive por pouco
diz a ela que estou louco pra perdoar
que seja lá como for, por amor, por favor é pra ela voltar
sim
vai e diz
diz assim
que eu rodei, que eu bebi, que eu caí, que eu não sei
que eu só sei que cansei, enfim
dos meus desencontros
corre e diz a ela
que eu entrego os pontos
24 março 2009
só
você escapou, pequenino. foram treze dias sem notícias, sonhei contigo no décimo quarto, se perguntarem não sei dizer quais os caminhos que nos levaram a uma cama barata na região metropolitana no décimo quinto. o curso natural das coisas desaprova, aquele mesmo curso que faz o sol levantar, mas desaprova pra mim apenas, você pareceu confortável e eu não quis interromper e então eu entendi que havia um pouco mais que isso, que ainda havia janeiro e fevereiro e março mesmo que pela metade, e março já está acabando, e com ele o quê.
você escapou, pequenino, mas você vai e volta, e diz coisas como que bom que continuamos juntos mesmo depois de tudo aquela, e eu vejo o sol cor-de-lis e quase sinto cheiro de lavanda e aquela brisa pacífica de viña del mar, mas bem sabemos, quase não é, quase não tem cheiro, quase não tem brisa, e então estar ao seu lado é como uma corda bamba, eu sei que as facadas virão mas nunca sei de onde e por isso não posso defender, e elas vêm, sempre vêm, e você diz se não fosse assim não teria graça, ora, às favas com a graça, a graça que se estrepe, eu não quero graça não. então você diz eu sou assim, me aceita, mas não vê que eu aceito, que já aceitei, que aceitei como nunca havia aceitado e que ainda não entendo como pude aceitar tudo aquilo que condeno desde o princípio, mas que nada é eterno, nem mesmo a aceitação, eu penso tudo isso e fico quieta porque sei que basta uma vírgula colocada no lugar errado pra tudo ir pelos ares, é assim que eu vivo, nesse cuidado louco.
você escapou, pequenino. bem sabe você como corri pelo caminho buscando essas tantas pequenas-chances que encontrei, e tanto eu corri que voltei a gostar mais de mim mesma e, por consequência, pensar racionalmente. seja mais egoísta, você diz como quem quer dizer pense mais em você e não em mim, porque bem sabemos, não adiantará nada. e eu olho e respiro porque não há o que dizer e então você diz que o 'amor' não é o mesmo e eu dôo, mas penso que deveria botar entre nós um espelho, virado pra ti, pra que pudesses olhar nos próprios olhos e ver como tudo parece patético e bobo e como a tua cara condena muito mais do que tu gostarias, às vezes os olhos dizem muito mais que a boca, quem sou eu pra convencer, mas se houvesse o espelho talvez você risse e dissesse tudo bem, tudo bem, mas lerei durante as tardes.
você escapou, pequenino. escrevo desacreditada porque se goethe não seduziu que dirá eu. herança do décimo sétimo fico amortecida, alguma coisa mudou porque há uma calma aqui dentro que eu não condeno mas que torço tanto pra que vá embora logo e volte o furacão de outros tempos. como já disse, desisti de todos os pequenos-jogos que conheço bem porque sei não fazer efeito contigo, pensei talvez melhor ser honesta uma vez na vida, não que tenha dado certo, mas considere a tentativa. o mundo anda girando de um jeito estranho e sob certa luz declarações mais parecem despedidas, adeus têm cheiro de até logo, quem vai saber, é como meu desejo agora de saber se haverão mais vinhos, mais sinucas baratas, se haverão mais risadas embaixo de árvores, pequenas-comidinhas, discussões ideológicas, se haverá alguma das cento e doze oportunidades de que precisamos pra fazer tudo aquilo que foi combinado, uma cachoeira, um jantar longo, um álbum de fotos, ninguém há de saber o futuro, me diriam, e eu responderia dizendo que ninguém há de controlar o que se quer.
você escapou, pequenino, e lembro ainda de tudo aquilo que teu corpo diz sem que você perceba, porque o corpo é o dono do impulso, não se escolhe as palavras, não se reprime uma vontade do corpo, ele é todo menos dócil que a língua, ele fala por si, e ai de você se ouvisse tudo o que ele me diz quando você me beija a testa, acarinha o joelho, procura por baixo da mesa meus dedos pra brincar, enche o pescoço com cinco ou seis pequenos beijos. cairias duro e surpreso se soubesse o que teus olhos vêm gritando toda vez, mesmo de longe. propus no décimo sexto que continue a me dar seu corpo, que entre você e ele, talvez ele goste mais de mim. me poupo sem saber dos pensamentos sobre tal convite, ele existe, tu aceitaste, está aí, e não o nego, é um convite racional, como tudo me parece ser agora, cru mas seco e sem expectativas, como tu querias e eu, humilde, acatei, bem sabendo que encaras tudo como se não se importasse, como se não fizesse diferença, é assim, ótimo, se não fosse, estaria bom também.
você escapou, pequenino. esperei por algo que não sabia o que era e que jamais saberei porque não é feito para chegar, aprendi a entender e agora calmo. nada muda desde o décimo sétimo, anestesiei e sigo assim no esforço de manter tudo do jeito que foi deixado. é certo que há o grito contido e ele haverá de vir, só não agora. é que há tudo a se dizer, mas não há ouvidos, então se fala a esmo, oferecendo a opção. é só que não cabe tudo aqui.
08 março 2009
enluar
03 março 2009
das coisas à toa numa manhã de domingo
.
o que dói hoje é a certeza do meu dramalhão barato; do gosto mórbido que tenho em ver um orgulho ao chão, pisado, arrastado, maltrapilho - mesmo e principalmente se esse orgulho for o meu. que isso não me aumenta e nem diminui, que não sou por isso mais ou menos louca, mais ou menos fraca, mais ou menos forte, desde que haja na história toda um alfinete pelo qual lutar, uma esperança na qual acreditar. que sou romântica até o fim das carnes, e não no sentido amor romântico, mas no sentido das coisas que devem ser bonitas e literárias, como a arte e a poesia, sempre. vivemos naquilo que queremos. e se algum dia isso for possível, não há palavras mais a se dizer.

