05 julho 2009


me faço eu própria em água, e em mim mergulho. penso no inteiro que é ser água e então estou em casa, confortável e calma, na tranquilidade que breve sobrepõe a tormenta. exercito os pensamentos na delícia de me conhecer, mas ainda doce e breve não há obrigação em me encontrar. hoje não sou inteira, hoje quero ser múltipla, diluída e camuflada no mar em que passeio. entre eu e a água, nada: o esforço da mudez e a palidez dos desencontros. mostraste-me ontem uma imagem que me fez sentir como são leves as coisas, e como escorrem, embora menos do que eu. quis dizer algo que soasse colorido para preencher teus espaços e lembrei que nenhuma cor há de preencher se for sozinha. acontece que hoje não há cor nenhuma, o mundo é translúcido e posso ver pelas entranhas de toda e qualquer coisa, e o desejo de conhecer me põe tão ocupada em mim que quando vejo é escuro e o sol já se pôs. um dia longo, um dos dias de uma sequência finita e doce, que deve preceder algo bom, posso sentir - enquanto isso calo, calo e vou, apenas, sem respirar. para conhecer meu limite nessas águas, para fazer-me toda fluir, para tornar-me outra coisa, só por hoje. e então, há pequenos ocos de luz que passeiam ao meu redor, pequenos leves sinais delineados na superfície. sob meus pés, a imensidão.

, e pegou de mim o que eu tinha de melhor. o que criei de mais bonito. pegou minhas tardes de sol, minhas músicas favoritas, meus doces sabores. meu respirar. pegou a parte mais doce que havia em mim. pegou minha vontade, a minha coragem, o meu peito em brasa. meus olhos molhados. o meu perdão.
pegou o meu sossego, meu medo do mundo, minhas lágrimas claras. os pequenos chocolates, a janela do carro, a cortina aberta, pegou minha barraca, minha cobertura, o meu filtro amarelo, o meu pijama, o meu café fresco. pegou de mim meu arrependimento. minha guerra e minha paz. me arrancou do morango o vermelho, da chuva a brisa, da tarde a cor. minhas noites dormidas, a minha voz grossa, minha crença no agora, a minha inocência, os lábios corados. a reciprocidade. a luz dos olhos. me arrancou as belezas, meu samba da vida, minha carne inteira, todo o meu pulsar.

, da maldade que és, por vingança, por medo; impulso; podridão. condenou meus amigos às trevas, meu corpo à luxúria, meu eu ao desassossego. fez
de mim pouco palco, sadia, serena, usou da inocência, da falta de assunto, de frivolidades, usou do vermelho, da flor que coubesse, do sangue, da raça, da luta de galos, dos dias de ócio, da imundice, do feio, do sujo, do podre do velho do escasso, do ardido, do ácido, do fundo, do verde dos musgos, esgotos, subúrbios, cuspiu na minha cara, me fez limpar, chorar, doer, rasgar

, sendo eu a culpada, megera, maculada, me jogando na cara, na rua, na praça, cobrando perdões, cobrando verdades, e eu que rompia, que ardia no mundo, e eu que insistia, no escuro, no medo, no que sobrou de honesto, sincero, ilusório

, ainda que arda, que mate, que fique, ainda que parta e apodreça ainda mais, que cheire, que vaze. ainda que doa, e há de doer, que chore, que queime. apesar dos teus olhos, da tua pele invisível, teus malabarismos, mentiras, promessas. apesar dos chamados, dos ecos vazios, das inverdades, dos falsos versos, de cada uma das palavras que usastes tão mal, tão impura que és, que soas, que mostras. ainda que sangre, que caia em pedaços, ainda metade, incompleta, inundada, mesmo que não acredite, que odeie, que marque. apesar do pior, do desejo terrível, do inevitável, do ódio guardado, apesar da vontade invingada, do grito contido, do rombo no peito


02 julho 2009

tua lâmina flácida saiu com furor mas sem certezas e acabou por destruir as nuvens que suspenso te mantinham
(não penses jamais que tudo virou pedra, porque se tem uma regra que meu coração sabe de cor é que é preciso sair por aí amando todo mundo)
novembro 2007

noite

não alimento nenhum sigilo, dou cria a obviedades cruas na luxúria das rotações. de onde estou vejo quatro paredes e me disponho em confronto a todas elas, mórbida e ansiosa. pela manhã mal podia respirar: a ameaça de tantos mais segundos. permanência. por um instante sinto em carne a fugacidade das essências e as vejo percorrendo membranas lúcidas do passado. as horas são leves mas trazem coisas pesadas - e agora estou à beira, o corpo treme, os olhos fixos, o silêncio perturbador do reconhecimento.

noite

vestida em coragem eu vou, deixando marcas de sangue e água por onde passo. transbordar: não há a quarta parede e o público interpreta os olhares que despencam sobre ele sem qualquer preocupação. noites nuas sob um céu sem fim, confissões em sussurros e o desejo intrínseco da carne surgem das estampas floridas e seguem dançando durante toda a noite e meu corpo treme sem controle, obedecendo mais às urgências da alma. inédito, o perdão não é invocado e ficamos a assisir a turbulência das reações das chamas de uma honestidade que é queimada sem arrependimentos, e cuja dor é sufocada pelos falsos ideais de qualquer coisa dolorida e infiel. penso-o como é pra mim mas escorrego pela translucidez de um carinho empoeirado. mais que espelho são seus olhos, e para eles me ponho rasgada e ácida. ser de extremos e não prometer nada nunca além do meu pior.

noite

o calor de um sol noturno faísca meus desejos e volto à outra madrugada, quando via-o dormir e meu corpo não pôde outra coisa que não acordá-lo em gota. rasgar a carne e dá-la inteira e insensata, passada a ferro, despida dos ideais imaculados, porque só assim seria vã suficiente. pra sentir-te inteiro. pra conhecer de ti a única faceta verdadeira de teus múltiplos lados dóceis e infantis. pra dar-me sem raciocínio à similitude e ao doer. pra colocar em torno de nós uma manta que nos fizesse cúmplices, sadios em nós mesmos, confusos entre braços e pernas e vontades. pra se aprender do incontrolável e do inocente. pra nos dar o único rascunho de sincero que nos foi possível em tão pouco tempo.

noite

mantenho-me em mim e não me permito a invasões. passeiam por meu corpo as dores sempre bem vindas e assisto em busca de concretudes. não há nada em volta. a ignorância vêm de mãos dadas com a perda e o desencantamento, me ponho quieta e escrevo. para ninguém.

noite

da janela vejo o nascer, o estar e o pôr do sol. ignoro o momento da perda e adio a decisão já tomada, sabendo da maldade da esperança e mesmo assim à mercê de toda ela. são poucas luzes coloridas e o som dos aviões me invadem como se fosse eu própria levitar agora mesmo. se na esquina no bosque na rua no topo do mundo te encontrar, vou dizer meu amor me deixa meu amor, que tudo ruiu foi por tão pouco, que deixei invadir penetrar macular me perdoa meu amor que não fui boa nem suficiente nem fragmentada, meu amor se te gritei foi porque não cabia e só, se rasguei ou arrastei o mundo nas costas me perdoa, se deixei cair pelo caminho se pisei em cima e se por acaso ele rolou meu amor, me perdoa se não pude permanecer ao fogão ou limpar melhor a tua casa ou arrumar melhor a tua cama ou se não acertei no livro na música no tempero, meu amor, me perdoa se não coube nos teus pequenos sonhos nos teus pequenos ideais, meu bem, me perdoa por não ter dançadoa tua música fechado as janelas ou aceitado tantas palavras que cheiravam mal meu amor, me perdoa, por ser assim inteira dura por dentro consistente e romântica e me perdoa meu amor por ter acreditado na sinceridade da carne do desejo da coragem, meu bem, me perdoa eu vou embora eu não volto mais eu não passo mais aqui eu vou embora meu amor

noite

uma vez era manhã e eu disse "quando eu me apaixonei", sabendo que essa pequena frase ia fazer inundar uma ilha do outro lado do mundo. deviam ser passarinhos lá fora, havia também uma cidade vazia e uma chuva fina acontecendo, eu não via mas podia sentir. disse assim para ele, em discurso direto mas livre de mim mesma, como quem assume uma coisa em terceira pessoa. ele abriu os olhos e eram olhos pesados doentios, e seus lábios tremiam com medo de que eu tivesse dito humilhada, mas eu previ e disse que não. disse "quando eu me apaixonei, eu sabia", disse que sabia mas não quis dizer que nunca acreditei. os olhos continuaram pesados e doentios e eu fui até o espelho, na esperança de descobrir quem foi que havia dito aquilo.


aquela era a época dos anúncios de fim do mundo, então era inevitável que nos passasse pela cabeça os pensamentos melancólicos que sempre acompanham o fim - qualquer que seja ele, é da natureza do fim ser triste e melancólico - e até o pôr do sol, lá estávamos, ao pé da árvore, enumerando as pequenas coisas que tínhamos vivido.
era época dos anúncios de fim de mundo, e nos perguntávamos se haveria mesmo céu e inferno, julgamento final, todas essas ameaças que nos fazem viver com medo. sempre achei que nunca haveria nada disso, mas era inevitável também que todas as pessoas do convívio nos visitassem em lembrança, pra que pudéssemos nós, no egoísmo da sede de sabedoria, julgá-las previamente, mandando-as pra onde achávamos que deveriam ir. as minhas, na maioria, acabam no limbo, como eu.
então houve uns minutos de silêncio e passei a acompanhar, de memória, as mudanças das pessoas com as quais eu convivia, desde que as conhecia e até aquele momento. é preciso 'cultivar algumas pessoas para que se isole toda a outra humanidade'.
estávamos fatalistas como deveriam estar dois seres humanos à espera do apocalipse. por um momento desejei não ter cultivado pessoa alguma, logo não sofreria com o fim de mundo ou os destinos opostos que pudéssemos ter, mas então pensei que coisa besta seria privar a vida por medo das coisas tristes que podem haver. lembro de ter pensado ainda que, se pudesse, colocaria sentados ao pé da mesma árvore todas as pessoas incrédulas que conheço, todas as medrosas, as apáticas, todas as pessoas tristes, as desacreditadas, as egoístas, todas aquelas viciadas em recolher argumentos pra justificar o medo da entrega, e ficaria com elas até que o mundo acabasse, reunindo sambinhas fotografias histórias e versos, no esforço contínuo de convencê-las de que as coisas valem a pena, veja só, é só você acreditar, a tristeza é inevitável de qualquer forma então é preciso compensar com alegria.
o coração bateu tão forte com a idéia que precisei compartilhar. ouvi que não se deve convencer ninguém de nada, que as pessoas são diferentes e que cada uma vive à sua maneira.
esperamos até o pôr do sol. o mundo não acabou.

01 julho 2009

a tormenta a calmaria a tormenta a calmaria a tormenta a calmaria
a tormenta a tormenta a tormenta a tormenta a tormenta


aos poucos, bossa nova




21 junho 2009

observação teórica II

a porta está fechada. é um apartamento claro de janelas grandes, e a luz da manhã invade a sala toda através das cortinas que balançam com o vento. uma janela está aberta e outra está fechada. há um retângulo de luz formado pelo sol direto, que ilumina o girassol. entre os dois sofás claros há um colchão posto ao chão. o colchão comporta um travesseiro branco, um lençol de flores claras, e rafael, que ainda dorme. no chão há um roupão branco, uma toalha de banho e dois travesseiros. as paredes são decoradas por quadros que estampam fotografias e a imagem de uma pintura à óleo. no aparador de madeira clara há um calendário, três porta-retratos e uma pintura com escritos de neruda. ana está despida, sentada em uma cadeira, e apóia os pés no sofá enquanto lê um pedaço de papel escrito à mão, em tinta azul.

O que corrói mesmo não é o que se faz ou se deixa de fazer - é o tempo, a idéia do tempo, esse ser suspirante e devastador, para criar um pouco de poesia com o que não se compreende

cristóvão tezza

20 junho 2009

tô meio ocupada sendo passional

17 junho 2009

não fosse isso

e era menos

não fosse tanto

e era quase




leminski

peito em flor

em luto aos dramas mesquinhos de todos os dias,
pra uma vida que se revelou outra tão de repente


tens os olhos jovens e os braços fortes e tua dor que é invisível para os outros pelo menos durante os próximos dez anos. teve o futuro chegando cedo demais e agora tens uma dor que não sei medir embora tenha achado por tanto tempo que as minhas eram assim tão compridas. vai ver eram só tripinhas de dor, coisinhas que precisavam só de um beliscão. não sei do que a tua dor precisa. queria saber do que ela precisa pra eu poder oferecer de peito aberto, sempre. queria saber pra poder confortar, poder dar colo, chão e céu. queria saber, queria entender, queria que você sentisse no abraço que não está sozinho. a dor que eu vi nos teus olhos me fez querer tanto me juntar a ti só pra que desses olhos pudesse sair, pelo menos, a solidão.

queria saber da tua dor pra dizer o que você precisa ouvir. é um momento tão teu que não posso evitar desejar desesperadamente fazer parte. hoje as coisas tiveram tons pastéis e só você era colorido. e as tuas cores eram tão bonitas.

tenho a te desejar alegrias, tristezas e mais daqueles momentos em que você pensa não querer estar em nenhum outro lugar senão ali. tenho a te desejar vida, apenas. de repente e pela primeira vez, tive vontade de colocar a minha à disposição. se isso se chamar amor, hoje você é mais importante do que qualquer coisa no mundo.

16 junho 2009

qual a diferença entre desistir e parar de tentar?


"São 'convenientes' as coisas que, aproximando-se umas das outras, vêm a se emparelhar, tocam-se nas bordas, suas franjas se misturam, a extremidade de uma designa o começo da outra. Desse modo, comunica-se o movimento, comunicam-se as influências e as paixões, e também as propriedades. De sorte que, nessa articulação das coisas, aparece uma semelhança.(...) A alma e o corpo, por exemplo, são duas vezes convenientes: foi preciso que o pecado tivesse tornado a alma espessa, pesada e terrestre, para que Deus a colocasse nas entranhas da matéria."

Foucault

barthes, peirce e o meu desencantamento do mundo



a dança, matisse

filhos, textos e amores têm em comum a pior das características. nenhum deles jamais será teu. teu filho nunca será teu, teu amor nunca será somente teu. teus textos, sejam prosa, poesia ou dissertação, não importa: jamais serão somente teus. você os pare para o mundo, num processo tão intenso quanto dolorido de carinho e criação. e o mundo fará deles o que bem entender. porque um momento, mesmo que registrado documentado fotografado, é um momento morto: não volta mais. uma música ouvida, uma fotografia, um recado, são todos símbolos, memórias mórbidas de um passado que fez parte, mas morreu. não há presente. pode haver, ao máximo, a lembrança - o mais é todo ilusão.

qualquer fruto da criação (pode ser um texto em prosa, quem sabe) é lançado por ti para o mundo. o mundo terá seus próprios referenciais: podes fazer o melhor de ti ao produzi-lo, lançá-lo, construí-lo, mas o mundo fará dele o que quiser, e nunca será aquilo que você desejou. porque o mundo, como as pessoas, são assim munidos de tantas coisas, coisas que maculam as percepções e que tornam tudo uma outra coisa diferente.

teu amor é também fruto da tua criação. ele jamais será teu, ele é do mundo, e o mundo tem olhos verdes (o mundo e o ciúme de shakespeare). e podes debater, gemer, cansar, mas o mundo fará dele o que o mundo bem entender.

15 junho 2009


Cansou-se previamente das pequenas luas que ainda teria, revoltando-se e cedendo em seguida, até o fim.

clarice

14 junho 2009

querido diário,

hoje, quando acordei, a gata estava mastigando meu cabelo, como de costume. o sol já estava lá em cima, o termômetro do Itaú marcava 12 graus e o calendário da mafalda tinha quatro ou cinco itens que deviam ser resolvidos esse domingo. lembrei de andré e das músicas que a gente ouviu noite passada e botei nelson gonçalves pra tocar. fiz comida, arrumei a casa, recolhi a roupa, brinquei com a gata, empilhei na mesa os livros os quais vou consultar, as revistas que vou ver pra fazer o projeto do freela. um banho, um bombom de uva, um copo grande bonito e gelado de suco de melancia.


tem ferida aberta e tem peso no peito, mas o domingo acontece e a casa está em paz.

13 junho 2009

Perto da dor de saber
Que esse céu não existe
Que tudo o que nasce
Tem sempre um fim triste



vinicius e
tom (herança de gabriel)

conheci um velho triste.
o velho tinha a pele enrugada. tinha um escuro ao redor dos olhos, um escuro feio, úmido, enrugado. um escuro que não era escuro por causa do tempo, por causa da chuva ou por causa do cigarro, era um escuro molhado, um escuro que guardava mais lágrimas do que comportaria o oceano atlântico. o velho tinha pés de galinha, sobrancelha escassa, amarela. tinha cavas fundas no rosto, provas de feridas que talvez já tivessem sarado. mas não era por isso que o velho era triste.
o velho tinha a boca seca. tinha regulada a quantidade de água, a quantidade de açúcar, de sal. o velho tinha poucos dentes, todos falsos, e comia com dificuldade. os lábios eram abertos, rachados e feridos, mal se fechavam. a boca do velho já cheirava aos limites do corpo humano. o sorriso, quando havia, era de uma comédia baixa. inocente.
o velho tinha pouco cabelo na cabeça, quase menos que nas orelhas. o crânio à vista, delineado. o pescoço amarelado, uma ou outra mancha vermelha, rastros de um sangue que cansou de circular. mas não era por isso que o velho era triste.
o velho andava com dificuldade, joelhos doloridos, cotovelos doloridos, as ancas pareciam congeladas, imóveis, não mais ativas, sustentadas pelas pernas fracas e finas, pernas que já foram grossas e fortes mas que já não eram mais. o velho precisava de apoio para tomar banho e nunca esfregava as costas.
o velho gostava de futebol, de samba e de cerveja. não jogava mais, não tocava mais, não bebia mais. mas não era por isso que o velho era triste.

os olhos do velho viam as crianças, os jovens, os homens e as mulheres. os olhos do velho já não tinham mais a nostalgia. admiravam, apenas. os olhos do velho viam crianças aprendendo a escrever; crianças chorando por um doce caído ao chão, crianças correndo felizes na rua.
os olhos do velho viam jovens traçando planos para a vida, se apaixonando, imaginando um outro mundo tão possível. os olhos do velho viam jovens tristes e desiludidos, jovens que tiveram o futuro arrancado, jovens saudáveis com caminhos a percorrer.
os olhos do velho viam mulheres bonitas, mulheres feias, mulheres ingratas, mulheres de bom coração. viam mulheres mães, mulheres apaixonadas, trabalhadoras, mulheres promíscuas, mulheres sem esperança.
viam homens de gravata, homens sem gravata, homens procurando lixo, procurando ouro. os olhos do velho viam homens bons e homens ruins, homens com pressa, homens com fome, homens dentro dos carros, homens indo embora.
mas não era por isso que o velho era triste.

o velho tinha a vida compartilhada com sua mulher, uma única mulher, digna do seu melhor e do seu pior. uma mulher companheira que havia cometido erros, que podiam ou não ser grandes o suficiente, mas não importava. o velho tinha a vida compartilhada com essa mulher e envelheceram juntos, na compreensão mútua da tristeza de ver tudo se esvair. mas não era por isso que o velho era triste.

o velho era triste porque havia aprendido a ler, a escrever, a jogar futebol. porque havia perdido um doce e chorado por ele, porque havia feito planos, acreditado neles, feito o possível para que lhe fizessem parte da vida. o velho era triste porque havia se apaixonado, havia sido saudável, havia trilhado um caminho, caído em alguns momentos, sofrido em muitos outros. ele era triste por ter tido mulheres de todos os tipos, de todas as cores, amantes ou não. era triste porque havia procurado por ouro, andado em carros, tido pressa, vontade, coragem.
o velho era triste porque havia vivido e apesar da vida tinha aprendido muitas coisas. aprendido sentimentos, paciências, necessidades, aprendido o que é real e o que não é, o que é preciso e o que não é, o que é possível o que não é. aprendido o que se há de fazer quanto ao outro, aprendido como é mais fácil ou o que surte mais resultado. o velho era triste porque sabia o que haveria de dizer, o que se haveria de fazer. porque sabia o que já fora tentado antes e o que ainda não havia sido. o velho era triste por ter vivido e ter aprendido todas essas coisas, coisas que agora já não eram mais úteis, coisas que só fariam sentido se fossem repassadas para alguém mais vivo do que ele. mas as pessoas vivas não querem ouvir.

aquele velho era triste como mais ninguém.


PROCURA-SE

procuro definição dos conceitos de verdade, amizade e sinceridade, com exemplos práticos e mostras reais. motivo: os meus foram roubados pela vida, procuro novos para substituição. preço a combinar, mas já aviso que estou disposta.

12 junho 2009

o que será que será
que dá dentro da gente e que não devia
que desacata a gente, que é revelia
que é feito uma aguardente que não sacia
que é feito estar doente de uma folia
que nem dez mandamentos vão conciliar
nem todos os ungüentos vão aliviar
nem todos os quebrantos, toda alquimia
que nem todos os santos, será que será
o que não tem governo, nem nunca terá
o que não tem vergonha, nem nunca terá
o que não tem juízo

chico
 

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