28 fevereiro 2009

há tanto a dizer.

15 dezembro 2008

a história que podia muito bem ser minha mas não é



Manaíra tinha o coração do tamanho de um alfinete. Manaíra era grande, forte, bonita, não daquele jeito tradicional de ser bonita, mas carregava nos olhos um charme sem fim. Manaíra não tinha muitos afazeres: lia um pouco menos do que gostaria de dizer, andava até a mercearia, todos os dias, para comprar pão e esticar os olhos pra um pouquinho além das janelas, contava uma vez por dia uma história que era mentira, mas que não machucaria ninguém. Manaíra tinha o coração bom. Mas ele era do tamanho de um alfinete.

Manaíra tinha problemas para dormir. Todas as noites, virava de um lado a outro mais de setenta vezes, algumas com força, e bruscamente, como se pra espantar alguma coisa que a estivesse entrando pelos cabelos. Manaíra recebia visitas todas as noites antes de dormir: eram todas as pessoas que haviam tentado - ou poderiam ter tentado - entrar em seu coração, mas não couberam por algum motivo. Manaíra pensou que algumas deviam ter os pés muito grandes, ou as cabeças, ou os egos, quem sabe - mas não faria diferença de qualquer forma, ela pensou, porque não caberiam, de qualquer jeito. Manaíra sofria de insônia quando procurava alguma maneira de fazer crescer seu coração compactado: nunca encontrou.

Manaíra lembra com carinho das vezes que, por alguma coincidência, ou simples sorte, conseguiu que sua pequenina sala de estar recebesse alguém por inteiro. Em todo o tempo, não seriam mais de quatro vezes, e ela entristecia, mas pensava que poderia ser pior e virava-se na cama novamente. Certa vez, entrou em seu coração alguém que ela jamais esperaria. Pensou que ironia!, tantas vezes querendo tanto que as pessoas me coubessem, e então assim, sem nem querer, elas me cabem, e ficou sem saber bem o que pensar e o que sentir, era ainda tão tão novo pra que ela pudesse sentir alguma coisa. Manaíra passou alguns dias com o coração-de-alfinete apertadinho, ocupado em todos os cantos, tendo de abrir a janela pra que seu hóspede pudesse respirar. Manaíra não queria sufocá-lo, mas era tudo tão pequeno naquela salinha de estar que, tendo o hóspede entrado, tiveram de sair os móveis, as flores, as almofadas, e Manaíra olhava de longe, porque afinal quem é que mexe a fundo no seu próprio coração? Foi quando o hóspede de Manaíra sufocou, não podia nem ao menos movimentar pela sala. Ficou triste, definhou, e de definhado que estava, escapou pela porta, em uma pequena agonia daquelas que coçam a garganta daquele jeito ruim de se coçar.

Manaíra assistiu à partida inquieta mas imóvel, deitada na cama, em um daqueles instantes adocicados, antes de cair no sono. Manaíra já estava meio inconsciente, mas lembra-se de ter pensado: ah, que pena esse coração tão pequenino.

Manaíra amanheceu com a sala de estar em ordem, à espera de alguém que a venha visitar.

as usual

Resoluções de novo-ano

comprar um relógio de pulso
revelar pessoalmente minhas fotografias preferidas
entrar na yoga
no pilates
no budismo
na umbanda
checar o orkut uma vez ao dia, no máximo
fazer uma agenda telefônica
arranjar alguma coisa realmente importante pra se preocupar
dizer, em média, dezesseis "foda-se" por semana
botar o coração em regime de engorda
reclamar daquilo que for preciso reclamar
e só
passar a olhar por quem não tem casa
não tem dinheiro
não tem saúde
olhar também por quem não sabe o que é que não tem
assumir o gosto pelas artes visuais
ler todos os garcía márquez restantes
julgar ainda menos
conhecer cinco novas cidades
esquecer o que se precisa esquecer
ser mais cazuza que regina
ser mais nelson que lispector

10 novembro 2008

te disse que entrava um frio-de-sol pela janela, mas não quis me vestir. o frio não tinha nome nem corpo mas sabia fazer os braços arrepiarem, assim, fazia tanto tempo que. do que é que a gente precisa pra se sentir vivo? ele perguntou, mas eu fiquei quietinha, como se soubesse a resposta mas não quisesse contar. no fundo, eu mal prestava atenção. é que o sol fazia um desenho engraçado nos cabelos dele, e eu olhei e achei parecido com um filme que vi fazia um tempo. era uma menina que tinha ficado pálida de tanta angústia que ela guardava, aí ela resolveu sair e conhecer o mundo. engraçado como as melhores decisões são tomadas nas horas de maior desespero. ele me perguntou baixinho o que eu ia querer comer, já fazia tempo que o mundo girava lá do lado de fora, mas eu nem percebi. sabe o que eu tenho aqui? um grande e fundo poço preto, preto não, azul escuro, e ele nem dói, parece que nem pra isso presta, ele só serve pra me tragar, e ele traga tão fundo, como se não fosse devolver nunca mais tudo isso que ele traga, as cores, as dores, meus cabelos, e isso me deixa triste, triste, como quando eu vejo uma criança com fome na rua ou quando o céu raia cor-de-lis, eu quis dizer, mas senti como se ele não fosse ouvir e então fiquei. ele se debateu um pouquinho com o lençol e deu risada de tão bagunçado estava tudo, engraçado, lá fora as coisas pareciam em perfeita ordem, mas naquele quarto, mas. enquanto eu pisquei eu pensei em um milhão de fotos e coisas que eu tinha pra dizer pra ele ou pra fazer durante a manhã, antes que chegasse o dia 22, mas me deu uma canseira tão pesada que eu só consegui suspirar. ele olhou e disse Você tá tão quietinha hoje, tudo bem? pensei que se eu tava quietinha não devia estar tudo bem, que eu jã não sabia apontar onde ficava o meu coração porque eu tinha a impressão que ele havia se diluído pelo corpo todo e perdido a essência e não fazia mais nada a não ser vagar pelas veias todas sem saber direito pra onde ir, coitado, não foi pra isso que nasceu, e essa coisa diluída de não saber o caminho transformava tudo em um grande emaranhado de coisas que não poderiam estar no lugar certo, mas não falei isso, não, falei só que estava tudo bem e que precisava ir trabalhar.
no caminho do trabalho não tinha flor nenhuma. já faz uns dias que a primavera começou.

08 novembro 2008

tenho andado distraído



depois do café, olho a janela que não me diz nada. são poucos os dias como esse; dias em que nem o céu parece saber decidir entre o sol ou a chuva. uma vontade contida ou uma confiança que se fez imprópria contróem setas dentro de mim, setas que não apontam, que simplesmente existem, como tantas outras coisas.


desde Laura Féliz que conversas não agregam tanto a mim como essas dos últimos tempos, últimos jantares, últimas preguiças, últimas dúvidas e decisões. calmarias de ser-em-azul, que chegam sem que as tenhamos chamado, que ficam, ficam, que se tornam parte de nós.


tinha treze quando me marquei pra sempre pela primeira vez. quatorze pela segunda. mesma época de Laura Félix, mesma época de André, mesma época de Clarice Drummond Artaud Cazuza e Cartola. mesma época de linhas e caminhos que me deixavam ver o final. desde então, apenas círculos.


poucas vezes me senti tão cansada sem cansar; tão funda sem doer; tão inteira sendo só metade. tenho saudade do ventar, do doer-leve, de Marina, cultivo aqui comigo o buraco das coisas doces devoradas pelas formigas de um tempo que atravessei sem ver. pela primeira vez desde alícia as borboletas voltam a percorrer o meu estômago, meu pulmão, meu pés braços mãos peitos pernas e a mente que ainda nunca dediquei.


me atrai aquela parte livre que passou tempos em casulo, mas não pelo casulo, nem pelas cores que lhe tomaram depois; me agrada o tempo enclausurado sem companhia, sem família, o tempo incluso, o hiatus solitário e doloroso, e cru. me atrai que esse hiatus seja temporário, que os ciclos se completem, que pra ele haja um sentido, uma razão; me atrai que tenha sido silêncio mas que então torne-se música, de melodia intensa e breve; me atrai que encante, que não tenha então raízes, que não tenha então limite, que seja cores. me atrai tudo que é intenso; me atrai o que vai acabar.


já não me dou com mudanças bruscas, já não sou mais da espera pelo dia-de-ser-tudo-para-sempre. mas coração é treinado; sabe entender quando o ritmo muda. sabe sentir quando desperta.

04 novembro 2008

já baixa a poeira nos livros da estante
os olhos de sol fitam rápidos
entorpecendo o peito em poesia

e eu que achava a prudência um dom
deixo-a para os mais bem resolvidos

a mim me basta respirar

03 novembro 2008

ê vinicius

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecidaE

se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

26 outubro 2008

narciso II

eu não sei o que o meu corpo abriga nessas noites quentes de verão. respirar de peito aberto é uma batalha a ser vencida dia após dia, com os olhos livres de buscas pelas verdades absolutas que nunca salvaram ninguém. carrego em mim a culpa condensada de ser a responsável por noventa por cento de tudo aquilo que condeno; e a esperança infantil do dia de cores fortes que haverá de trazer algodões-doces de mudança. há também a calmaria do coração quando me vejo frente a uma compreensão que me faz inumana, inacabada, indestrutível, e a tormenta aguda que me dói apática quando sinto vivo aqui cada sentimento novo - sincero, puro, cru - e que me faz intensa, inteira, impulso. sinto cada vez mais forte o cheiro doce da simplicidade que me chega à porta munida de dimensões que vi uma vez, mas que jamais esqueço; por vezes, entrego-me à preguiça, atrás de qualquer desculpa esfarrapada, e me deixo consumir cada pêlo, pele, parte, por um sol que acabei de conhecer, mas que sou íntima. do amor: quero fundo e crio aqui com o cuidado de uma mãe que acabou de parir - sou toda e inteira dos amores que escolho meus, mesmo que não os tenham escolhido. não me dou à senhora tristeza de aguardar que meus amores percorram o mundo e retornem a mim; sou provedora, apenas, encarando de queixo alto consequências eventuais. da tristeza: deixo vir com a condição de que venha em chamas, tudo que é tem de ser em todo. não me esquivo do caráter cazuza de tudo ou nunca mais, porque há de ser vivo vez ou outra. da coragem: vejo sempre dois ou três passos adiante; não tão perto a ponto de alcançar, não tão longe que possa desistir. da febre: sem ela nao sou. das lágrimas: saudades doídas do sal que adormeceu. do futuro: parto aos poucos a brisa da vontade. pra quando o verão nascer. pra quando chegar a hora.

"A culpa foi minha, chorava ela, e era verddade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar"
Saramago.

05 outubro 2008

é que eu amo o amor dos marinheiros
de adeuses, de despedidas, de cais e porto
mas é que ficaram os dedos no rosto
as mãos dadas, as frases erradas
os olhos fixos
teu olhar, em azul, ainda sussura
.
de bilico.

Eis que

.

agora, todos os domingos, participo em vento e pulso aqui: O Diazepam. A idéia é de escritos diários mantidos por mim, por Manu Salazar, por Mari Cioffi e por Amanda Audi, compondo os íntimos de coração, e pelos brutos Sandoval Poletto, Chico Marés e Fábio Pupo, fazendo as vezes ósseas e avermelhadas. Claro que tal ordem não existe; vamos levando o mundo como o mundo nos leva, olhos abertos e braços dados com o acaso.


.

25 setembro 2008


lembro de uma época, deve fazer uns quatro ou cinco anos. eu já tinha tatuagens. eu costumava visitar uma amiga num apartamento que ficava na esquina da lamenha lins com a visconde de guarapuava. o sobrenome dela é francês. ela queria ser advogada.

acendíamos marlboros vermelhos e abríamos garrafas de vinho ou de vodka e ficávamos assim, penduradas na janela, com nossas saias e nossos grampos de cabelo. discutíamos poesia - todas, as que líamos, as que nunca tínhamos lido, as que nós mesmas nos arriscamos a escrever. falávamos do rock n' roll e de florbela espanca. entendi meus primeiros baudelaires naquelas noites. bebíamos sem saber direito por quê, mas nos completávamos assim. quando achávamos que o apartamento já ficava pequeno em relação ao mundo, saíamos.

uma vez, vimos a rua 24 horas amanhecer. ela passou a noite toda batendo boca com um porco capitalista. eu tomei muitas taças de vinho - era inverno e a rua 24 horas vivia como nós. se não me engano, foi na mesma noite do show cover do led zeppelin ou dos doors. hoje, não é difícil compreender por quê tantas noites em claro me despertaram os olhos para um mundo outro que não este.

feirinhas do largo da ordem, noites em claro com palavras que não controlávamos - às vezes, nem entendíamos. estávamos no mesmo transe que permitia nosso pulsar. numa dessas noites, dei-lhe um beijo.

ontem um recado dela quase passou batido por mim. há tanto tempo que o mundo não é mais claro como aquelas noites - embora as saudades sejam tão compridas quanto. as vidas mudaram e o transe não é mais o mesmo, mas a herança do marlboro adocicado pelo vinho me traz de novo à florbela e a talayer. algum sopro daquelas noites passa ainda por aqui - então eu lembro de um tempo em que a lamenha lins era tão doce quanto ela.

13 setembro 2008

"que ela nunca fora assim, de tanta agonia pura, densa, toda vez que a olhava me parecia prestes a explodir"

03 setembro 2008

resolução de noites quentes ou tudo que sempre quis fazer mas me disseram proibido

....
......
.. .........




vou sair pra ver o céu
vou me perder entre as estrelas

02 setembro 2008





tenho uma hora e dezenove minutos pra viver tudo o que tem aqui


fome, um zunido leve na memória, aquela preguicinha gostosa de acordar sem pressa, prestar atenção no som que vem do outro lado da janela, a luz que vem do outro lado da janela, a estação que vem do outro lado da janela, mas que ainda não entrou. uma ou outra coisa que mexe quando meu sobrinho dá risada ou faz uma descoberta nova lá na sala, porque o mundo já havia acordado um pouco antes, um nervosismo sem remédio quando penso em coração, a ansiedade do fim de semana que amanhã bate aqui, a vontade de enumerar todas todas as vontades pra que nenhuma se perca, porque é isso que fazemos quando não temos nada a fazer, enumeramos vontades e sonhos e ânsias, que são tão nossos, tão nossos, talvez a única coisa que realmente nos pertença e só a nós, e depois abrir espaço pra uma melancolia breve e fina, a melancolia de estar aqui, de ser essa rotina agradável mas viciosa, vira e mexe queremos mudar mas as portas não alcançam. sentir o corpo acordar, esperando mais um dia daqueles que compõe, mesmo sem saber, uma solidez que passa batido mas que está lá. pulsando.


pulsar.



depois, viver o mundo.

28 agosto 2008

II

"Paula,

não sabes o quanto me recrimino por ceder mais uma vez a esse vício amigo da tinta no papel. Já começo assim, a justificar-me, mas tenho bons motivos (por um lado não quero te induzir ao medo mas alguma coisa à qual não sei dar nome me corrói em desejos de te fazer sentir culpada). Desde que paraste de ventar por estas bandas, tenho reconstruído aqui comigo mil versões daquele diálogo escuro e calado que tivemos dias atrás. Às vezes, por falta de uma verdade concreta para se agarrar, meu raciocínio me leva por caminhos confusos e penso que continuas a me tratar desse teu jeito cru só porque precisas de combustível para seguir, e os obstáculos reais dariam trabalho maior. Sou mais fácil. Sabes ler-me. Manipula. O pior de tudo é essa tua consciência, essa tua acidez, essa tua condição de saber quem és e como se portar. Conseguiste (não sei quais armas, quais conceitos, qual a cor que seguem teus argumentos, que são tão incontestáveis quando estás aqui mas que assim que dás as costas ficam tão leves que se perdem no ar, mas aí já é tarde e o coração já se cansou) mais uma vez me botar sem jeitos e não pude mais nada a não ser te olhar de novo com os olhos do amanhecer. Hoje, minha lucidez se faz presente, mas diga-me: que há na lucidez de amiga, que quando se faz necessária de verdade pula sapeca de um lado para outro, nos deixando tontos, e se esvanece no ar? Aí, estou em condição semelhante à essa em que não cansas de me colocar (não confio na lucidez, mas não posso simplemente mandá-la embora, escurraçá-la de mim, botar-me imune - preciso dela ainda, nem que dia sim, dia não, com intervalos compridos, lapsos que preencherei com essa vida paralela que me bostastes nos olhos, mesmo sem querer fazer parte).


serei breve hoje, e cada vez mais, como alguém que abandona o vício aos poucos, consciente das consequências que a vida lhe reserva. não considero mais meus desejos: não há lugar para eles nesse mundo que descobri não ser tão belo assim. ser frágil, podre, verde - mas ser e continuar sendo até que o tempo tenha ficado pra trás e nós, já sem certezas ou dúvidas, virado sopro.


Daniel."





"Sensatez,


tens de parar com isso, meu bem; precisas controlar-te. por um instante, ao sentir em tuas palavras a presença daquilo que vês em mim, quis chorar. não pude. mas não era isso que queria dizer. sinto se minhas lições de cuidado não se fizeram práticas em meu comportamento por esses dias, juro que acordo e anoiteço pensando em atitudes e julgamentos que crescem como pragas ao meu redor. mas sou difícil, não me convenço por pouco, tampouco sou amiga da fatia racional que me faz parte, somos como primas invejosas uma à outra e não unimos forças jamais, mesmo sob reprovação de toda a família.


estes dias passados, discutíamos sobre como as pessoa costumam ter sempre feição próxima à de algum animal. a linha do nariz é a mais comprometedora. em seguida, vêm os olhos. cheguei à conclusão que serias um urso, se bicho fôsses, e é assim que te sinto a presença, embora a ameaça não costume me botar medo. tento, incansavelmente, em frente ao espelho, transformar-me em bicho, mas ora sou peixe, ora morcego. "tola, enganas-te tanto", me disseram. "nem um nem outro, és raposa".


mas não sei porquê caí em contar-te este episódio, talvez mais uma dessas necessidades puras, quase doentias, de fazer-te conhecedor de mim. acho que o és, inclusive - não que seja grande mérito, que de mim não há o que se conhecer. sou reflexo de desejos e vontades (não os meus, os dos outros em mim), e não sei como é que funcionas assim tão sereno, que não te aborreces, não te cansas de mim, não me rasgas em pedaços e me deixas cair desfeita em partes pela pequena sacadinha que te afasta o céu azul.


na esperança de que não te preocupes, que confinuo defendendo contra todos aqueles que criticam os que não sabem ver um palmo à frente do nariz sem antes lhes perguntar se por acaso, algum dia, o quiseram.


Paula"


25 agosto 2008

tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara


um beijo pro caio e outro pro moço que me mandou um recado de lá de fora da outra janela. só fico com pena do pombo correio, que não viu o vidro e quebrou o bico

21 agosto 2008

sangrava sangrava sangrava e aí se fez o corte, doce era o que queria sentir quando pensou no metal frio e surdo, o metal dos olhos e da face, o metal que não se explica, que ninguém tem. chovia como uma nuvem carregada, daquelas cinzas, e mentia tanto, nada que falava era verdade, mentia como quem respirava, leve e sensato, como se fosse pra isso que vivemos e que oras, farás o que se não mentir, afinal, estás aqui e eu também, tanto tu não queres ouvir minhas verdades como eu não quero ouvir das tuas, portanto guarda, diz mentiras, chove em mim, avermelha, quero ver azul. mais tarde, quando tudo alaranjava, ventava sem sentir, vergonha não passava perto, não conhecia, o que é?, atravessou de um lado a outro devagar, no tempo que traduzo como mil anos, mas quem viu nem percebeu, era impossível associar minutos com horas com dias com anos, nada disso faz sentido quando se tem medo, ela sabia mas não quis contar. piscou forte e fez-se mar, era salgada e tinha pó, não era pura, o sorriso vinha quando vinha a dor, apenas, vais dizer agora que não sabes decifrar, céus, tudo isso me aborrece, dói meus dedos minha cabeça meu pescoço minhas veias saltam mas não são azuis, são roxas, às vezes verdes, eu sei, como aquilo que me dá desejo por ser cor de carne, gosto das cores das entranhas, das luminescências, do que é lânguido e do que é vão, disse, ficou branca. saltaram na face mil manchas nos pés mil abismos nos olhos agulhas perdeu de entender o mundo todo porque tinha ido comprar pão, reclamou meia dúzia de vezes da sequência da vida, quero ser velha, velha, quero ser dessa outra espécie cujos olhos me dizem que não há por quê ser agoniada desse jeito e que anda com dificuldade e que perdeu o nojo de tudo porque virou parte desse humanismo que é nojento e podre e mal cheiroso e que por isso não pode reclamar, e mesmo assim sofre e sofre porque entende tudo do mundo e da vida e porque não pode contar pra ninguém, burros, não conseguem ver, e assim cansada rezou um terço e saiu cheirando lírios, ou seriam margaridas, e continuou contando tudo aquilo que não era real e escondeu de todos que não acreditava naquilo tudo, não, imagine, eu, pra mim é tudo sépia. passou por lá mais uma vez como passava todo dia, mandou um oi de longe, jogou um beijo, pegou no ar, ah, se tu soubesses, eu não seria assim torta manca pensa que parece que dum lado do peito tenho chumbo que é pesado e doído de carregar mas que não quebra, não, também não posso deixar cair, já pensou, suspendo com essa dor-só, e seguiu, convencida, passo fundo no barro fresco, fingiu que não era nada, e quando viu já não estava mais ali, e o som era alto e tudo havia ficado pálido então foi só apertar bem forte bem forte bem forte, onde está o metal, aquele metal, pegou do chão, ventou de leve, os lábios em u, ficaria uma bela foto aqui, espalhou a poeira que era dela e era ela e não se deu ao trabalho de juntar, pensou que tudo isso daria uma boa história mas sentia que ninguém ia querer saber, desejou que alguma coisa horrível acontecesse pra que pudessem sentir pena, se auto puniu, que coisa horrível essa de se dizer, menina, mas fazer o que se é o que eu sinto de verdade, mas ninguém precisa ficar sabendo, é, é melhor não contar que quando cansada sonha que venham bombas tiros balas mortes sangue, se lavava em sangue sem ninguém saber e era quando tudo ficava amarelo que todo mundo sabe é a cor falsa mais verdadeira que se pode ver com esses olhos, que servem pra quase nada, afinal, se fizessem direito seu trabalho, se vissem direito, eu não sentia tanta sede de ver tudo tudo e ainda a sensação que depois de ver tudo vou querer ver mais coisa do que se existe, deixa disso, nem existe tanta coisa assim, no fim, bem no fim, vai tudo servir pra nada, nem metal nem vermelho nem velho nem barro, tudo isso vai dar um nó, silêncio, olha com calma, não abre muito o olho não, esse preto ofusca, é muita luz, fecha aqui comigo agora, ela quis dizer mas a voz não veio, chutou dois galhos pisou em outro e foi embora.


soprou um vento forte no quarto imundo
ninguém entendeu
o quarto não tinha janelas.
o cheiro lento que correu
junto com o arrepio sutil
também não tinha explicação.

demorei a entender o cansaço da vida
ele chegou quando eu já não queria
entender mais nada

no quarto sem janelas
morava uma ironia disfarçada de obediência
tão dissimulada que até machado,
meio zonzo,
confundiu com um gato.

18 agosto 2008

Observação Teórica

Guilherme espreguiça-se tranquilamente. Acabou de acordar. A cama é de casal e Guilherme está nú. O quarto tem uma janela grande, de vidro, coberta por uma cortina clara. Uma das paredes está encoberta por uma estante com livros e perfumes. Outra, por um grande espelho na vertical. Há um pôster na parede chamado "The Love Gun". Quatro peças de roupa no chão, três escuras e uma clara. Guilherme está sozinho. O quarto não é de Guilherme.
Pela janela, uma brisa leve traz as primeiras saudações da primavera.
 

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