04 junho 2009

pequenas coisinhas bonitas de todos os dias

Flávia diz:
você vai pro rio?

' iasamonique diz:
talvez :)

Flávia diz:
que massa
hahaha
vai na lapa
a lapa é muito você

' iasamonique diz:
muito eu?

Flávia diz:
é tipo
tem bar de samba, bar de mpb, bar de jazz, tem de tudo,
e é todo mundo misturado
e a cerveja é sempre muito gelada
e o povo anda bêbado cantando pelas ruas
aaaaaaaah, é lindo

maldito II - O Padre


Martine Franck, France. 1994.

Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus?
Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros,
nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos,
nem os bêbados, nem os difamadores,
nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus.


1 Coríntios 6:9


Mas por que razão gritam tão altos estes sinos? Não parece-me outra coisa que não a insistente zombaria àquilo que reprimo abaixo da batina. A meu mumúrio, que ninguém ouça. Nem mesmo Deus, se for possível.

Hoje aniversariamos, meu Pai; eu e esse meu respirar pesado, aliado fiel desde a primeira missa ministrada em Tua voz. A velhice de nossa comemoração guardo só a Ti e incapaz seria minha garganta de pronunciá-la em alto; esquivo-me de semear qualquer desconfiança quanto a botar em contas os anos de minha dedicação. Sei também que a isso nada tem a ver o Teu descontentamento, e à disposição deixo meus ouvidos para o que julgares necessário para a minha Rendição. Sim, meu Senhor, que me sinto digno de Teu perdão, embora há muito tempo tenha deixado de sentir o gosto do Teu sagrado corpo; o aroma do Teu sagrado sangue. Sim, meu Senhor, que tenho consciência do tamanho do tumor que se alojou em meu peito e do fracasso podre e pagão do qual sofri por ter deixá-lo em carne viva e, nem assim, tê-lo arrancado. De lá para cá, passaram-se mil ave-marias; vinte cinco mil pai-nossos; e não sei contar por quantas vezes senti o coração parar sob o peso branco de Seus olhares. Eis que revirei o Livro outras tantas vezes, como não fazia desde os tempos de seminário — e, meu Pai, por onde devo começar? Uma vida inteira de estudos não adiantou-me de nada quando o pecado me veio bater à porta e profanou em inundância todas as esquinas de minha vida. Que, nas mesmas páginas onde encontrei perdão e aconchego, achei também ameaças e terminâncias. Das mesmas palavras extraí determinações impiedosas e calmarias à correnteza do coração. Ó, meu Pai, que desta última vez deixei o Livro não só com lágrimas, mas com outro sentimento, um sentimento negro no nome mas de uma sinceridade tão intensa que custo a não vê-lo luminoso, uma coisa que me toma, por vezes, quando vejo o quanto somos reprimidos de sermos o que somos, o quanto sofremos na busca eterna de nos tornarmos aquilo que, na verdade, não nascemos pra ser, e que muito raramente o desejamos de verdade; que na verdade nada mais queremos a não ser poder gozar dos frutos que a vida nos oferece de mão amiga, sem que precisemos pedir — mas não podemos, ó Pai, não podemos, porque temos olhos em todos os lugares que nos perseguem e buscam e acorrentam e por vezes dão-nos chibatadas, e mostram-no alguma vivência passada de alguém que não reconhecemos como nossos e nem ao menos entendemos qual relação têm eles, indivíduos longínquos e tão indiscutivelmente egoístas como nós, e por quê temos de levar nossas atitudes com um pesar acumulado pelo qual não fomos nunca responsáveis, mas, se não o fizermos, estamos condenados a uma vida ainda pior do que esta, em outro lugar que não nos permitem nem ao menos conhecer as condições, porque tudo nessa vida é assim, um passo no escuro, e nós que estejamos prontos para tudo e qualquer coisa e nada mais digno do que nos resignarmos e agradecermos, não é, meu Pai, pela oportunidade de atravessar mais um dia de mágoas e tristezas e flechas atiradas contra o peito; somos gratos, sim Senhor, eu e os montes de pobres almas que vêm até a Sua morada pedir perdão por uma regalia a mais, por um desejo qualquer incontrolável que tomou conta de um coração outrora fiel, pela tristeza que nos levou a desejar o mal, pelo amor àquilo a que não se tem direito, pelo desejo carnal, pela revolta com essas grades postas por todos os lados, por ter que agüentarmos calados todo tipo de injúria e infelicidade só pra estarmos na fila daqueles que talvez, algum dia, tenham as almas aquietadas em um reino celeste que ninguém nunca provou existir! * ............ Vês, meu Pai... vês onde me encontro, onde é que me botaste, meu Pai, perdoa-me, por que me fazer passar por tanto? Eu, que sempre estive aqui a seu lado, agora derramando sobre ti tanta heresia, mesmo sabendo que por mais inquieto que esteja meu coração é Tu que sabes dos valores e da fé e que é nela que preciso depositar todo o meu ser. Quanta vergonha, meu Pai, quanta vergonha, ao sabão com toda a minha boca e toda a minha língua, que Teus sagrados ouvidos não hão de sofrer novamente a mesma imprudência. Eu, que aniversario hoje uma carreira toda de dedicação, ó, Senhor, perdoai, perdoai. Haverás de punir-me, não é? Já o prevejo e aqui me comprometo a jamais profanar uma só palavra a pedir alívio do que julgarás ser meu castigo. Aceitarei, Senhor, de comum acordo, por uma redenção que espero conquistar novamente, assim que purificar meu coração. Ó, Pai, que já o sinto purificando... ó, Pai, como é grande o Teu poder, já sinto Sua presença a acalmar-me a inquietude. Perdoai, Pai. Perdoai, que eu também hei de garantir uma nuvem confortável no reino dos céus.

03 junho 2009

“Ele chorou um pouco. Era um belo homem, com barba por fazer e abatidíssimo. Via-se que havia fracassado. Como todos nós. Ele me perguntou se podia ler para mim um poema. Eu disse que queria ouvir. Ele abriu uma sacola, tirou de dentro um caderno grosso, pôs-se a rir, ao abrir as folhas. Então leu o poema. Era simplesmente uma beleza. Misturava palavrões com as maiores delicadezas. Oh Cláudio – tinha eu vontade de gritar – nós todos somos fracassados, nós todos vamos morrer um dia! Quem? Mas quem pode dizer com sinceridade que se realizou na vida? O sucesso é uma mentira”.


clarice

01 junho 2009

perco a identidade do mundo em mim e existo sem garantias



clarice

31 maio 2009


jardim das delícias terrenas - Hieronymus Bosch




Antônio morreu.
Se não morreu, partiu para o lugar onde vão parar canetas e guarda-chuvas.
Antônio, aquele doer-só que batizei, se foi esta manhã. Durou um ano e vinte dias.
Chamei seu nome, não apareceu.
Não deixou bilhete.

Ficaram as heranças de Antônio: caio, barthes, jobim.
Ficaram o olho aberto,
a cautela, o preparo,
o saber-lidar, o saber-prever,
a pequena indiferença
o good-to-go.

O chá que eu fiz se foi com ele,
o maracujá,
a insônia.

A porta, que ficou aberta, convidou
o sol.

Dinheiro, não deixou nenhum.
Nem saudade.






maldito I - A Puta


Micha Bar Am, A "hostess" in Hayarkon Street, Tel Aviv. 1969.


"Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim
por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim
(...)
mas na manhã seguinte, não conta até vinte, te afasta de mim
pois já não vales nada, és página virada
descartada do meu folhetim."

..

Sou suja e velha. Tenho, por conveniência, vinte anos, mas os olhos são feitos de mais. Mas sou bonita. Aos que pensam assim, já desminto: não é pelo sexo que eles me condenam.


Minha maldição é a honestidade. Dela, conheço mais que o cheiro, que a dor, que o arrepio. É dela que vem meu karma; é por causa dela que me cospem, que me vaiam, que cochicham ferozes quando passo. Se eu me fingisse, se mentisse, disfarçasse, não seria tão hostil. Sou infiel; mas não é por isso que me condenam. Sou infiel e não só assumo – faço questão de avisar. A honestidade é quem me amortece das pedradas. Conheci um homem certa vez. Não era bonito nem feio. Gostava de mim. Mimava meus dias com uma devoção quase cruel - dava-me perfumes, pagava-me jantares, abria a porta do carro quando me levava a lugares onde podíamos ficar à vontade. Pulsava no peito dele a paixão. No meu peito, quase sempre coberto por grandes mãos ou pêlos ou peles, pulsava a luxúria. Tantos mimos me fizeram acostumar. Numa noite, ele distante, outro homem se aproximou valente, desbravador, como se soubesse estar entrando em terreno alheio. Parecia gostar. O calafrio lânguido das coisas sujas e erradas que fazemos me agrada; sou barata. Me deixei tomar, pegar, sentir – me libertei das correntes do dia e me atei com força às da noite. Aprisionei-me por mim mesma num caminho de prazeres e prendas (e dores, dores ardidas, que forçam suspiros, que pedem gemidos, que exigem pequenos rasgos de carne, de sangue, o suor que corre o corpo todo, as mãos, os úmidos, úmidos, molhados de desejo, de vergonha, de um coração que bate forte, forte, a força das mãos que pegam e passam e puxam e rasgam e soltam e pegam de novo, e o corpo que vive sozinho, e pulsa, e pulsa, e pulsa, e pulsa, com força, sem carinho, sem cuidado, só a força o suor o gemido a entrada os olhos que fecham que apertam que choram a dor, a dor, a dor, a dor o mundo que pára que cheira que goza que vaza que vaza que vaza que vaza que vaza, e que então, acaba). A princípio, não contei ao primeiro. Deixei que continuasse a me mimar, me dizer o quanto sou bela, me acariciar os cabelos, com cara de quem sabe o que quer. Não me incomodo que seja assim. Não quero que seja diferente. Um dia enjoei, pedi que me esquecesse. Disse adeus. O homem ficou bravo, quebrou o vidro, rasgou a foto, bateu o carro. Não liguei. Assim, da mesma forma, se deu com outro, e outro, e mais outro, e uma sequência de vários, que administro como bem entendo e de acordo com o meu humor do dia. Sou egoísta. É o egoísmo que me julga, que me denuncia aos olhos dos outros, de todos os outros, das verdureiras, das mães, das meninas da feira, dos homens que compram jornal. Eles me condenam por ser assim e por gostar, por não reclamar da vida, dos homens, do pouco dinheiro, do tempo que mudou. Por me dar inteira aos prazeres e gritar bem alto quando aquilo chega intenso e dolorido, profanando a rua, a noite calma, o entardecer, o meio dia, na hora do almoço das crianças, da missa na igreja, do mendigo pedindo esmola. Me condenam por deixar claro e aberto que não há como ser diferente. Que não vou jamais ser só de um. Me condenam por ter me tornado arisca e arredia e escorregadia, e por saberem que isso tudo me favorece maravilhosamente. Me condenam por ser vadia e ainda assim bonita. Bem cuidada. Por seduzir todos sem pudor e ainda assim fazê-los sentir que são os únicos. Me condenam por mentir, por profanar, por magoar corações desavisados. Por ser vilã e mocinha, por saber como é a vida, por sentir tudo que dá. Não é pelo sexo que eles me condenam. É por ser exatamente aquilo que todo mundo quer ser, mas não diz.


Por amar, quem me condena sou eu.



(publicado originalmente em O Diazepam)

28 maio 2009

A menina na janela





Acordo cedo. Tenho meus afazeres: o café, o trabalho, as planilhas, o futebol com os amigos, as coisas da casa. Pra rua, vou às sete, e de lá não costumo ter hora pra sair. A rua é só a rua. O apartamento é claustrofóbico: quando chega dezoito sinto seus espasmos, como uma pequena e inofensiva agonia diária por sentir-se tão urbano. Fiz meu o décimo segundo andar (o 'meu' é sentido figurado; devem haver mais cinco ou seis outros e passo por todos no corredor, mas vivemos em ignorância mútua, eu e meus vizinhos. Penso se haverá cumplicidade maior que esta).

Do lado de dentro sou eu, a tevê e filmes que coleciono só para os momentos ociosos. Fiz de tudo bem equipado, nos moldes para se viver confortável. Nada me falta - a não ser todas aquelas coisas que ainda não comprei.

Dois dias por semana, chego cedo. Costumava arrumar sempre outras pequenas ocupações, pra ter (também sempre) de chegar em casa apenas para dormir. Que mais fazer, afinal? Aconteceu que dia desses, algumas semanas atrás, choveu uma chuva triste e pesada e da rua fui-me, encontrar o apartamento. Pra que não me molhasse todos os móveis (venta muito no décimo segundo), teria de fechar a janela. Foi o que fiz. Era o horário da angústia e o apartamento parecia esperar da chuva uma solução pra todo aquele sufoco.
Eu não era o único a perceber.

O prédio é de rua, mas as janelas do apartamento são para os fundos, fazendo da vista nada muito encantador. Conto outros sete prédios, cujas janelas posso acompanhar quase de perto - a sensação é de toque ao alcance das mãos. Assustadora impressão de tantas vidas encaixotadas, tão urbanas, tão banais.

Àquela chuva aproveitavam de maneiras não tão diferentes: vi alguém que lavava a louça, alguém que assistia a novela, alguém que punha as crianças pra dormir, mesmo embora ainda fossem dezenove. Havia também alguém de janelas fechadas mas luzes acesas, alguém de janelas abertas, alguém correndo para fechá-las antes que tudo submergisse. Um andar acima, alguém acendia a luz. A menina, que devia ter a idade das horas - quem sabe um pouco mais - fez o contrário do dominó: abria uma fresta dos vidros e parecia sentar. Acendeu um cigarro. Olhava o letreiro que dizia a temperatura.

Aquela luz era de cor mais escura, talvez uma lâmpada fraca. A menina alternava levar o cigarro à boca e apoiar a cabeça em uma das mãos, os dois braços seguros pelo parapeito. Não parecia se importar com o frio. O vento, que agredia só à mim, não parecia ser incômodo. A menina de alcinhas destoava dos cachecóis e casacos e cobertas que estampavam os demais espetáculos. Mas não fomos além, eu e ela: o cigarro queimou-se todo; a menina sumiu para dentro. O prédio dela não tinha espasmos.

Não sei se é esse o ritual de todo-dia. Era o dia depois quando por outro motivo cheguei cedo em casa. O céu não era escuro como no primeiro encontro. A menina estava lá. Havia um cigarro e a menina falava. Quis fechar a janela, mas não pude. A menina continuava a falar e eu quase ouvia - se as dezoito não fossem assim tão barulhentas, se esse monte de concreto não trincasse tanto. Não havia mais ninguém, também não havia um telefone. A menina falava para um pequeno aparelho, e imaginei e tomei como verdade que devia ser um gravador. Falava as deixas de uma peça de teatro, como que pra decorar. Falava coisas que não poderia esquecer no dia seguinte, ou nunca mais. Falava idéias para um trabalho futuro. Ou falava ainda outra coisa qualquer, mas o que quer que fosse que dizia, não deixaria a cena menos sedutora.
Outra vez o cigarro acabou e a menina sumiu.

Pensei se teria saído de casa, pensei se estaria sozinha, se seria sozinha, se desejava falar para qualquer coisa que ouvisse. Podia deduzir o apartamento; sabia o andar, o prédio, a porta. Não arrisquei.

Era pontual, a menina na janela. Passei a pensar que fumava apenas um cigarro por dia, só naquela janela. Só para mim. As dezenove passaram então a comportar um compromisso inadiável e inalcansável, mas nenhum dos adjetivos me desanimava. Os encontros eram sadios. O tempo de um cigarro. Embora possa parecer, a menina não seguia lógica alguma: por vezes, um cigarro e um livro, que era mais útil como apoio de mãos que como literatura; o cigarro e uma xícara que, pra mim, poderia conter tanto café quanto conhaque; o cigarro e aquele mudo ouvinte, o mais seguro e compreensivo divã que já pude perceber. Se fazia calor, poderia haver luvas. No frio, eu não estranharia a camisola. A menina na janela combinava o ameno e a surpresa.

Numa dessas noites pensei que me percebia. O olhar desviou do painel para o meu prédio. O centro nunca foi tão silencioso ou foram meus espasmos que entraram em sintonia com aqueles do edifício inteiro, porque nada se moveu por sete ou oito segundos. A menina rastreou com o olhar cada uma das janelas dos sete prédios que também via. Poderia estar buscando compreensão ou cumplicidade ou poderia apenas querer descansar. Naquele dia não haviam livros ou xícaras. O cigarro fazia par com um telefone. Naquele dia o cigarro me falou mais do que ela.

Nada mudou em meus afazeres, a companhia ainda é a tevê ou eventualmente uma ou outra moça, ignorantes da existência das vidas além da minha janela, ignorantes principalmente da vida da menina. Quando posso, tento estar ali para o espetáculo, e me dói saber que ele acontece quer eu esteja lá ou não. Meu intervalo só existe por causa dela, mas o dela é todo indiferente a mim.
A menina na janela não precisa de platéia. Não me parece tola; são grandes chances de que tenha me notado, e me põe curioso imaginar se suas atitudes são as mesmas quando não estou para assistir. Ah, devaneio, teu nome é pretensão.

A menina combina palco e escuridão.

Imagino o que faz quando some. O que vê quando olha o espelho, o que come, o que há na xícara, se o aparelho na mão não é mais que a espera. Nenhuma das respostas me atrai, nenhuma das respostas faria de algo outra coisa diferente. Assim como ela, não preciso mais do que o tempo daquele cigarro, desde que ele não falte. Desde que todos os dias. Desde que sempre às dezenove. Desde que sempre só para mim.

O prédio da menina não tinha espasmos.







20 maio 2009

se censurava por não enxergar pecado na defesa da felicidade

disse que havia um livre arbítrio impedindo seus desejos e que por isso precisou partir. algumas horas antes cecília sentava em um meio fio de gelo e tirava da bolsa um livro de george lukács, qualquer coisa sobre a estética. por quinze minutos leu compenetrada, mas teve que parar pra ver se a temperatura do yakult já havia molhado o papel de presente vermelho do pequeno pacotinho que guardava nas mãos. era difícil voltar a ler quando passavam tantos carros, tantas pessoas, todos olhando pra ela, o que é que essa menina faz sentada aí no frio a uma hora dessas, ela não tem medo, não, ah, os dias de hoje andam tão violentos. pensou que todo mundo entenderia caso viessem perguntar. por meia hora lembrou de todos os passos anteriores (havia uma carta curta, coisa pouca a se dizer, consistia em uma lista das coisas que faziam dela a menina mais legal do mundo, ou qualquer coisa. a carta foi antes da tirinha de mafalda deixada à vista, da referência a um filme do almodóvar e dos pequenos trechos de clarice e de meirelles soltos a esmo. disse que clarice porque é a medida intensa de todas as coisas e que meirelles porque é sua xará, de nome e de alma) mas o frio escondeu da memória as quase duzentas palavras coloridas (havia também passado dois dias inteiros escrevendo em papel colorido todas as palavras doces das quais podia se lembrar; tranquila, ia de coragem a tardes de sol, de viagens a pequenas surpresas, do medo ao sorvete de domingo, cortou tudo em pequenos quadradinhos e juntou em um barbante fino, cor por cor, pra que aquele tanto de coisas boas ficasse mais colorido que pesado, que era como estava seu coração. amarrou no retrovisor do carro e não pediu resposta) e o recado da última noite que era algo de desespero e aflição porque havia chegado perto o cheiro do fracasso, do pecado sem sentido, do limite que passou.

quando entrou na segunda hora já precisava cantar pra amortecer o frio e esfregava as mãos bem juntinhas, uma à outra, na tentativa de fazer parar o corpo que tremia em desafino com a vontade. tentou enganar o porteiro do prédio, que a cada quinze minutos aparecia do lado de fora, como que pra vigiar se ela continuava ali, à espera, e porque é que não esperava no saguão de entrada, então, já que está tão frio. e cada vez que ele aparecia ela se inclinava para trás de um dos carros estacionados - se fosse vista alguém poderia se zangar. brincaram de gato e rato por mais algum tempo até que o porteiro pareceu entender que a guerra já estava vencida e voltou pra dentro, conformado, não queria ele pegar também uma gripe, já tinha bastante com que se preocupar. ensaiou dois ou três diálogos, embora soubesse muito bem que as palavras sempre acham lugar seguro pra se esconder quando são procuradas, foi buscar no fundo da memória duas ou três daquelas lembranças que trazem calafrios e cantou uma ou duas músicas mais, que foi quando o relógio denunciou as duas horas e meia de espera e que o frio passou de repente porque também de repente veio do outro lado os faróis que o coração reconhecia, mas que, desavisados, passaram por cecília e cecília sentiu como se fizesse parte da noite e da escuridão.
disse que por favor, rapunzel, aparecesse na janela, e de repente oito minutos passavam escorrendo como cera de vela fria, muito mais lentos e danosos do que os outros tantos minutos, recém completados, mas pertencentes agora a um passado esquecido, amortecido, medíocre de si. resignada e mais fria que o sereno, seguiu até o porteiro (que era ao mesmo tempo cúmplice e inquisidor) e disse sem rodeios e de uma só vez que havia esperado todo esse tempo lá fora no frio mas que ele havia passado sem que a visse. pode entregar esse pacote, por favor? o porteiro não pôde evitar a pena que sentia da menina e que lhe transbordava aos olhos, mas cecília não sorriu quando ele disse que da próxima vez ela poderia esperar do lado de dentro. cecília quis dizer que a próxima vez seria da noite, do sereno, dos dentes que batiam, das pontas roxas dos dedos da mão que mal folheavam o livro, mas disse apenas que gostaria que fosse entregue ainda hoje, afinal precisa ser conservado em geladeira. mandou ainda um outro recado, talvez dois mais, que mais que claro não mereciam respostas (a relatividade que vá a merda, pensou antes de dar as costas). e respostas não mereceram até que a noite, amiga, esfriasse ainda mais.

11 maio 2009

atrás da porta

quando olhaste bem nos olhos meus
e o teu olhar era de adeus
juro que não acreditei e te estranhei
me debrucei sobre o teu corpo
e duvidei
e me arrastei e te arranhei
e me agarrei nos teus cabelos
nos teus pêlos, teu pijama
nos teus pés ao pé da cama
sem carinho, sem coberta
no tapete atrás da porta
dei pra maldizer o nosso lar
pra sujar teu nome, e te humilhar
e me vingar a qualquer preço
te adorando pelo avesso
pra mostrar que ainda sou tua

02 maio 2009

as pessoas correndo no parque, dá pra ver da janela escancarada. é o sábado acontecendo, o sábado que precede o domingo, o domingo que precede a segunda e os dias de todos os dias, o trabalho sujo mas digno de todos os dias. o mundo acorda, vê o noticiário da manhã, existe uma epidemia perigosa de uma gripe recém desenvolvida, o mundo sente medo e usa máscaras de proteção mas ainda assim é preciso fazer o café, checar os e-mails, olhar o relógio, trancar a porta e sair. lá fora o mundo segue, a rotação é a mesma, embora mais rápida; pessoas continuam correndo no parque, pessoas indo à panificadora, pessoas apressadas para o trabalho, os ônibus de linha, o sinal fechado, os buracos na camada de ozônio, o direito de reclamar que existe mas que não é de ninguém. todas aquelas vidas acumuladas e sobrepostas em um prédio de vinte andares de paredes tão finas que escuta-se um suspiro mais alto, mas grossas o suficiente pra que as batidas do coração não sejam aptas a transpassar. e há o tempo de trabalhar, o tempo dos afazeres, das obrigações, a fila dos bancos, o correio; há os vinte minutos de almoço, os quais parecem passar tão mais rápido que o resto da vida inteira, e logo estão lá, novamente, atrás das mesas, ocupando a cabeça com ofícios sem poesia, o tédio disfarçado, o desespero contido a cada nova pilha de papéis, não há tempo de reclamar, não há o direito de reclamar, e logo já são 18h e com o trânsito, o escape para a raiva que ainda existe mas que ninguém sabe o que é, e com a porta vem a pintura necessária, que nunca vi tanto cupim, meu deus, e fazer a comida, e ver na tevê novidades da gripe, da crise, da vida triste mas feliz das celebridades, checar se os filhos estão inteiros, se seus pequenos corpos sobreviveram a mais um dia de aquecimento global, botar as coisas em ordem, organizar a gaveta de contas, e quando o pensamento encontra no travesseiro o reduto fiel e seguro para se levar a vida a sério e pensar sobre o amor e as vontades e a paz procurada e o a realização e o pulsar, o diabinho do lado esquerdo sussurra: amanhã levantar às 6h, é preciso deixar o carro na mecânica, pagar o consórcio, comprar uma extensão para o microondas, e a lista interminável traz a fadiga também do pensamento, enfraquecido de tentar todos os dias por um feixe de tempo de se fazer ver, e todos dormem, escurecidos, escangalhados, medíocres de tudo, mas ainda acima de tudo, inocentes.

essência

pensei ter perdido a minha em algum lugar da américa e então me achei aqui, nos arquivos desse lugar, em pensamentos de anos atrás.
ainda que hoje menos ingênuos, menos cinzentos, mais completos.

eu ainda me sou

d às avessas

marcelo amava maria que sentia vergonha e não falava. maria tinha medo e fugiu. marcelo seguiu silencioso, maria se apaixonou por joaquim. joaquim de apaixonou por maria. joaquim fugiu, maria enfraqueceu, foi ver marcelo, que dizia palavras doces mas tinha rabinho de diabo pobre. maria chorou e foi dar com pedro que sorria bonito mas não achou suficiente. marcelo ia e voltava e dizia as mesmas palavras doces. acabou que marcelo era vesgo, joaquim burro e maria diabética. pedro não tinha defeitos mas tinha um tique de mexer a orelha que dava vontade de morrer.

21 abril 2009

ah, a vida


ah, o furacão de outros tempos

06 abril 2009

"o que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento."

de Instante, Drummond.

desalento

sim
vai e diz
diz assim
que eu chorei, que eu morri
de arrependimento
que o meu desalento já não tem mais fim

vai e diz, diz assim
como sou infeliz no meu descaminho
diz que estou sozinho e sem saber de mim
diz que eu estive por pouco
diz a ela que estou louco pra perdoar
que seja lá como for, por amor, por favor é pra ela voltar

sim
vai e diz
diz assim
que eu rodei, que eu bebi, que eu caí, que eu não sei
que eu só sei que cansei, enfim
dos meus desencontros
corre e diz a ela
que eu entrego os pontos

24 março 2009

você escapou, pequenino. quando acordei o sol já estava lá fora, é essa mania da vida de esfregar na nossa cara que o mundo não parou só porque é assim que nós sentimos, e não só ele não pára como cotinua a esperar de nós todas aquelas coisas que devemos ao conceito de civilização, os dentes bem escovados, a cama feita, a vestimenta apropriada, o dia nosso de cada dia que está lá sob sol ou chuva. hoje faz sol, mas um sol fraco e tímido, que teve de subir por uma convenção física, mas que entende muito bem que não é bem-vindo.

você escapou, pequenino. foram treze dias sem notícias, sonhei contigo no décimo quarto, se perguntarem não sei dizer quais os caminhos que nos levaram a uma cama barata na região metropolitana no décimo quinto. o curso natural das coisas desaprova, aquele mesmo curso que faz o sol levantar, mas desaprova pra mim apenas, você pareceu confortável e eu não quis interromper e então eu entendi que havia um pouco mais que isso, que ainda havia janeiro e fevereiro e março mesmo que pela metade, e março já está acabando, e com ele o quê.

você escapou, pequenino, mas você vai e volta, e diz coisas como que bom que continuamos juntos mesmo depois de tudo aquela, e eu vejo o sol cor-de-lis e quase sinto cheiro de lavanda e aquela brisa pacífica de viña del mar, mas bem sabemos, quase não é, quase não tem cheiro, quase não tem brisa, e então estar ao seu lado é como uma corda bamba, eu sei que as facadas virão mas nunca sei de onde e por isso não posso defender, e elas vêm, sempre vêm, e você diz se não fosse assim não teria graça, ora, às favas com a graça, a graça que se estrepe, eu não quero graça não. então você diz eu sou assim, me aceita, mas não vê que eu aceito, que já aceitei, que aceitei como nunca havia aceitado e que ainda não entendo como pude aceitar tudo aquilo que condeno desde o princípio, mas que nada é eterno, nem mesmo a aceitação, eu penso tudo isso e fico quieta porque sei que basta uma vírgula colocada no lugar errado pra tudo ir pelos ares, é assim que eu vivo, nesse cuidado louco.

você escapou, pequenino. bem sabe você como corri pelo caminho buscando essas tantas pequenas-chances que encontrei, e tanto eu corri que voltei a gostar mais de mim mesma e, por consequência, pensar racionalmente. seja mais egoísta, você diz como quem quer dizer pense mais em você e não em mim, porque bem sabemos, não adiantará nada. e eu olho e respiro porque não há o que dizer e então você diz que o 'amor' não é o mesmo e eu dôo, mas penso que deveria botar entre nós um espelho, virado pra ti, pra que pudesses olhar nos próprios olhos e ver como tudo parece patético e bobo e como a tua cara condena muito mais do que tu gostarias, às vezes os olhos dizem muito mais que a boca, quem sou eu pra convencer, mas se houvesse o espelho talvez você risse e dissesse tudo bem, tudo bem, mas lerei durante as tardes.

você escapou, pequenino. escrevo desacreditada porque se goethe não seduziu que dirá eu. herança do décimo sétimo fico amortecida, alguma coisa mudou porque há uma calma aqui dentro que eu não condeno mas que torço tanto pra que vá embora logo e volte o furacão de outros tempos. como já disse, desisti de todos os pequenos-jogos que conheço bem porque sei não fazer efeito contigo, pensei talvez melhor ser honesta uma vez na vida, não que tenha dado certo, mas considere a tentativa. o mundo anda girando de um jeito estranho e sob certa luz declarações mais parecem despedidas, adeus têm cheiro de até logo, quem vai saber, é como meu desejo agora de saber se haverão mais vinhos, mais sinucas baratas, se haverão mais risadas embaixo de árvores, pequenas-comidinhas, discussões ideológicas, se haverá alguma das cento e doze oportunidades de que precisamos pra fazer tudo aquilo que foi combinado, uma cachoeira, um jantar longo, um álbum de fotos, ninguém há de saber o futuro, me diriam, e eu responderia dizendo que ninguém há de controlar o que se quer.

você escapou, pequenino, e lembro ainda de tudo aquilo que teu corpo diz sem que você perceba, porque o corpo é o dono do impulso, não se escolhe as palavras, não se reprime uma vontade do corpo, ele é todo menos dócil que a língua, ele fala por si, e ai de você se ouvisse tudo o que ele me diz quando você me beija a testa, acarinha o joelho, procura por baixo da mesa meus dedos pra brincar, enche o pescoço com cinco ou seis pequenos beijos. cairias duro e surpreso se soubesse o que teus olhos vêm gritando toda vez, mesmo de longe. propus no décimo sexto que continue a me dar seu corpo, que entre você e ele, talvez ele goste mais de mim. me poupo sem saber dos pensamentos sobre tal convite, ele existe, tu aceitaste, está aí, e não o nego, é um convite racional, como tudo me parece ser agora, cru mas seco e sem expectativas, como tu querias e eu, humilde, acatei, bem sabendo que encaras tudo como se não se importasse, como se não fizesse diferença, é assim, ótimo, se não fosse, estaria bom também.

você escapou, pequenino. esperei por algo que não sabia o que era e que jamais saberei porque não é feito para chegar, aprendi a entender e agora calmo. nada muda desde o décimo sétimo, anestesiei e sigo assim no esforço de manter tudo do jeito que foi deixado. é certo que há o grito contido e ele haverá de vir, só não agora. é que há tudo a se dizer, mas não há ouvidos, então se fala a esmo, oferecendo a opção. é só que não cabe tudo aqui.

08 março 2009

enluar

quando a vodka já não é suficiente, o céu escuro obriga a pensar. uma dose seca, quente, ácida, seria mais funcional - mas se há agum momento em que a mente decide no que é que há de se pensar, esse momento é aquele dos pequenos pontos de luz, do vento frio, de quando boa parte da gente que é normal é recolhida à cama, adormecida, confortada depois de uns dias que têm durado tantas horas, e só quem sobra é aquela outra gente, que vive da noite, que vive aos pedaços, aquela gente da insônia, das luzes baixas, do vinho e do jazz, ou do cinzeiro-sambinha-e-cerveja, apenas.
quando a vodka já não é suficiente, é preciso aquele pensar que vai por onde quer: é certo, quase sempre caminhos já conhecidos, mas com um pouco de sorte se apega a algum atalho ou trilha bruta e de repente o todo se dispersa onde é possível dispersar. dali, de um dos poucos lugares onde o previsível é errôneo e as cores têm cheiro de pólvora, dali bem sabe que ninguém escapa imune, não é tempo de chão, não há virgens eternos.
e quando o tempo é esse, tempo de ventar apenas, tempo não de vodka, mas de lua, não se adianta escrever, que nada prestará, nada fará sentido algum. obrigatório apenas apertar os olhos, procurar um foco - mas não sem antes soprar as nuvens do céu inteiro.

03 março 2009

das coisas à toa numa manhã de domingo

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bem se sabe que sou péssima em explicar razões. nunca reclamei tal direito, portanto. pensava apenas que as vontades justificavam atitudes, e que vontades dignas são responsáveis por atitudes justificadas (ou justificáveis). vez ou outra, quando é preciso pensar sobre coisas que faço ou digo, enfio os pés pelas mãos, sem muitas desculpas. também isso seria justificado.
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defendo também tudo aquilo que dói, tudo aquilo que come por dentro, que ferve, tudo aquilo que obriga a algo novo, inédito, melhor. defendo adriana que canta que gosta de quem tem fome, de quem morre de vontade, de quem seca de desejo, de quem arde. defendo garcía márquez, que diz que só se vale a pena falar do amor. defendo nelson rodrigues, que mata seus personagens em noites desertas, no meio da rua, por causa de um beijo. defendo cazuza, cartola, kundera, drummond.
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gosto em você da parte que não faz de mim o que eu não sou. gosto da parte que não me diz como sou bonita, como todos os outros me querem, como sou quando escrevo, quando falo, como sou mais velha de espírito, como não pareço as meninas bobas de vinte anos. gosto em você da parte que não se apaixonou, embora isso também dilacere por dentro. gosto porque não me é comum, porque o comum é sempre oposto.
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gosto em você de beijinhos no pescoço e de conversas despretensiosas, misturando o que é possível de se misturar entre amizade e desejo. gosto em você da vontade que tenho de te mostrar tudo que conheço, tudo que já vi, tudo que talvez haja a chance de você gostar também. gosto em você do que me faz pensar, do que não me é comum, gosto em você da pessoa que eu nunca vi, de mostrar como é a humanidade em palavras que não têm outra função a não ser serem belas. gosto em você das lembranças que carrega na barba, no cabelo, na bermuda, no violão. gosto em você da sinceridade jogada na cara como uma navalha afiada em pedra. que rasga. gosto em você do novo que nasce em mim, da calmaria, do estar tranquilo em se estar junto. e se não se pôde ser assim em todo, assim foi ao menos do lado de cá.
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o que dói hoje é o que não doía antes, é o querer mostrar e não poder, o querer estar e não poder. é um doer novo, que eu nunca reneguei (porque não há de se renegar o doer), e aceito de bom grado, embora pense que a calmaria ainda valesse um pouco mais, porque todo mundo sabe, é melhor ser alegre que ser triste. o que dói hoje são os planos esquecidos, as fotos não reveladas, aquilo tudo que era pra ser feito e não foi. o fim que é triste por ser fim, mesmo o fim que esquece em cada um aquele pouquinho de esperança. que se houvessem certezas, o coração prometeria mundos, prometeria uma vez a cada quinze dias, prometeria dias sem cobranças, sem desesperos, apenas a felicidade de poder se estar junto quando se dá vontade, e apenas isso, e o coração os prometeria, sem problemas, sem dores, apenas a disposição. mas não há certeza alguma, nunca, e nem poderia haver: a importância de um amigo não é a mesma importância de alguém que se queira ver bem mesmo contra si próprio, não é a mesma importância de quem se quer beijar na boca, levar à cama, apanhar flores no caminho, dizer palavras tolas às estrelas, dizer finalmente as palavras que são proibidas.

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o que dói hoje é a certeza do meu dramalhão barato; do gosto mórbido que tenho em ver um orgulho ao chão, pisado, arrastado, maltrapilho - mesmo e principalmente se esse orgulho for o meu. que isso não me aumenta e nem diminui, que não sou por isso mais ou menos louca, mais ou menos fraca, mais ou menos forte, desde que haja na história toda um alfinete pelo qual lutar, uma esperança na qual acreditar. que sou romântica até o fim das carnes, e não no sentido amor romântico, mas no sentido das coisas que devem ser bonitas e literárias, como a arte e a poesia, sempre. vivemos naquilo que queremos. e se algum dia isso for possível, não há palavras mais a se dizer.


 

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