28 maio 2009

A menina na janela





Acordo cedo. Tenho meus afazeres: o café, o trabalho, as planilhas, o futebol com os amigos, as coisas da casa. Pra rua, vou às sete, e de lá não costumo ter hora pra sair. A rua é só a rua. O apartamento é claustrofóbico: quando chega dezoito sinto seus espasmos, como uma pequena e inofensiva agonia diária por sentir-se tão urbano. Fiz meu o décimo segundo andar (o 'meu' é sentido figurado; devem haver mais cinco ou seis outros e passo por todos no corredor, mas vivemos em ignorância mútua, eu e meus vizinhos. Penso se haverá cumplicidade maior que esta).

Do lado de dentro sou eu, a tevê e filmes que coleciono só para os momentos ociosos. Fiz de tudo bem equipado, nos moldes para se viver confortável. Nada me falta - a não ser todas aquelas coisas que ainda não comprei.

Dois dias por semana, chego cedo. Costumava arrumar sempre outras pequenas ocupações, pra ter (também sempre) de chegar em casa apenas para dormir. Que mais fazer, afinal? Aconteceu que dia desses, algumas semanas atrás, choveu uma chuva triste e pesada e da rua fui-me, encontrar o apartamento. Pra que não me molhasse todos os móveis (venta muito no décimo segundo), teria de fechar a janela. Foi o que fiz. Era o horário da angústia e o apartamento parecia esperar da chuva uma solução pra todo aquele sufoco.
Eu não era o único a perceber.

O prédio é de rua, mas as janelas do apartamento são para os fundos, fazendo da vista nada muito encantador. Conto outros sete prédios, cujas janelas posso acompanhar quase de perto - a sensação é de toque ao alcance das mãos. Assustadora impressão de tantas vidas encaixotadas, tão urbanas, tão banais.

Àquela chuva aproveitavam de maneiras não tão diferentes: vi alguém que lavava a louça, alguém que assistia a novela, alguém que punha as crianças pra dormir, mesmo embora ainda fossem dezenove. Havia também alguém de janelas fechadas mas luzes acesas, alguém de janelas abertas, alguém correndo para fechá-las antes que tudo submergisse. Um andar acima, alguém acendia a luz. A menina, que devia ter a idade das horas - quem sabe um pouco mais - fez o contrário do dominó: abria uma fresta dos vidros e parecia sentar. Acendeu um cigarro. Olhava o letreiro que dizia a temperatura.

Aquela luz era de cor mais escura, talvez uma lâmpada fraca. A menina alternava levar o cigarro à boca e apoiar a cabeça em uma das mãos, os dois braços seguros pelo parapeito. Não parecia se importar com o frio. O vento, que agredia só à mim, não parecia ser incômodo. A menina de alcinhas destoava dos cachecóis e casacos e cobertas que estampavam os demais espetáculos. Mas não fomos além, eu e ela: o cigarro queimou-se todo; a menina sumiu para dentro. O prédio dela não tinha espasmos.

Não sei se é esse o ritual de todo-dia. Era o dia depois quando por outro motivo cheguei cedo em casa. O céu não era escuro como no primeiro encontro. A menina estava lá. Havia um cigarro e a menina falava. Quis fechar a janela, mas não pude. A menina continuava a falar e eu quase ouvia - se as dezoito não fossem assim tão barulhentas, se esse monte de concreto não trincasse tanto. Não havia mais ninguém, também não havia um telefone. A menina falava para um pequeno aparelho, e imaginei e tomei como verdade que devia ser um gravador. Falava as deixas de uma peça de teatro, como que pra decorar. Falava coisas que não poderia esquecer no dia seguinte, ou nunca mais. Falava idéias para um trabalho futuro. Ou falava ainda outra coisa qualquer, mas o que quer que fosse que dizia, não deixaria a cena menos sedutora.
Outra vez o cigarro acabou e a menina sumiu.

Pensei se teria saído de casa, pensei se estaria sozinha, se seria sozinha, se desejava falar para qualquer coisa que ouvisse. Podia deduzir o apartamento; sabia o andar, o prédio, a porta. Não arrisquei.

Era pontual, a menina na janela. Passei a pensar que fumava apenas um cigarro por dia, só naquela janela. Só para mim. As dezenove passaram então a comportar um compromisso inadiável e inalcansável, mas nenhum dos adjetivos me desanimava. Os encontros eram sadios. O tempo de um cigarro. Embora possa parecer, a menina não seguia lógica alguma: por vezes, um cigarro e um livro, que era mais útil como apoio de mãos que como literatura; o cigarro e uma xícara que, pra mim, poderia conter tanto café quanto conhaque; o cigarro e aquele mudo ouvinte, o mais seguro e compreensivo divã que já pude perceber. Se fazia calor, poderia haver luvas. No frio, eu não estranharia a camisola. A menina na janela combinava o ameno e a surpresa.

Numa dessas noites pensei que me percebia. O olhar desviou do painel para o meu prédio. O centro nunca foi tão silencioso ou foram meus espasmos que entraram em sintonia com aqueles do edifício inteiro, porque nada se moveu por sete ou oito segundos. A menina rastreou com o olhar cada uma das janelas dos sete prédios que também via. Poderia estar buscando compreensão ou cumplicidade ou poderia apenas querer descansar. Naquele dia não haviam livros ou xícaras. O cigarro fazia par com um telefone. Naquele dia o cigarro me falou mais do que ela.

Nada mudou em meus afazeres, a companhia ainda é a tevê ou eventualmente uma ou outra moça, ignorantes da existência das vidas além da minha janela, ignorantes principalmente da vida da menina. Quando posso, tento estar ali para o espetáculo, e me dói saber que ele acontece quer eu esteja lá ou não. Meu intervalo só existe por causa dela, mas o dela é todo indiferente a mim.
A menina na janela não precisa de platéia. Não me parece tola; são grandes chances de que tenha me notado, e me põe curioso imaginar se suas atitudes são as mesmas quando não estou para assistir. Ah, devaneio, teu nome é pretensão.

A menina combina palco e escuridão.

Imagino o que faz quando some. O que vê quando olha o espelho, o que come, o que há na xícara, se o aparelho na mão não é mais que a espera. Nenhuma das respostas me atrai, nenhuma das respostas faria de algo outra coisa diferente. Assim como ela, não preciso mais do que o tempo daquele cigarro, desde que ele não falte. Desde que todos os dias. Desde que sempre às dezenove. Desde que sempre só para mim.

O prédio da menina não tinha espasmos.







20 maio 2009

se censurava por não enxergar pecado na defesa da felicidade

disse que havia um livre arbítrio impedindo seus desejos e que por isso precisou partir. algumas horas antes cecília sentava em um meio fio de gelo e tirava da bolsa um livro de george lukács, qualquer coisa sobre a estética. por quinze minutos leu compenetrada, mas teve que parar pra ver se a temperatura do yakult já havia molhado o papel de presente vermelho do pequeno pacotinho que guardava nas mãos. era difícil voltar a ler quando passavam tantos carros, tantas pessoas, todos olhando pra ela, o que é que essa menina faz sentada aí no frio a uma hora dessas, ela não tem medo, não, ah, os dias de hoje andam tão violentos. pensou que todo mundo entenderia caso viessem perguntar. por meia hora lembrou de todos os passos anteriores (havia uma carta curta, coisa pouca a se dizer, consistia em uma lista das coisas que faziam dela a menina mais legal do mundo, ou qualquer coisa. a carta foi antes da tirinha de mafalda deixada à vista, da referência a um filme do almodóvar e dos pequenos trechos de clarice e de meirelles soltos a esmo. disse que clarice porque é a medida intensa de todas as coisas e que meirelles porque é sua xará, de nome e de alma) mas o frio escondeu da memória as quase duzentas palavras coloridas (havia também passado dois dias inteiros escrevendo em papel colorido todas as palavras doces das quais podia se lembrar; tranquila, ia de coragem a tardes de sol, de viagens a pequenas surpresas, do medo ao sorvete de domingo, cortou tudo em pequenos quadradinhos e juntou em um barbante fino, cor por cor, pra que aquele tanto de coisas boas ficasse mais colorido que pesado, que era como estava seu coração. amarrou no retrovisor do carro e não pediu resposta) e o recado da última noite que era algo de desespero e aflição porque havia chegado perto o cheiro do fracasso, do pecado sem sentido, do limite que passou.

quando entrou na segunda hora já precisava cantar pra amortecer o frio e esfregava as mãos bem juntinhas, uma à outra, na tentativa de fazer parar o corpo que tremia em desafino com a vontade. tentou enganar o porteiro do prédio, que a cada quinze minutos aparecia do lado de fora, como que pra vigiar se ela continuava ali, à espera, e porque é que não esperava no saguão de entrada, então, já que está tão frio. e cada vez que ele aparecia ela se inclinava para trás de um dos carros estacionados - se fosse vista alguém poderia se zangar. brincaram de gato e rato por mais algum tempo até que o porteiro pareceu entender que a guerra já estava vencida e voltou pra dentro, conformado, não queria ele pegar também uma gripe, já tinha bastante com que se preocupar. ensaiou dois ou três diálogos, embora soubesse muito bem que as palavras sempre acham lugar seguro pra se esconder quando são procuradas, foi buscar no fundo da memória duas ou três daquelas lembranças que trazem calafrios e cantou uma ou duas músicas mais, que foi quando o relógio denunciou as duas horas e meia de espera e que o frio passou de repente porque também de repente veio do outro lado os faróis que o coração reconhecia, mas que, desavisados, passaram por cecília e cecília sentiu como se fizesse parte da noite e da escuridão.
disse que por favor, rapunzel, aparecesse na janela, e de repente oito minutos passavam escorrendo como cera de vela fria, muito mais lentos e danosos do que os outros tantos minutos, recém completados, mas pertencentes agora a um passado esquecido, amortecido, medíocre de si. resignada e mais fria que o sereno, seguiu até o porteiro (que era ao mesmo tempo cúmplice e inquisidor) e disse sem rodeios e de uma só vez que havia esperado todo esse tempo lá fora no frio mas que ele havia passado sem que a visse. pode entregar esse pacote, por favor? o porteiro não pôde evitar a pena que sentia da menina e que lhe transbordava aos olhos, mas cecília não sorriu quando ele disse que da próxima vez ela poderia esperar do lado de dentro. cecília quis dizer que a próxima vez seria da noite, do sereno, dos dentes que batiam, das pontas roxas dos dedos da mão que mal folheavam o livro, mas disse apenas que gostaria que fosse entregue ainda hoje, afinal precisa ser conservado em geladeira. mandou ainda um outro recado, talvez dois mais, que mais que claro não mereciam respostas (a relatividade que vá a merda, pensou antes de dar as costas). e respostas não mereceram até que a noite, amiga, esfriasse ainda mais.

11 maio 2009

atrás da porta

quando olhaste bem nos olhos meus
e o teu olhar era de adeus
juro que não acreditei e te estranhei
me debrucei sobre o teu corpo
e duvidei
e me arrastei e te arranhei
e me agarrei nos teus cabelos
nos teus pêlos, teu pijama
nos teus pés ao pé da cama
sem carinho, sem coberta
no tapete atrás da porta
dei pra maldizer o nosso lar
pra sujar teu nome, e te humilhar
e me vingar a qualquer preço
te adorando pelo avesso
pra mostrar que ainda sou tua

02 maio 2009

as pessoas correndo no parque, dá pra ver da janela escancarada. é o sábado acontecendo, o sábado que precede o domingo, o domingo que precede a segunda e os dias de todos os dias, o trabalho sujo mas digno de todos os dias. o mundo acorda, vê o noticiário da manhã, existe uma epidemia perigosa de uma gripe recém desenvolvida, o mundo sente medo e usa máscaras de proteção mas ainda assim é preciso fazer o café, checar os e-mails, olhar o relógio, trancar a porta e sair. lá fora o mundo segue, a rotação é a mesma, embora mais rápida; pessoas continuam correndo no parque, pessoas indo à panificadora, pessoas apressadas para o trabalho, os ônibus de linha, o sinal fechado, os buracos na camada de ozônio, o direito de reclamar que existe mas que não é de ninguém. todas aquelas vidas acumuladas e sobrepostas em um prédio de vinte andares de paredes tão finas que escuta-se um suspiro mais alto, mas grossas o suficiente pra que as batidas do coração não sejam aptas a transpassar. e há o tempo de trabalhar, o tempo dos afazeres, das obrigações, a fila dos bancos, o correio; há os vinte minutos de almoço, os quais parecem passar tão mais rápido que o resto da vida inteira, e logo estão lá, novamente, atrás das mesas, ocupando a cabeça com ofícios sem poesia, o tédio disfarçado, o desespero contido a cada nova pilha de papéis, não há tempo de reclamar, não há o direito de reclamar, e logo já são 18h e com o trânsito, o escape para a raiva que ainda existe mas que ninguém sabe o que é, e com a porta vem a pintura necessária, que nunca vi tanto cupim, meu deus, e fazer a comida, e ver na tevê novidades da gripe, da crise, da vida triste mas feliz das celebridades, checar se os filhos estão inteiros, se seus pequenos corpos sobreviveram a mais um dia de aquecimento global, botar as coisas em ordem, organizar a gaveta de contas, e quando o pensamento encontra no travesseiro o reduto fiel e seguro para se levar a vida a sério e pensar sobre o amor e as vontades e a paz procurada e o a realização e o pulsar, o diabinho do lado esquerdo sussurra: amanhã levantar às 6h, é preciso deixar o carro na mecânica, pagar o consórcio, comprar uma extensão para o microondas, e a lista interminável traz a fadiga também do pensamento, enfraquecido de tentar todos os dias por um feixe de tempo de se fazer ver, e todos dormem, escurecidos, escangalhados, medíocres de tudo, mas ainda acima de tudo, inocentes.

essência

pensei ter perdido a minha em algum lugar da américa e então me achei aqui, nos arquivos desse lugar, em pensamentos de anos atrás.
ainda que hoje menos ingênuos, menos cinzentos, mais completos.

eu ainda me sou

d às avessas

marcelo amava maria que sentia vergonha e não falava. maria tinha medo e fugiu. marcelo seguiu silencioso, maria se apaixonou por joaquim. joaquim de apaixonou por maria. joaquim fugiu, maria enfraqueceu, foi ver marcelo, que dizia palavras doces mas tinha rabinho de diabo pobre. maria chorou e foi dar com pedro que sorria bonito mas não achou suficiente. marcelo ia e voltava e dizia as mesmas palavras doces. acabou que marcelo era vesgo, joaquim burro e maria diabética. pedro não tinha defeitos mas tinha um tique de mexer a orelha que dava vontade de morrer.

21 abril 2009

ah, a vida


ah, o furacão de outros tempos

06 abril 2009

"o que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento."

de Instante, Drummond.

desalento

sim
vai e diz
diz assim
que eu chorei, que eu morri
de arrependimento
que o meu desalento já não tem mais fim

vai e diz, diz assim
como sou infeliz no meu descaminho
diz que estou sozinho e sem saber de mim
diz que eu estive por pouco
diz a ela que estou louco pra perdoar
que seja lá como for, por amor, por favor é pra ela voltar

sim
vai e diz
diz assim
que eu rodei, que eu bebi, que eu caí, que eu não sei
que eu só sei que cansei, enfim
dos meus desencontros
corre e diz a ela
que eu entrego os pontos

24 março 2009

você escapou, pequenino. quando acordei o sol já estava lá fora, é essa mania da vida de esfregar na nossa cara que o mundo não parou só porque é assim que nós sentimos, e não só ele não pára como cotinua a esperar de nós todas aquelas coisas que devemos ao conceito de civilização, os dentes bem escovados, a cama feita, a vestimenta apropriada, o dia nosso de cada dia que está lá sob sol ou chuva. hoje faz sol, mas um sol fraco e tímido, que teve de subir por uma convenção física, mas que entende muito bem que não é bem-vindo.

você escapou, pequenino. foram treze dias sem notícias, sonhei contigo no décimo quarto, se perguntarem não sei dizer quais os caminhos que nos levaram a uma cama barata na região metropolitana no décimo quinto. o curso natural das coisas desaprova, aquele mesmo curso que faz o sol levantar, mas desaprova pra mim apenas, você pareceu confortável e eu não quis interromper e então eu entendi que havia um pouco mais que isso, que ainda havia janeiro e fevereiro e março mesmo que pela metade, e março já está acabando, e com ele o quê.

você escapou, pequenino, mas você vai e volta, e diz coisas como que bom que continuamos juntos mesmo depois de tudo aquela, e eu vejo o sol cor-de-lis e quase sinto cheiro de lavanda e aquela brisa pacífica de viña del mar, mas bem sabemos, quase não é, quase não tem cheiro, quase não tem brisa, e então estar ao seu lado é como uma corda bamba, eu sei que as facadas virão mas nunca sei de onde e por isso não posso defender, e elas vêm, sempre vêm, e você diz se não fosse assim não teria graça, ora, às favas com a graça, a graça que se estrepe, eu não quero graça não. então você diz eu sou assim, me aceita, mas não vê que eu aceito, que já aceitei, que aceitei como nunca havia aceitado e que ainda não entendo como pude aceitar tudo aquilo que condeno desde o princípio, mas que nada é eterno, nem mesmo a aceitação, eu penso tudo isso e fico quieta porque sei que basta uma vírgula colocada no lugar errado pra tudo ir pelos ares, é assim que eu vivo, nesse cuidado louco.

você escapou, pequenino. bem sabe você como corri pelo caminho buscando essas tantas pequenas-chances que encontrei, e tanto eu corri que voltei a gostar mais de mim mesma e, por consequência, pensar racionalmente. seja mais egoísta, você diz como quem quer dizer pense mais em você e não em mim, porque bem sabemos, não adiantará nada. e eu olho e respiro porque não há o que dizer e então você diz que o 'amor' não é o mesmo e eu dôo, mas penso que deveria botar entre nós um espelho, virado pra ti, pra que pudesses olhar nos próprios olhos e ver como tudo parece patético e bobo e como a tua cara condena muito mais do que tu gostarias, às vezes os olhos dizem muito mais que a boca, quem sou eu pra convencer, mas se houvesse o espelho talvez você risse e dissesse tudo bem, tudo bem, mas lerei durante as tardes.

você escapou, pequenino. escrevo desacreditada porque se goethe não seduziu que dirá eu. herança do décimo sétimo fico amortecida, alguma coisa mudou porque há uma calma aqui dentro que eu não condeno mas que torço tanto pra que vá embora logo e volte o furacão de outros tempos. como já disse, desisti de todos os pequenos-jogos que conheço bem porque sei não fazer efeito contigo, pensei talvez melhor ser honesta uma vez na vida, não que tenha dado certo, mas considere a tentativa. o mundo anda girando de um jeito estranho e sob certa luz declarações mais parecem despedidas, adeus têm cheiro de até logo, quem vai saber, é como meu desejo agora de saber se haverão mais vinhos, mais sinucas baratas, se haverão mais risadas embaixo de árvores, pequenas-comidinhas, discussões ideológicas, se haverá alguma das cento e doze oportunidades de que precisamos pra fazer tudo aquilo que foi combinado, uma cachoeira, um jantar longo, um álbum de fotos, ninguém há de saber o futuro, me diriam, e eu responderia dizendo que ninguém há de controlar o que se quer.

você escapou, pequenino, e lembro ainda de tudo aquilo que teu corpo diz sem que você perceba, porque o corpo é o dono do impulso, não se escolhe as palavras, não se reprime uma vontade do corpo, ele é todo menos dócil que a língua, ele fala por si, e ai de você se ouvisse tudo o que ele me diz quando você me beija a testa, acarinha o joelho, procura por baixo da mesa meus dedos pra brincar, enche o pescoço com cinco ou seis pequenos beijos. cairias duro e surpreso se soubesse o que teus olhos vêm gritando toda vez, mesmo de longe. propus no décimo sexto que continue a me dar seu corpo, que entre você e ele, talvez ele goste mais de mim. me poupo sem saber dos pensamentos sobre tal convite, ele existe, tu aceitaste, está aí, e não o nego, é um convite racional, como tudo me parece ser agora, cru mas seco e sem expectativas, como tu querias e eu, humilde, acatei, bem sabendo que encaras tudo como se não se importasse, como se não fizesse diferença, é assim, ótimo, se não fosse, estaria bom também.

você escapou, pequenino. esperei por algo que não sabia o que era e que jamais saberei porque não é feito para chegar, aprendi a entender e agora calmo. nada muda desde o décimo sétimo, anestesiei e sigo assim no esforço de manter tudo do jeito que foi deixado. é certo que há o grito contido e ele haverá de vir, só não agora. é que há tudo a se dizer, mas não há ouvidos, então se fala a esmo, oferecendo a opção. é só que não cabe tudo aqui.

08 março 2009

enluar

quando a vodka já não é suficiente, o céu escuro obriga a pensar. uma dose seca, quente, ácida, seria mais funcional - mas se há agum momento em que a mente decide no que é que há de se pensar, esse momento é aquele dos pequenos pontos de luz, do vento frio, de quando boa parte da gente que é normal é recolhida à cama, adormecida, confortada depois de uns dias que têm durado tantas horas, e só quem sobra é aquela outra gente, que vive da noite, que vive aos pedaços, aquela gente da insônia, das luzes baixas, do vinho e do jazz, ou do cinzeiro-sambinha-e-cerveja, apenas.
quando a vodka já não é suficiente, é preciso aquele pensar que vai por onde quer: é certo, quase sempre caminhos já conhecidos, mas com um pouco de sorte se apega a algum atalho ou trilha bruta e de repente o todo se dispersa onde é possível dispersar. dali, de um dos poucos lugares onde o previsível é errôneo e as cores têm cheiro de pólvora, dali bem sabe que ninguém escapa imune, não é tempo de chão, não há virgens eternos.
e quando o tempo é esse, tempo de ventar apenas, tempo não de vodka, mas de lua, não se adianta escrever, que nada prestará, nada fará sentido algum. obrigatório apenas apertar os olhos, procurar um foco - mas não sem antes soprar as nuvens do céu inteiro.

03 março 2009

das coisas à toa numa manhã de domingo

.
bem se sabe que sou péssima em explicar razões. nunca reclamei tal direito, portanto. pensava apenas que as vontades justificavam atitudes, e que vontades dignas são responsáveis por atitudes justificadas (ou justificáveis). vez ou outra, quando é preciso pensar sobre coisas que faço ou digo, enfio os pés pelas mãos, sem muitas desculpas. também isso seria justificado.
.
defendo também tudo aquilo que dói, tudo aquilo que come por dentro, que ferve, tudo aquilo que obriga a algo novo, inédito, melhor. defendo adriana que canta que gosta de quem tem fome, de quem morre de vontade, de quem seca de desejo, de quem arde. defendo garcía márquez, que diz que só se vale a pena falar do amor. defendo nelson rodrigues, que mata seus personagens em noites desertas, no meio da rua, por causa de um beijo. defendo cazuza, cartola, kundera, drummond.
.
gosto em você da parte que não faz de mim o que eu não sou. gosto da parte que não me diz como sou bonita, como todos os outros me querem, como sou quando escrevo, quando falo, como sou mais velha de espírito, como não pareço as meninas bobas de vinte anos. gosto em você da parte que não se apaixonou, embora isso também dilacere por dentro. gosto porque não me é comum, porque o comum é sempre oposto.
.
gosto em você de beijinhos no pescoço e de conversas despretensiosas, misturando o que é possível de se misturar entre amizade e desejo. gosto em você da vontade que tenho de te mostrar tudo que conheço, tudo que já vi, tudo que talvez haja a chance de você gostar também. gosto em você do que me faz pensar, do que não me é comum, gosto em você da pessoa que eu nunca vi, de mostrar como é a humanidade em palavras que não têm outra função a não ser serem belas. gosto em você das lembranças que carrega na barba, no cabelo, na bermuda, no violão. gosto em você da sinceridade jogada na cara como uma navalha afiada em pedra. que rasga. gosto em você do novo que nasce em mim, da calmaria, do estar tranquilo em se estar junto. e se não se pôde ser assim em todo, assim foi ao menos do lado de cá.
.
o que dói hoje é o que não doía antes, é o querer mostrar e não poder, o querer estar e não poder. é um doer novo, que eu nunca reneguei (porque não há de se renegar o doer), e aceito de bom grado, embora pense que a calmaria ainda valesse um pouco mais, porque todo mundo sabe, é melhor ser alegre que ser triste. o que dói hoje são os planos esquecidos, as fotos não reveladas, aquilo tudo que era pra ser feito e não foi. o fim que é triste por ser fim, mesmo o fim que esquece em cada um aquele pouquinho de esperança. que se houvessem certezas, o coração prometeria mundos, prometeria uma vez a cada quinze dias, prometeria dias sem cobranças, sem desesperos, apenas a felicidade de poder se estar junto quando se dá vontade, e apenas isso, e o coração os prometeria, sem problemas, sem dores, apenas a disposição. mas não há certeza alguma, nunca, e nem poderia haver: a importância de um amigo não é a mesma importância de alguém que se queira ver bem mesmo contra si próprio, não é a mesma importância de quem se quer beijar na boca, levar à cama, apanhar flores no caminho, dizer palavras tolas às estrelas, dizer finalmente as palavras que são proibidas.

.
o que dói hoje é a certeza do meu dramalhão barato; do gosto mórbido que tenho em ver um orgulho ao chão, pisado, arrastado, maltrapilho - mesmo e principalmente se esse orgulho for o meu. que isso não me aumenta e nem diminui, que não sou por isso mais ou menos louca, mais ou menos fraca, mais ou menos forte, desde que haja na história toda um alfinete pelo qual lutar, uma esperança na qual acreditar. que sou romântica até o fim das carnes, e não no sentido amor romântico, mas no sentido das coisas que devem ser bonitas e literárias, como a arte e a poesia, sempre. vivemos naquilo que queremos. e se algum dia isso for possível, não há palavras mais a se dizer.


28 fevereiro 2009

há tanto a dizer.

15 dezembro 2008

a história que podia muito bem ser minha mas não é



Manaíra tinha o coração do tamanho de um alfinete. Manaíra era grande, forte, bonita, não daquele jeito tradicional de ser bonita, mas carregava nos olhos um charme sem fim. Manaíra não tinha muitos afazeres: lia um pouco menos do que gostaria de dizer, andava até a mercearia, todos os dias, para comprar pão e esticar os olhos pra um pouquinho além das janelas, contava uma vez por dia uma história que era mentira, mas que não machucaria ninguém. Manaíra tinha o coração bom. Mas ele era do tamanho de um alfinete.

Manaíra tinha problemas para dormir. Todas as noites, virava de um lado a outro mais de setenta vezes, algumas com força, e bruscamente, como se pra espantar alguma coisa que a estivesse entrando pelos cabelos. Manaíra recebia visitas todas as noites antes de dormir: eram todas as pessoas que haviam tentado - ou poderiam ter tentado - entrar em seu coração, mas não couberam por algum motivo. Manaíra pensou que algumas deviam ter os pés muito grandes, ou as cabeças, ou os egos, quem sabe - mas não faria diferença de qualquer forma, ela pensou, porque não caberiam, de qualquer jeito. Manaíra sofria de insônia quando procurava alguma maneira de fazer crescer seu coração compactado: nunca encontrou.

Manaíra lembra com carinho das vezes que, por alguma coincidência, ou simples sorte, conseguiu que sua pequenina sala de estar recebesse alguém por inteiro. Em todo o tempo, não seriam mais de quatro vezes, e ela entristecia, mas pensava que poderia ser pior e virava-se na cama novamente. Certa vez, entrou em seu coração alguém que ela jamais esperaria. Pensou que ironia!, tantas vezes querendo tanto que as pessoas me coubessem, e então assim, sem nem querer, elas me cabem, e ficou sem saber bem o que pensar e o que sentir, era ainda tão tão novo pra que ela pudesse sentir alguma coisa. Manaíra passou alguns dias com o coração-de-alfinete apertadinho, ocupado em todos os cantos, tendo de abrir a janela pra que seu hóspede pudesse respirar. Manaíra não queria sufocá-lo, mas era tudo tão pequeno naquela salinha de estar que, tendo o hóspede entrado, tiveram de sair os móveis, as flores, as almofadas, e Manaíra olhava de longe, porque afinal quem é que mexe a fundo no seu próprio coração? Foi quando o hóspede de Manaíra sufocou, não podia nem ao menos movimentar pela sala. Ficou triste, definhou, e de definhado que estava, escapou pela porta, em uma pequena agonia daquelas que coçam a garganta daquele jeito ruim de se coçar.

Manaíra assistiu à partida inquieta mas imóvel, deitada na cama, em um daqueles instantes adocicados, antes de cair no sono. Manaíra já estava meio inconsciente, mas lembra-se de ter pensado: ah, que pena esse coração tão pequenino.

Manaíra amanheceu com a sala de estar em ordem, à espera de alguém que a venha visitar.

as usual

Resoluções de novo-ano

comprar um relógio de pulso
revelar pessoalmente minhas fotografias preferidas
entrar na yoga
no pilates
no budismo
na umbanda
checar o orkut uma vez ao dia, no máximo
fazer uma agenda telefônica
arranjar alguma coisa realmente importante pra se preocupar
dizer, em média, dezesseis "foda-se" por semana
botar o coração em regime de engorda
reclamar daquilo que for preciso reclamar
e só
passar a olhar por quem não tem casa
não tem dinheiro
não tem saúde
olhar também por quem não sabe o que é que não tem
assumir o gosto pelas artes visuais
ler todos os garcía márquez restantes
julgar ainda menos
conhecer cinco novas cidades
esquecer o que se precisa esquecer
ser mais cazuza que regina
ser mais nelson que lispector

10 novembro 2008

te disse que entrava um frio-de-sol pela janela, mas não quis me vestir. o frio não tinha nome nem corpo mas sabia fazer os braços arrepiarem, assim, fazia tanto tempo que. do que é que a gente precisa pra se sentir vivo? ele perguntou, mas eu fiquei quietinha, como se soubesse a resposta mas não quisesse contar. no fundo, eu mal prestava atenção. é que o sol fazia um desenho engraçado nos cabelos dele, e eu olhei e achei parecido com um filme que vi fazia um tempo. era uma menina que tinha ficado pálida de tanta angústia que ela guardava, aí ela resolveu sair e conhecer o mundo. engraçado como as melhores decisões são tomadas nas horas de maior desespero. ele me perguntou baixinho o que eu ia querer comer, já fazia tempo que o mundo girava lá do lado de fora, mas eu nem percebi. sabe o que eu tenho aqui? um grande e fundo poço preto, preto não, azul escuro, e ele nem dói, parece que nem pra isso presta, ele só serve pra me tragar, e ele traga tão fundo, como se não fosse devolver nunca mais tudo isso que ele traga, as cores, as dores, meus cabelos, e isso me deixa triste, triste, como quando eu vejo uma criança com fome na rua ou quando o céu raia cor-de-lis, eu quis dizer, mas senti como se ele não fosse ouvir e então fiquei. ele se debateu um pouquinho com o lençol e deu risada de tão bagunçado estava tudo, engraçado, lá fora as coisas pareciam em perfeita ordem, mas naquele quarto, mas. enquanto eu pisquei eu pensei em um milhão de fotos e coisas que eu tinha pra dizer pra ele ou pra fazer durante a manhã, antes que chegasse o dia 22, mas me deu uma canseira tão pesada que eu só consegui suspirar. ele olhou e disse Você tá tão quietinha hoje, tudo bem? pensei que se eu tava quietinha não devia estar tudo bem, que eu jã não sabia apontar onde ficava o meu coração porque eu tinha a impressão que ele havia se diluído pelo corpo todo e perdido a essência e não fazia mais nada a não ser vagar pelas veias todas sem saber direito pra onde ir, coitado, não foi pra isso que nasceu, e essa coisa diluída de não saber o caminho transformava tudo em um grande emaranhado de coisas que não poderiam estar no lugar certo, mas não falei isso, não, falei só que estava tudo bem e que precisava ir trabalhar.
no caminho do trabalho não tinha flor nenhuma. já faz uns dias que a primavera começou.

08 novembro 2008

tenho andado distraído



depois do café, olho a janela que não me diz nada. são poucos os dias como esse; dias em que nem o céu parece saber decidir entre o sol ou a chuva. uma vontade contida ou uma confiança que se fez imprópria contróem setas dentro de mim, setas que não apontam, que simplesmente existem, como tantas outras coisas.


desde Laura Féliz que conversas não agregam tanto a mim como essas dos últimos tempos, últimos jantares, últimas preguiças, últimas dúvidas e decisões. calmarias de ser-em-azul, que chegam sem que as tenhamos chamado, que ficam, ficam, que se tornam parte de nós.


tinha treze quando me marquei pra sempre pela primeira vez. quatorze pela segunda. mesma época de Laura Félix, mesma época de André, mesma época de Clarice Drummond Artaud Cazuza e Cartola. mesma época de linhas e caminhos que me deixavam ver o final. desde então, apenas círculos.


poucas vezes me senti tão cansada sem cansar; tão funda sem doer; tão inteira sendo só metade. tenho saudade do ventar, do doer-leve, de Marina, cultivo aqui comigo o buraco das coisas doces devoradas pelas formigas de um tempo que atravessei sem ver. pela primeira vez desde alícia as borboletas voltam a percorrer o meu estômago, meu pulmão, meu pés braços mãos peitos pernas e a mente que ainda nunca dediquei.


me atrai aquela parte livre que passou tempos em casulo, mas não pelo casulo, nem pelas cores que lhe tomaram depois; me agrada o tempo enclausurado sem companhia, sem família, o tempo incluso, o hiatus solitário e doloroso, e cru. me atrai que esse hiatus seja temporário, que os ciclos se completem, que pra ele haja um sentido, uma razão; me atrai que tenha sido silêncio mas que então torne-se música, de melodia intensa e breve; me atrai que encante, que não tenha então raízes, que não tenha então limite, que seja cores. me atrai tudo que é intenso; me atrai o que vai acabar.


já não me dou com mudanças bruscas, já não sou mais da espera pelo dia-de-ser-tudo-para-sempre. mas coração é treinado; sabe entender quando o ritmo muda. sabe sentir quando desperta.

04 novembro 2008

já baixa a poeira nos livros da estante
os olhos de sol fitam rápidos
entorpecendo o peito em poesia

e eu que achava a prudência um dom
deixo-a para os mais bem resolvidos

a mim me basta respirar

03 novembro 2008

ê vinicius

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecidaE

se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

26 outubro 2008

narciso II

eu não sei o que o meu corpo abriga nessas noites quentes de verão. respirar de peito aberto é uma batalha a ser vencida dia após dia, com os olhos livres de buscas pelas verdades absolutas que nunca salvaram ninguém. carrego em mim a culpa condensada de ser a responsável por noventa por cento de tudo aquilo que condeno; e a esperança infantil do dia de cores fortes que haverá de trazer algodões-doces de mudança. há também a calmaria do coração quando me vejo frente a uma compreensão que me faz inumana, inacabada, indestrutível, e a tormenta aguda que me dói apática quando sinto vivo aqui cada sentimento novo - sincero, puro, cru - e que me faz intensa, inteira, impulso. sinto cada vez mais forte o cheiro doce da simplicidade que me chega à porta munida de dimensões que vi uma vez, mas que jamais esqueço; por vezes, entrego-me à preguiça, atrás de qualquer desculpa esfarrapada, e me deixo consumir cada pêlo, pele, parte, por um sol que acabei de conhecer, mas que sou íntima. do amor: quero fundo e crio aqui com o cuidado de uma mãe que acabou de parir - sou toda e inteira dos amores que escolho meus, mesmo que não os tenham escolhido. não me dou à senhora tristeza de aguardar que meus amores percorram o mundo e retornem a mim; sou provedora, apenas, encarando de queixo alto consequências eventuais. da tristeza: deixo vir com a condição de que venha em chamas, tudo que é tem de ser em todo. não me esquivo do caráter cazuza de tudo ou nunca mais, porque há de ser vivo vez ou outra. da coragem: vejo sempre dois ou três passos adiante; não tão perto a ponto de alcançar, não tão longe que possa desistir. da febre: sem ela nao sou. das lágrimas: saudades doídas do sal que adormeceu. do futuro: parto aos poucos a brisa da vontade. pra quando o verão nascer. pra quando chegar a hora.

"A culpa foi minha, chorava ela, e era verddade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar"
Saramago.

05 outubro 2008

é que eu amo o amor dos marinheiros
de adeuses, de despedidas, de cais e porto
mas é que ficaram os dedos no rosto
as mãos dadas, as frases erradas
os olhos fixos
teu olhar, em azul, ainda sussura
.
de bilico.

Eis que

.

agora, todos os domingos, participo em vento e pulso aqui: O Diazepam. A idéia é de escritos diários mantidos por mim, por Manu Salazar, por Mari Cioffi e por Amanda Audi, compondo os íntimos de coração, e pelos brutos Sandoval Poletto, Chico Marés e Fábio Pupo, fazendo as vezes ósseas e avermelhadas. Claro que tal ordem não existe; vamos levando o mundo como o mundo nos leva, olhos abertos e braços dados com o acaso.


.

25 setembro 2008


lembro de uma época, deve fazer uns quatro ou cinco anos. eu já tinha tatuagens. eu costumava visitar uma amiga num apartamento que ficava na esquina da lamenha lins com a visconde de guarapuava. o sobrenome dela é francês. ela queria ser advogada.

acendíamos marlboros vermelhos e abríamos garrafas de vinho ou de vodka e ficávamos assim, penduradas na janela, com nossas saias e nossos grampos de cabelo. discutíamos poesia - todas, as que líamos, as que nunca tínhamos lido, as que nós mesmas nos arriscamos a escrever. falávamos do rock n' roll e de florbela espanca. entendi meus primeiros baudelaires naquelas noites. bebíamos sem saber direito por quê, mas nos completávamos assim. quando achávamos que o apartamento já ficava pequeno em relação ao mundo, saíamos.

uma vez, vimos a rua 24 horas amanhecer. ela passou a noite toda batendo boca com um porco capitalista. eu tomei muitas taças de vinho - era inverno e a rua 24 horas vivia como nós. se não me engano, foi na mesma noite do show cover do led zeppelin ou dos doors. hoje, não é difícil compreender por quê tantas noites em claro me despertaram os olhos para um mundo outro que não este.

feirinhas do largo da ordem, noites em claro com palavras que não controlávamos - às vezes, nem entendíamos. estávamos no mesmo transe que permitia nosso pulsar. numa dessas noites, dei-lhe um beijo.

ontem um recado dela quase passou batido por mim. há tanto tempo que o mundo não é mais claro como aquelas noites - embora as saudades sejam tão compridas quanto. as vidas mudaram e o transe não é mais o mesmo, mas a herança do marlboro adocicado pelo vinho me traz de novo à florbela e a talayer. algum sopro daquelas noites passa ainda por aqui - então eu lembro de um tempo em que a lamenha lins era tão doce quanto ela.

13 setembro 2008

"que ela nunca fora assim, de tanta agonia pura, densa, toda vez que a olhava me parecia prestes a explodir"

03 setembro 2008

resolução de noites quentes ou tudo que sempre quis fazer mas me disseram proibido

....
......
.. .........




vou sair pra ver o céu
vou me perder entre as estrelas

02 setembro 2008





tenho uma hora e dezenove minutos pra viver tudo o que tem aqui


fome, um zunido leve na memória, aquela preguicinha gostosa de acordar sem pressa, prestar atenção no som que vem do outro lado da janela, a luz que vem do outro lado da janela, a estação que vem do outro lado da janela, mas que ainda não entrou. uma ou outra coisa que mexe quando meu sobrinho dá risada ou faz uma descoberta nova lá na sala, porque o mundo já havia acordado um pouco antes, um nervosismo sem remédio quando penso em coração, a ansiedade do fim de semana que amanhã bate aqui, a vontade de enumerar todas todas as vontades pra que nenhuma se perca, porque é isso que fazemos quando não temos nada a fazer, enumeramos vontades e sonhos e ânsias, que são tão nossos, tão nossos, talvez a única coisa que realmente nos pertença e só a nós, e depois abrir espaço pra uma melancolia breve e fina, a melancolia de estar aqui, de ser essa rotina agradável mas viciosa, vira e mexe queremos mudar mas as portas não alcançam. sentir o corpo acordar, esperando mais um dia daqueles que compõe, mesmo sem saber, uma solidez que passa batido mas que está lá. pulsando.


pulsar.



depois, viver o mundo.

28 agosto 2008

II

"Paula,

não sabes o quanto me recrimino por ceder mais uma vez a esse vício amigo da tinta no papel. Já começo assim, a justificar-me, mas tenho bons motivos (por um lado não quero te induzir ao medo mas alguma coisa à qual não sei dar nome me corrói em desejos de te fazer sentir culpada). Desde que paraste de ventar por estas bandas, tenho reconstruído aqui comigo mil versões daquele diálogo escuro e calado que tivemos dias atrás. Às vezes, por falta de uma verdade concreta para se agarrar, meu raciocínio me leva por caminhos confusos e penso que continuas a me tratar desse teu jeito cru só porque precisas de combustível para seguir, e os obstáculos reais dariam trabalho maior. Sou mais fácil. Sabes ler-me. Manipula. O pior de tudo é essa tua consciência, essa tua acidez, essa tua condição de saber quem és e como se portar. Conseguiste (não sei quais armas, quais conceitos, qual a cor que seguem teus argumentos, que são tão incontestáveis quando estás aqui mas que assim que dás as costas ficam tão leves que se perdem no ar, mas aí já é tarde e o coração já se cansou) mais uma vez me botar sem jeitos e não pude mais nada a não ser te olhar de novo com os olhos do amanhecer. Hoje, minha lucidez se faz presente, mas diga-me: que há na lucidez de amiga, que quando se faz necessária de verdade pula sapeca de um lado para outro, nos deixando tontos, e se esvanece no ar? Aí, estou em condição semelhante à essa em que não cansas de me colocar (não confio na lucidez, mas não posso simplemente mandá-la embora, escurraçá-la de mim, botar-me imune - preciso dela ainda, nem que dia sim, dia não, com intervalos compridos, lapsos que preencherei com essa vida paralela que me bostastes nos olhos, mesmo sem querer fazer parte).


serei breve hoje, e cada vez mais, como alguém que abandona o vício aos poucos, consciente das consequências que a vida lhe reserva. não considero mais meus desejos: não há lugar para eles nesse mundo que descobri não ser tão belo assim. ser frágil, podre, verde - mas ser e continuar sendo até que o tempo tenha ficado pra trás e nós, já sem certezas ou dúvidas, virado sopro.


Daniel."





"Sensatez,


tens de parar com isso, meu bem; precisas controlar-te. por um instante, ao sentir em tuas palavras a presença daquilo que vês em mim, quis chorar. não pude. mas não era isso que queria dizer. sinto se minhas lições de cuidado não se fizeram práticas em meu comportamento por esses dias, juro que acordo e anoiteço pensando em atitudes e julgamentos que crescem como pragas ao meu redor. mas sou difícil, não me convenço por pouco, tampouco sou amiga da fatia racional que me faz parte, somos como primas invejosas uma à outra e não unimos forças jamais, mesmo sob reprovação de toda a família.


estes dias passados, discutíamos sobre como as pessoa costumam ter sempre feição próxima à de algum animal. a linha do nariz é a mais comprometedora. em seguida, vêm os olhos. cheguei à conclusão que serias um urso, se bicho fôsses, e é assim que te sinto a presença, embora a ameaça não costume me botar medo. tento, incansavelmente, em frente ao espelho, transformar-me em bicho, mas ora sou peixe, ora morcego. "tola, enganas-te tanto", me disseram. "nem um nem outro, és raposa".


mas não sei porquê caí em contar-te este episódio, talvez mais uma dessas necessidades puras, quase doentias, de fazer-te conhecedor de mim. acho que o és, inclusive - não que seja grande mérito, que de mim não há o que se conhecer. sou reflexo de desejos e vontades (não os meus, os dos outros em mim), e não sei como é que funcionas assim tão sereno, que não te aborreces, não te cansas de mim, não me rasgas em pedaços e me deixas cair desfeita em partes pela pequena sacadinha que te afasta o céu azul.


na esperança de que não te preocupes, que confinuo defendendo contra todos aqueles que criticam os que não sabem ver um palmo à frente do nariz sem antes lhes perguntar se por acaso, algum dia, o quiseram.


Paula"


25 agosto 2008

tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara


um beijo pro caio e outro pro moço que me mandou um recado de lá de fora da outra janela. só fico com pena do pombo correio, que não viu o vidro e quebrou o bico

21 agosto 2008

sangrava sangrava sangrava e aí se fez o corte, doce era o que queria sentir quando pensou no metal frio e surdo, o metal dos olhos e da face, o metal que não se explica, que ninguém tem. chovia como uma nuvem carregada, daquelas cinzas, e mentia tanto, nada que falava era verdade, mentia como quem respirava, leve e sensato, como se fosse pra isso que vivemos e que oras, farás o que se não mentir, afinal, estás aqui e eu também, tanto tu não queres ouvir minhas verdades como eu não quero ouvir das tuas, portanto guarda, diz mentiras, chove em mim, avermelha, quero ver azul. mais tarde, quando tudo alaranjava, ventava sem sentir, vergonha não passava perto, não conhecia, o que é?, atravessou de um lado a outro devagar, no tempo que traduzo como mil anos, mas quem viu nem percebeu, era impossível associar minutos com horas com dias com anos, nada disso faz sentido quando se tem medo, ela sabia mas não quis contar. piscou forte e fez-se mar, era salgada e tinha pó, não era pura, o sorriso vinha quando vinha a dor, apenas, vais dizer agora que não sabes decifrar, céus, tudo isso me aborrece, dói meus dedos minha cabeça meu pescoço minhas veias saltam mas não são azuis, são roxas, às vezes verdes, eu sei, como aquilo que me dá desejo por ser cor de carne, gosto das cores das entranhas, das luminescências, do que é lânguido e do que é vão, disse, ficou branca. saltaram na face mil manchas nos pés mil abismos nos olhos agulhas perdeu de entender o mundo todo porque tinha ido comprar pão, reclamou meia dúzia de vezes da sequência da vida, quero ser velha, velha, quero ser dessa outra espécie cujos olhos me dizem que não há por quê ser agoniada desse jeito e que anda com dificuldade e que perdeu o nojo de tudo porque virou parte desse humanismo que é nojento e podre e mal cheiroso e que por isso não pode reclamar, e mesmo assim sofre e sofre porque entende tudo do mundo e da vida e porque não pode contar pra ninguém, burros, não conseguem ver, e assim cansada rezou um terço e saiu cheirando lírios, ou seriam margaridas, e continuou contando tudo aquilo que não era real e escondeu de todos que não acreditava naquilo tudo, não, imagine, eu, pra mim é tudo sépia. passou por lá mais uma vez como passava todo dia, mandou um oi de longe, jogou um beijo, pegou no ar, ah, se tu soubesses, eu não seria assim torta manca pensa que parece que dum lado do peito tenho chumbo que é pesado e doído de carregar mas que não quebra, não, também não posso deixar cair, já pensou, suspendo com essa dor-só, e seguiu, convencida, passo fundo no barro fresco, fingiu que não era nada, e quando viu já não estava mais ali, e o som era alto e tudo havia ficado pálido então foi só apertar bem forte bem forte bem forte, onde está o metal, aquele metal, pegou do chão, ventou de leve, os lábios em u, ficaria uma bela foto aqui, espalhou a poeira que era dela e era ela e não se deu ao trabalho de juntar, pensou que tudo isso daria uma boa história mas sentia que ninguém ia querer saber, desejou que alguma coisa horrível acontecesse pra que pudessem sentir pena, se auto puniu, que coisa horrível essa de se dizer, menina, mas fazer o que se é o que eu sinto de verdade, mas ninguém precisa ficar sabendo, é, é melhor não contar que quando cansada sonha que venham bombas tiros balas mortes sangue, se lavava em sangue sem ninguém saber e era quando tudo ficava amarelo que todo mundo sabe é a cor falsa mais verdadeira que se pode ver com esses olhos, que servem pra quase nada, afinal, se fizessem direito seu trabalho, se vissem direito, eu não sentia tanta sede de ver tudo tudo e ainda a sensação que depois de ver tudo vou querer ver mais coisa do que se existe, deixa disso, nem existe tanta coisa assim, no fim, bem no fim, vai tudo servir pra nada, nem metal nem vermelho nem velho nem barro, tudo isso vai dar um nó, silêncio, olha com calma, não abre muito o olho não, esse preto ofusca, é muita luz, fecha aqui comigo agora, ela quis dizer mas a voz não veio, chutou dois galhos pisou em outro e foi embora.


soprou um vento forte no quarto imundo
ninguém entendeu
o quarto não tinha janelas.
o cheiro lento que correu
junto com o arrepio sutil
também não tinha explicação.

demorei a entender o cansaço da vida
ele chegou quando eu já não queria
entender mais nada

no quarto sem janelas
morava uma ironia disfarçada de obediência
tão dissimulada que até machado,
meio zonzo,
confundiu com um gato.

18 agosto 2008

Observação Teórica

Guilherme espreguiça-se tranquilamente. Acabou de acordar. A cama é de casal e Guilherme está nú. O quarto tem uma janela grande, de vidro, coberta por uma cortina clara. Uma das paredes está encoberta por uma estante com livros e perfumes. Outra, por um grande espelho na vertical. Há um pôster na parede chamado "The Love Gun". Quatro peças de roupa no chão, três escuras e uma clara. Guilherme está sozinho. O quarto não é de Guilherme.
Pela janela, uma brisa leve traz as primeiras saudações da primavera.

16 agosto 2008




- qual o tamanho do céu?
- não sei. acho que não tem tamanho. não dá pra medir.
- qual o tamanho da lua?
- a lua é grande. dá pra ver daqui. mas é bem menor que o céu.
- como você sabe?
- eu volto pra casa triste todas as noites, sozinho. quando é dia eu não fico triste. mas à noite eu choro. acho que é porque eu presto mais atenção no caminho. quando eu tô em um lugar movimentado, depois que eu me despeço das pessoas, a noite parece maior.
- maior do que o quê?
- maior do que eu.
- você não é tão grande.
- durante o dia, eu penso que sou.




- qual o tamanho do céu?
- qual céu?
- o céu, ué.
- não sei. que pergunta mais besta.
- é que me disseram que o céu não tem fim.
- claro que tem. mas a gente não chegou nele ainda.
- algum dia a gente vai chegar?
- claro que sim. já chegamos na lua, em marte, descobrimos vários planetas novos. algum dia, vamos descobrir todos. e dominar todos também.
- e depois?
- depois o quê?
- o que acontece depois?
- sei lá, ué. depois acabou.




- qual o tamanho do céu?
- não sei o tamanho do céu.
- não quer saber?
- não.
- por que?
- acho que tem coisas que não devemos saber.
- por exemplo?
- por exemplo o tamanho do céu. por exemplo, pra onde as almas vão. o que as crianças pensam. como se mata a saudade. por que pessoas morrem de fome. pra quê existem as lágrimas. o que é que o coração quer. essas coisas.
- não seria mais fácil se soubesse?
- ninguém quer que as coisas sejam fáceis.
- eu quero.
- não quer, não.
- é que se for muito fácil, acaba logo.
- é que se for muito fácil, todo mundo faria. se eu soubesse o tamanho do céu, eu teria dito. e você teria aprendido e ido embora. e eu teria te visto partir. se eu soubesse o tamanho do céu, não estaria aqui agora vendo nos seus olhos, tão de perto, essa curiosidade pura e infantil. se eu soubesse o tamanho do céu, não poderia te amar tanto.
- se eu soubesse o tamanho do céu, te convidava pra um passeio.
- se eu soubesse o tamanho do céu, eu nunca te contaria.




a beleza do samba que dói


"Ah, meu amor não vais embora
Vê a vida como chora, vê que triste esta canção
Não, eu te peço, não te ausentes
Pois a dor que agora sentes
só se esquece no perdão
Ah, minha amada me perdoa
Pois embora ainda te doa a tristeza que causei
Eu te suplico não destruas tantas coisas que são tuas
Por um mal que eu já paguei
Ah, minha amada, se soubesses
Da tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
Se tu soubesses num momento todo arrependimento
Como tudo entristeceu
Se tu soubesses como é triste
Perceber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus
"

10 agosto 2008

"Querida Paula,

queria que tu soubesses de uma vez por todas o que se passa. carrego comigo no peito aquele amanhecer vermelho pálido e desajeitado, embora já tenha passado por tentações várias, do tipo esquecer em uma esquina qualquer, atear fogo, rasgar em pedaços, exagerar em narrações para desconhecidos na esperança de que tudo se dissipe. pobre de mim: mal sabia que a partir daquele amanhecer muitos outros se seguiriam, dia após dia. e, senão igual àquele, próximo o bastante para me encurralar as lembranças em um bote que não faz mais do que remar à toa.

perdoe-me se pareço desesperado ou se me muno do exagero para dirigir-me a ti; é que nesse teu jogo tu não deixas abertura pra agirmos de outra forma (sei que deves estar agora com mil argumentos e justificativas e tentativas de convencer-me do contrário; porém, já fizeste de tudo outras vezes, e há de acreditar que examinei cada atitude tua com uma minúcia que jamais imaginei dominar). quero dizer que - e acredito que já podes prever - não vejo explicação outra para isso que praticas sem escrúpulo algum a não ser a imaturidade digna das mulheres belas. aquela imaturidade que teimei por confundir com segurança, mas que confesso: tem efeito igual ou maior sobre os homens. de tudo que tu aparentas (digo nessas palavras porque nunca se sabe ao certo o que é que escondes por trás de certas atitudes: seria possível interpretar-te de mil outros jeitos e por não saber nunca com certeza e pelo medo de fazer de tolo é que você sofre solitária todas as noites: és vítima de si mesma) e para qualquer conclusão me baseio nessas pálpebras que tu apresentas assim com tanto domínio e que nunca estão mais abertas do que tu permites que estejam. acredito eu que essa é talvez a tua parte que mais me põe em fogo e que mais anseio por conhecer.

por fim, encaro com tristeza o rumo que dás as coisas e confesso que tenho andado fatigado desse jogo, mas por algum motivo que não saberia explicar mantenho ainda uma necessidade de correspondência. talvez, para convencer-me da não reciprocidade de tudo. mas apesar de tudo ainda recuso-me a acreditar que não sabes o que fazes e, concluindo assim que entendes da alma dos homens por vezes mais do que eles próprios, peço que entendas também que contra a esperança não há remédio a não ser matá-la.


meu receio se sustenta pelo medo da mágoa,
Daniel."







"Correnteza,

fugiram-me as justificativas. por mais que acredites que não, entendes de mim o mesmo tanto que eu mesma - por isso talvez saibas oferecer aos meus causos um veredicto mais justo do que eu própria poderia defender. contei-te, noutra vez, sobre o discurso de uma cigana que lia mãos que visitei certo dia (permita-me recordar, caso não o possas. tal cigana procurou em minhas palmas indícios de um futuro ou de um presente, e deixou claro que sua integridade não a permitiria de contar-me tudo por motivo de proteção. tudo o que me disse, porém, é que minha vida há de ser curta. não soube explicar se tal fato era o motivo ou a consequência desse meu vício incontrolável pelo impulso: não ouço nada a não ser o coração. e não sei dos outros, mas o meu é um menino levado, mimado e sapeca, e nem eu mesma consigo prever. é tão imprevisível que já acostumamos - eu e minha razão - a precaver próximos passos. paradoxal, tu dirias, e eu concordo. mas é assim que as coisas são e por mais que tentemos, para o desespero da humanidade, não é sobre tudo que podemos impor o controle. e penso que assim continue, querido, ou não haveria mais graça em se viver).

peço, portanto e humildemente, perdão às confusões que trago à superfície, e prometo dedicar-me em pensamentos à estratégias de cuidado maior daqui pra frente. mas me sinto também no dever de reforçar que minha promessa circunda às tentativas e não aos resultados: sou, acima de tudo, humana, e não tenho em pretensão comportar-me diferente. não tive outra escolha a não ser assumir minha natureza escorregadia e não tenho certeza sobre os rumos aos quais isso me levará; talvez seja uma sina essa cousa de não pertencer a ninguém. não se engane, coração: nunca foi meu desejo seguir assim um caminho sem direção. quando menos entendida sobre como as coisas passavam no paralelo do meu peito, sonhava em assumir um sobrenome, um protetor, conformar-me com a felicidade constante e acomodada. me vejo porém cada vez mais distante desse sonho, mas não me meto em encrencas comigo mesma: aceito apenas, convicta de que assim é que se deve ser.


sem cobranças quanto aos seus dias do momento em que ler essa carta em diante, e mergulhada na angústia que sabes traduzir sempre melhor dentre todos os outros, me despeço.
Paula"



09 agosto 2008

estive por aí


encontrei murilo em um encontro forçado num bar, no centro da cidade. murilo me conhecia de nome mas era cru do julgamento que todos os outros fizeram de mim: sabe meu nome, apenas, e quando o nome é tudo é quando a coisa é mais bela e linda porque ainda há tudo (novo) por vir. fui pelas beiradas. entre um ou outro daqueles silêncios constrangedores que se evita mas nunca se consegue disfarçar, falamos da vida, dos sonhos, dos gostos, das cores, das dores, das carnes, do álcool, do vício, dos fortes, das noites, das luzes, dos ventos, das placas, das ruas, das idas, das canções, dos mundos - meu e dele - e de tudo que jamais caberia numa noite só não fosse a sensação de que tudo era sonho e ia acabar assim que o coração retomasse o ritmo.

assim como a noite, que zombava cínica de nós dois, estranhos de nós mesmos naquele espaço de tempo (fantástico que o mundo seja desse jeito, grande e grande e mesmo assim eu tenha tido a delícia de dividir ali o mesmo pedaço de mundo contigo) os copos tinham vida e iam e voltavam e multiplicavam-se sem que pudéssemos fazer nada. eu não podia.

murilo falava e eu falava em resposta. pelo segundo ou vigésimo copo, não me lembro bem, pensei que não havia mais ninguém no mundo que eu poderia querer que estivesse ali no lugar de murilo. o mundo era grande, eu sabia; mas aquele bar era pra mim toda a parte de vida que me interessava.

o amor não tinha nada a ver com aquilo.

fomos dormir quando o sol chegou, acordei com as mãos formigando e o peito em azul. demorei a fugir do braço esquerdo de murilo (que era pequeno, mas o peso daquele braço tinha força igual ao meu medo de viver mais uma vez).

não olhei pra murilo. deixei um bilhete:
peço a gentileza de esquecer.


07 agosto 2008

não dá tempo pra mais nada a não ser falar da agenda

7h sem café porque dá úlcera
8h30 jornalismo opinativo na floresta
10h pegar cem quilos de xerox pra ler com pipoca no fim de semana
10h10 matar aula ruim de comunicação, sociedade e cultura pra fazer a rescisão da carteira de trabalho que tá atrasada há dois meses
11h fazer as unhas porque eu também sou filha de deus
12h comida é vida, minha gente
12h30 fazer cópia de documentos sigilosos para uma reportagem
(mwahaha)
13h trabalhar
17h passar no politécnico e nas mercês, pegar a Rê e tomar um café
19h reunião de pauta, sofrer
21h festinha alcoólica de comunicação
21h01 xingar os bafômetros da cidade e a Lei Seca
23h30 sair sóbria da festinha pra ir pra outro lugar e continuar sóbria porque se dirigir, não beba. amar isadora e renata durante a noite

25 julho 2008

em 1984, no circo voador, alguém diz

agora é hora de enxugar as lágrimas e voltar pra sacanagem!, que é muito melhor


benzinho, eu ando pirado. rodando de bar em bar, jogando conversa fora, só pra te ver
passando, gingando, me encarando, me enchendo de esperança. me maltratando a visão


girando de mesa em mesa
sorrindo prá qualquer um
(filha da puta)
fazendo cara de fácil,
jogando duro com o coração
 

© 2009foi por descuido | by TNB