11 maio 2009
atrás da porta
e o teu olhar era de adeus
juro que não acreditei e te estranhei
me debrucei sobre o teu corpo
e duvidei
e me arrastei e te arranhei
e me agarrei nos teus cabelos
nos teus pêlos, teu pijama
nos teus pés ao pé da cama
sem carinho, sem coberta
no tapete atrás da porta
dei pra maldizer o nosso lar
pra sujar teu nome, e te humilhar
e me vingar a qualquer preço
te adorando pelo avesso
pra mostrar que ainda sou tua
02 maio 2009
essência
ainda que hoje menos ingênuos, menos cinzentos, mais completos.
eu ainda me sou
marcelo amava maria que sentia vergonha e não falava. maria tinha medo e fugiu. marcelo seguiu silencioso, maria se apaixonou por joaquim. joaquim de apaixonou por maria. joaquim fugiu, maria enfraqueceu, foi ver marcelo, que dizia palavras doces mas tinha rabinho de diabo pobre. maria chorou e foi dar com pedro que sorria bonito mas não achou suficiente. marcelo ia e voltava e dizia as mesmas palavras doces. acabou que marcelo era vesgo, joaquim burro e maria diabética. pedro não tinha defeitos mas tinha um tique de mexer a orelha que dava vontade de morrer.
21 abril 2009
06 abril 2009
desalento
vai e diz
diz assim
que eu chorei, que eu morri
de arrependimento
que o meu desalento já não tem mais fim
vai e diz, diz assim
como sou infeliz no meu descaminho
diz que estou sozinho e sem saber de mim
diz que eu estive por pouco
diz a ela que estou louco pra perdoar
que seja lá como for, por amor, por favor é pra ela voltar
sim
vai e diz
diz assim
que eu rodei, que eu bebi, que eu caí, que eu não sei
que eu só sei que cansei, enfim
dos meus desencontros
corre e diz a ela
que eu entrego os pontos
24 março 2009
só
você escapou, pequenino. foram treze dias sem notícias, sonhei contigo no décimo quarto, se perguntarem não sei dizer quais os caminhos que nos levaram a uma cama barata na região metropolitana no décimo quinto. o curso natural das coisas desaprova, aquele mesmo curso que faz o sol levantar, mas desaprova pra mim apenas, você pareceu confortável e eu não quis interromper e então eu entendi que havia um pouco mais que isso, que ainda havia janeiro e fevereiro e março mesmo que pela metade, e março já está acabando, e com ele o quê.
você escapou, pequenino, mas você vai e volta, e diz coisas como que bom que continuamos juntos mesmo depois de tudo aquela, e eu vejo o sol cor-de-lis e quase sinto cheiro de lavanda e aquela brisa pacífica de viña del mar, mas bem sabemos, quase não é, quase não tem cheiro, quase não tem brisa, e então estar ao seu lado é como uma corda bamba, eu sei que as facadas virão mas nunca sei de onde e por isso não posso defender, e elas vêm, sempre vêm, e você diz se não fosse assim não teria graça, ora, às favas com a graça, a graça que se estrepe, eu não quero graça não. então você diz eu sou assim, me aceita, mas não vê que eu aceito, que já aceitei, que aceitei como nunca havia aceitado e que ainda não entendo como pude aceitar tudo aquilo que condeno desde o princípio, mas que nada é eterno, nem mesmo a aceitação, eu penso tudo isso e fico quieta porque sei que basta uma vírgula colocada no lugar errado pra tudo ir pelos ares, é assim que eu vivo, nesse cuidado louco.
você escapou, pequenino. bem sabe você como corri pelo caminho buscando essas tantas pequenas-chances que encontrei, e tanto eu corri que voltei a gostar mais de mim mesma e, por consequência, pensar racionalmente. seja mais egoísta, você diz como quem quer dizer pense mais em você e não em mim, porque bem sabemos, não adiantará nada. e eu olho e respiro porque não há o que dizer e então você diz que o 'amor' não é o mesmo e eu dôo, mas penso que deveria botar entre nós um espelho, virado pra ti, pra que pudesses olhar nos próprios olhos e ver como tudo parece patético e bobo e como a tua cara condena muito mais do que tu gostarias, às vezes os olhos dizem muito mais que a boca, quem sou eu pra convencer, mas se houvesse o espelho talvez você risse e dissesse tudo bem, tudo bem, mas lerei durante as tardes.
você escapou, pequenino. escrevo desacreditada porque se goethe não seduziu que dirá eu. herança do décimo sétimo fico amortecida, alguma coisa mudou porque há uma calma aqui dentro que eu não condeno mas que torço tanto pra que vá embora logo e volte o furacão de outros tempos. como já disse, desisti de todos os pequenos-jogos que conheço bem porque sei não fazer efeito contigo, pensei talvez melhor ser honesta uma vez na vida, não que tenha dado certo, mas considere a tentativa. o mundo anda girando de um jeito estranho e sob certa luz declarações mais parecem despedidas, adeus têm cheiro de até logo, quem vai saber, é como meu desejo agora de saber se haverão mais vinhos, mais sinucas baratas, se haverão mais risadas embaixo de árvores, pequenas-comidinhas, discussões ideológicas, se haverá alguma das cento e doze oportunidades de que precisamos pra fazer tudo aquilo que foi combinado, uma cachoeira, um jantar longo, um álbum de fotos, ninguém há de saber o futuro, me diriam, e eu responderia dizendo que ninguém há de controlar o que se quer.
você escapou, pequenino, e lembro ainda de tudo aquilo que teu corpo diz sem que você perceba, porque o corpo é o dono do impulso, não se escolhe as palavras, não se reprime uma vontade do corpo, ele é todo menos dócil que a língua, ele fala por si, e ai de você se ouvisse tudo o que ele me diz quando você me beija a testa, acarinha o joelho, procura por baixo da mesa meus dedos pra brincar, enche o pescoço com cinco ou seis pequenos beijos. cairias duro e surpreso se soubesse o que teus olhos vêm gritando toda vez, mesmo de longe. propus no décimo sexto que continue a me dar seu corpo, que entre você e ele, talvez ele goste mais de mim. me poupo sem saber dos pensamentos sobre tal convite, ele existe, tu aceitaste, está aí, e não o nego, é um convite racional, como tudo me parece ser agora, cru mas seco e sem expectativas, como tu querias e eu, humilde, acatei, bem sabendo que encaras tudo como se não se importasse, como se não fizesse diferença, é assim, ótimo, se não fosse, estaria bom também.
você escapou, pequenino. esperei por algo que não sabia o que era e que jamais saberei porque não é feito para chegar, aprendi a entender e agora calmo. nada muda desde o décimo sétimo, anestesiei e sigo assim no esforço de manter tudo do jeito que foi deixado. é certo que há o grito contido e ele haverá de vir, só não agora. é que há tudo a se dizer, mas não há ouvidos, então se fala a esmo, oferecendo a opção. é só que não cabe tudo aqui.
08 março 2009
enluar
03 março 2009
das coisas à toa numa manhã de domingo
.
o que dói hoje é a certeza do meu dramalhão barato; do gosto mórbido que tenho em ver um orgulho ao chão, pisado, arrastado, maltrapilho - mesmo e principalmente se esse orgulho for o meu. que isso não me aumenta e nem diminui, que não sou por isso mais ou menos louca, mais ou menos fraca, mais ou menos forte, desde que haja na história toda um alfinete pelo qual lutar, uma esperança na qual acreditar. que sou romântica até o fim das carnes, e não no sentido amor romântico, mas no sentido das coisas que devem ser bonitas e literárias, como a arte e a poesia, sempre. vivemos naquilo que queremos. e se algum dia isso for possível, não há palavras mais a se dizer.
28 fevereiro 2009
15 dezembro 2008
a história que podia muito bem ser minha mas não é

as usual
comprar um relógio de pulso
revelar pessoalmente minhas fotografias preferidas
entrar na yoga
no pilates
no budismo
na umbanda
checar o orkut uma vez ao dia, no máximo
fazer uma agenda telefônica
arranjar alguma coisa realmente importante pra se preocupar
dizer, em média, dezesseis "foda-se" por semana
botar o coração em regime de engorda
reclamar daquilo que for preciso reclamar
e só
passar a olhar por quem não tem casa
não tem dinheiro
não tem saúde
olhar também por quem não sabe o que é que não tem
assumir o gosto pelas artes visuais
ler todos os garcía márquez restantes
julgar ainda menos
conhecer cinco novas cidades
esquecer o que se precisa esquecer
ser mais cazuza que regina
ser mais nelson que lispector
10 novembro 2008
08 novembro 2008
tenho andado distraído

04 novembro 2008
os olhos de sol fitam rápidos
entorpecendo o peito em poesia
e eu que achava a prudência um dom
deixo-a para os mais bem resolvidos
a mim me basta respirar
03 novembro 2008
ê vinicius
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecidaE
se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua
26 outubro 2008
narciso II
05 outubro 2008
Eis que
agora, todos os domingos, participo em vento e pulso aqui: O Diazepam. A idéia é de escritos diários mantidos por mim, por Manu Salazar, por Mari Cioffi e por Amanda Audi, compondo os íntimos de coração, e pelos brutos Sandoval Poletto, Chico Marés e Fábio Pupo, fazendo as vezes ósseas e avermelhadas. Claro que tal ordem não existe; vamos levando o mundo como o mundo nos leva, olhos abertos e braços dados com o acaso.
.
25 setembro 2008

lembro de uma época, deve fazer uns quatro ou cinco anos. eu já tinha tatuagens. eu costumava visitar uma amiga num apartamento que ficava na esquina da lamenha lins com a visconde de guarapuava. o sobrenome dela é francês. ela queria ser advogada.
acendíamos marlboros vermelhos e abríamos garrafas de vinho ou de vodka e ficávamos assim, penduradas na janela, com nossas saias e nossos grampos de cabelo. discutíamos poesia - todas, as que líamos, as que nunca tínhamos lido, as que nós mesmas nos arriscamos a escrever. falávamos do rock n' roll e de florbela espanca. entendi meus primeiros baudelaires naquelas noites. bebíamos sem saber direito por quê, mas nos completávamos assim. quando achávamos que o apartamento já ficava pequeno em relação ao mundo, saíamos.
uma vez, vimos a rua 24 horas amanhecer. ela passou a noite toda batendo boca com um porco capitalista. eu tomei muitas taças de vinho - era inverno e a rua 24 horas vivia como nós. se não me engano, foi na mesma noite do show cover do led zeppelin ou dos doors. hoje, não é difícil compreender por quê tantas noites em claro me despertaram os olhos para um mundo outro que não este.
feirinhas do largo da ordem, noites em claro com palavras que não controlávamos - às vezes, nem entendíamos. estávamos no mesmo transe que permitia nosso pulsar. numa dessas noites, dei-lhe um beijo.
ontem um recado dela quase passou batido por mim. há tanto tempo que o mundo não é mais claro como aquelas noites - embora as saudades sejam tão compridas quanto. as vidas mudaram e o transe não é mais o mesmo, mas a herança do marlboro adocicado pelo vinho me traz de novo à florbela e a talayer. algum sopro daquelas noites passa ainda por aqui - então eu lembro de um tempo em que a lamenha lins era tão doce quanto ela.
13 setembro 2008
03 setembro 2008
02 setembro 2008
fome, um zunido leve na memória, aquela preguicinha gostosa de acordar sem pressa, prestar atenção no som que vem do outro lado da janela, a luz que vem do outro lado da janela, a estação que vem do outro lado da janela, mas que ainda não entrou. uma ou outra coisa que mexe quando meu sobrinho dá risada ou faz uma descoberta nova lá na sala, porque o mundo já havia acordado um pouco antes, um nervosismo sem remédio quando penso em coração, a ansiedade do fim de semana que amanhã bate aqui, a vontade de enumerar todas todas as vontades pra que nenhuma se perca, porque é isso que fazemos quando não temos nada a fazer, enumeramos vontades e sonhos e ânsias, que são tão nossos, tão nossos, talvez a única coisa que realmente nos pertença e só a nós, e depois abrir espaço pra uma melancolia breve e fina, a melancolia de estar aqui, de ser essa rotina agradável mas viciosa, vira e mexe queremos mudar mas as portas não alcançam. sentir o corpo acordar, esperando mais um dia daqueles que compõe, mesmo sem saber, uma solidez que passa batido mas que está lá. pulsando.
pulsar.
28 agosto 2008
II

25 agosto 2008
21 agosto 2008

ninguém entendeu
o quarto não tinha janelas.
o cheiro lento que correu
junto com o arrepio sutil
também não tinha explicação.
demorei a entender o cansaço da vida
ele chegou quando eu já não queria
entender mais nada
no quarto sem janelas
morava uma ironia disfarçada de obediência
tão dissimulada que até machado,
meio zonzo,
confundiu com um gato.
18 agosto 2008
Observação Teórica
Pela janela, uma brisa leve traz as primeiras saudações da primavera.
16 agosto 2008

- não sei. acho que não tem tamanho. não dá pra medir.
- qual o tamanho da lua?
- a lua é grande. dá pra ver daqui. mas é bem menor que o céu.
- como você sabe?
- eu volto pra casa triste todas as noites, sozinho. quando é dia eu não fico triste. mas à noite eu choro. acho que é porque eu presto mais atenção no caminho. quando eu tô em um lugar movimentado, depois que eu me despeço das pessoas, a noite parece maior.
- maior do que o quê?
- maior do que eu.
- você não é tão grande.
- durante o dia, eu penso que sou.
- qual céu?
a beleza do samba que dói
"Ah, meu amor não vais embora
Vê a vida como chora, vê que triste esta canção
Não, eu te peço, não te ausentes
Pois a dor que agora sentes
só se esquece no perdão
Ah, minha amada me perdoa
Pois embora ainda te doa a tristeza que causei
Eu te suplico não destruas tantas coisas que são tuas
Por um mal que eu já paguei
Ah, minha amada, se soubesses
Da tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
Se tu soubesses num momento todo arrependimento
Como tudo entristeceu
Se tu soubesses como é triste
Perceber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus"
10 agosto 2008

"Correnteza,
fugiram-me as justificativas. por mais que acredites que não, entendes de mim o mesmo tanto que eu mesma - por isso talvez saibas oferecer aos meus causos um veredicto mais justo do que eu própria poderia defender. contei-te, noutra vez, sobre o discurso de uma cigana que lia mãos que visitei certo dia (permita-me recordar, caso não o possas. tal cigana procurou em minhas palmas indícios de um futuro ou de um presente, e deixou claro que sua integridade não a permitiria de contar-me tudo por motivo de proteção. tudo o que me disse, porém, é que minha vida há de ser curta. não soube explicar se tal fato era o motivo ou a consequência desse meu vício incontrolável pelo impulso: não ouço nada a não ser o coração. e não sei dos outros, mas o meu é um menino levado, mimado e sapeca, e nem eu mesma consigo prever. é tão imprevisível que já acostumamos - eu e minha razão - a precaver próximos passos. paradoxal, tu dirias, e eu concordo. mas é assim que as coisas são e por mais que tentemos, para o desespero da humanidade, não é sobre tudo que podemos impor o controle. e penso que assim continue, querido, ou não haveria mais graça em se viver).
peço, portanto e humildemente, perdão às confusões que trago à superfície, e prometo dedicar-me em pensamentos à estratégias de cuidado maior daqui pra frente. mas me sinto também no dever de reforçar que minha promessa circunda às tentativas e não aos resultados: sou, acima de tudo, humana, e não tenho em pretensão comportar-me diferente. não tive outra escolha a não ser assumir minha natureza escorregadia e não tenho certeza sobre os rumos aos quais isso me levará; talvez seja uma sina essa cousa de não pertencer a ninguém. não se engane, coração: nunca foi meu desejo seguir assim um caminho sem direção. quando menos entendida sobre como as coisas passavam no paralelo do meu peito, sonhava em assumir um sobrenome, um protetor, conformar-me com a felicidade constante e acomodada. me vejo porém cada vez mais distante desse sonho, mas não me meto em encrencas comigo mesma: aceito apenas, convicta de que assim é que se deve ser.
09 agosto 2008
estive por aí

07 agosto 2008
não dá tempo pra mais nada a não ser falar da agenda
8h30 jornalismo opinativo na floresta
10h pegar cem quilos de xerox pra ler com pipoca no fim de semana
10h10 matar aula ruim de comunicação, sociedade e cultura pra fazer a rescisão da carteira de trabalho que tá atrasada há dois meses
11h fazer as unhas porque eu também sou filha de deus
12h comida é vida, minha gente
12h30 fazer cópia de documentos sigilosos para uma reportagem
(mwahaha)
13h trabalhar
17h passar no politécnico e nas mercês, pegar a Rê e tomar um café
19h reunião de pauta, sofrer
21h festinha alcoólica de comunicação
21h01 xingar os bafômetros da cidade e a Lei Seca
23h30 sair sóbria da festinha pra ir pra outro lugar e continuar sóbria porque se dirigir, não beba. amar isadora e renata durante a noite
25 julho 2008
em 1984, no circo voador, alguém diz
benzinho, eu ando pirado. rodando de bar em bar, jogando conversa fora, só pra te ver
passando, gingando, me encarando, me enchendo de esperança. me maltratando a visão
girando de mesa em mesa
sorrindo prá qualquer um
(filha da puta)
fazendo cara de fácil,
jogando duro com o coração
24 julho 2008

, que foi onde comecei, pouco a pouco, minha coleção de dias, transformados em palitinhos, finos como eu, mas assim também como eu, pontiagudos e afiados. por vezes, meu palitos cronológicos furavam até meus pensamentos, mas essa época passou, não volta mais, então eu respiro, pego outra parede, ponho-me a desenhar mais palitinhos (trapaceio, às vezes: desenho mais de um palitinho num mesmo dia, que é pra fazer o tempo correr mais depressa).
, aquela mesma, que vem sempre aí. pobrezinha, nem desconfia que depois do quarto é só pó, um travesseiro que quase contra a vontade guarda o cheiro azedo de um perfume sem nome, uma escova de cabelo de metal azul e um tapete. se fizer silêncio, escuto seus gritos. mesmo intensos, são leves, e a imagino assim, de maçãs rosadas e pés descalços, e finjo sentir o mesmo que ela sente, esse sentir que vem lento, e forte, e quando dou por mim estou deitada e pobre e a cabeça dói, e tento me recompor, olho em volta, ninguém viu, mas a vergonha não é dos outros, é de mim mesma, a única pessoa pra quem eu devo alguma coisa
, a não ser ele, que me dá de comer e de beber, é uma boa pessoa. quando fico triste porque penso que vou sangrar tudo que tem em mim, ele aparece, me manda perceber o quão sortuda sou por ter ele ali, comigo, pra me dar um teto e o que vestir; então agradeço, jogo-me aos seus pés e beijo com força de gente que é louca todas as partes do corpo que ele tem, e é quase sempre quando ele também põe-se louco à minha frente, mas como sou gorda e baixa, e ruiva, meu grito não é leve, é um grito grave, pesado, e acho que não gosta muito, porque logo sai, e torno a desenhar palitinhos na parede e enrolar os fiapos do tapete, até que o sol volte pela fresta da quina, a quina que é fria e dura, mas que é minha, minha como algum dia nessa vida ele vai ser meu, vai ser, sim
23 julho 2008
aliás

nunca estive tão cazuza
16 julho 2008
apelo de um saco que já encheu

e que sejam amaldiçoados todos aqueles que, como eu, têm nas veias sangue vermelho e nos olhos o impulso de viver. que definhem todos os que têm fome, que morrem de vontade, os que secam de desejo, os que ardem. porque as veias fracas e os olhos pálidos daqueles que não vivem não suportam a visão da vontade; aprisionam-se entre bons costumes e descontam nas línguas as vontades do corpo que a mente não obedece. e amaldiçoado também seja aquele que disse que inútil dormir que a dor não passa; aquele que insistiu que a vida é feita de se agir duas vezes antes de se evocar o pensamento. aos outros, só peço que vão é esperar a vida passar na frente dos olhos, criaturas burras: assim, poderão falar dela também, ocupando muito mais a língua do que o coração atrofiado. se meu instinto não é bem visto aqui, devo mesmo é me aquietar e ir viver na luxúria e na agonia calma e quieta das mulheres de chico, de adriana e de vinicius, aqueles malditos promíscuos, indignos dos bons costumes de se viver junto aos 'normais'.


